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quinta-feira, 2 de junho de 2016

Mr. Robot - My Brain Has Been Hacked

Esses são alguns comentários sobre a primeira temporada de Mr. Robot.



Elliot Alderson é um jovem programador que, em decorrência de alguns traumas do passado, sofre de uma desordem que o torna anti-social. Durante o dia, ele leva uma vida medíocre como técnico de segurança virtual na AllSafe Cybersecurity e, durante a noite, ele é um hacker vigilante. Elliot se vê numa encruzilhada quando o líder de um misterioso grupo de hackers, Mr. Robot, o recruta para destruir a firma que ele é pago para proteger, a Evil Corp. Motivado pelas suas crenças pessoais, ele luta para resistir à chance de destruir os CEOs da grande corporação que ele acredita estar controlando - e destruindo - o mundo.

Criada por Sam Esmail e com elenco de Rami Malek, Christian Slater, Martin Wallström, Carly Chaikin e Portia Doubleday. Exibição nos EUA por conta da USA Network e no Brasil, Canal Space.

Mr. Robot certamente foi uma das mais interessantes, e instigantes, surpresas apresentadas na TV em 2015. Portada de uma identidade cinematográfica que traz personalidade ao programa, é possível sentir-se dominado pela atmosfera da série logo em seus primeiros minutos, o que é potencializado pela montagem que acompanha a paranóia e ansiedade de seu protagonista. Outro ponto que reforça tal imediatismo na imersão é a qualidade vinda do roteiro, que constrói personagens tridimensionais e uma trama que não se preocupa em ser traiçoeira com o espectador, em outras palavras: Não tem um pingo de arrependimento de suas rasteiras aplicadas em nós.

Elliot é um jovem estranho. Essa estranheza de longe é algo inédito na TV, tendo em vista que é comum atribuir a uma pessoa de seu tipo - dependente químico, introspectivo e impenetrável - o caráter de genialidade. De fato, Elliot é um rapaz genial, sua inteligência é notável, sobretudo quando se trata de sistemas de informação - engenharia de sistemas, melhor dizendo. E isso é importantíssimo para a história. Ele faz uso de suas habilidades para praticar o vigilantismo cibernético e denunciar criminosos como pedófilos ou traficantes, o que é um ponto que entra em conflito com o seu desinteresse em relacionar-se com as pessoas - e nesse caso, o problema que Elliot tem com contatos e abraços se mostra como uma forte representação desse distanciamento intencional -, porque mesmo sendo assim, ele ainda acredita que de alguma forma pode salvar o mundo e proteger as pessoas.

No entanto, é uma proteção ao seu modo. E esse modo o qual encontrou para proteger e se aproximar das pessoas não é lícito, pois ele as hackeia para conhecê-las, construindo um acervo de dados pertencente a cada pessoa. Ninguém escapa desse processo, nem mesmo os amigos mais próximos, os quais são poucos. É uma aproximação totalmente artificial e assimétrica, uma invasão pessoal onde segredos são transparecidos e a vulnerabilidade é aumentada. De sua boca sai um discurso de ódio em relação ao rumo que a sociedade vem tomando, porém é nítido perceber que em sua concepção, nós, pessoas comuns, somos vítimas. As vítimas de uma ínfima porcentagem de indivíduos que controlam todo o mundo, exclusivamente de acordo com os seus interesses econômicos.

A série tem uma narração em Voice-over que quebra a quarta parede. Nela, Elliot tenta desenvolver uma certa amizade e cumplicidade com o espectador, mesmo considerando, desde o começo, a artificialidade da mesma: "Talvez eu devesse te dar um nome. Mas pra quê? Você só existe na minha cabeça. Não podemos esquecer disso. Merda, eu realmente estou falando com uma pessoa imaginária" (Mr. Robot S01E01). Não há um tratamento desdenhoso por parte de Elliot para com o seu amigo imaginário, muito pelo contrário. Contudo, a tentativa de edificar a cumplicidade é constantemente embaçada pela desconfiança. Elliot sofre de paranóia e sua mente é perturbada pelos fantasmas do passado, por projeções de seguidores que nem ao menos sabemos se existem realmente. Esse mar de confusões psicológicas faz com que ele desconfie de todos, inclusive de nós, observadores. É uma relação instável a todo momento.

De volta ao plot central, Elliot conhece Mr. Robot - interpretado de maneira surpreendente por Christian Slater -, uma figura que, ao testemunhar o potencial do jovem engenheiro, lhe oferecesse a chance de fazer parte de uma equipe de hackers, a FSociety, e protagonizar uma arrebatadora "Revolução Global". O corpo de membros do time, diga-se de passagem, é composto por figuras caricatas: um gordo, um negro, uma menina com atitude, um velho, um esquisito/maluco e uma árabe - sendo esta a figura que mais me pegou de surpresa, só foi uma pena vê-la tão pouco desenvolvida, e envolvida, dentro da trama, pelo menos nesta primeira temporada.

A tal revolução prometida diz respeito a Evil Corp, corporação ficcional que é detentora majoritária de diversos mercados no mundo, desde os de bens de consumo até os de crédito e finanças, acentuando, aliás, algo muito recorrente em narrativas de Cyberpunk: a dominação mundial por parte de gigantescos conglomerados. O objetivo da FSociety é derrubar a corporação e instaurar um reboliço, que segundo eles, libertará o mundo, as pessoas comuns, das amarras impostas a nós sem qualquer consentimento. Para isso, Elliot é a peça fundamental da conspiração, já que ele é pago para proteger a corporação através de seu emprego regular. A propósito, a Evil Corp foi a responsável pela morte precoce de seu pai, Edward Alderson, morte esta ocorrida devido a negligência e ganância vinda por parte de seus administradores.

Em termos de cinematografia, Mr. Robot apresenta uma identidade visual que se comporta de maneira "rebelde" durante toda a temporada. Chega a ser engraçado observar como a rebeldia exercida gerou inúmeros tópicos de discussões na internet, com alguns defendendo e outros condenando ou lamentando a atitude dos responsáveis. Pois bem, expliquemos essa rebeldia: Há em Mr. Robot frequentes "quebras" de composição e incessantes desobediências à regra dos 180º. Sendo mais claro, os planos, e as cenas como um todo, são compostos de forma incomum, onde os personagens, quando em uma conversa, por exemplo, são postos com espaços abusivamente sufocantes à frente, não havendo a rotineira rima visual e espacial em que cada personagem ocupa uma extremidade do campo, dando assim, a sensação de proximidade e face a face. Também há na composição o arranjo dos personagens em diminutos pontos de intersecção das regras dos terços, conferindo excessivo espaço vazio acima da cabeça e em outras partes do quadro. Visualmente, essas decisões acabam expressando a perturbação de seus personagens e a vulnerabilidade deles, pois parecem ser afogados pelo ambiente que os cercam. Tetos, por exemplo, são constantemente mostrados e a profundidade de campo limitada ajuda a exercer tal impressão. Mas vale salientar que em certos momentos a "desordem" visual empregada distrai a atenção, exatamente por ser difícil de ignorar o seu uso. É como se ela gritasse: "Ei, estou aqui! Olhe!", o que culmina em uma distração desnecessária. Mesmo assim, tem uma cena em especial, com Elliot e sua psiquiatra, Krista, em que é feita uma construção visual esplendorosa, onde há uma gradativa inversão da figura de Elliot na cena, de dominado para dominador. É de descassetar a mente.

Estruturalmente, além do já mencionado Voice Over, a série faz uso de meios como flashbacks, alucinações e situações hipotéticas. Não para ser redundante e preguiçosa, mas para esmiuçar a vida e a mente de seu protagonista. A propósito, o foco da narrativa é este. O plano da FSociety - grupo que muito nos lembra os Anonymous - é relevante, sim; inteligente e incrível também, pois as missões para seu avanço fazem parecer as quests de um Video Game - daqueles que possuem infiltrações na surdina. Porém, o enredo claramente se enverga para falar sobre um jovem solitário, dependente químico, negligente em relações e traumatizado pelo passado, principalmente a perda de seu pai e as péssimas lembranças com sua desprezível mãe. Elliot é uma personagem trágica, sua fisionomia transparece a perturbação psicológica e a angústia de estar preso em farsas. E por causa do cuidadoso trabalho de escrita, o que acabamos por testemunhar é um avalanche de reviravoltas que aumenta o nosso interesse a cada instante, fazendo-nos relevar alguns momentos medianos. As revelações são extraordinárias e explicitam a inteligência da história.

No que diz respeito as atuações, é preciso destacar o trabalho de Christian Slater como Mr. Robot e de Martin Wallström como Tyrell Wellick. Ambos representam pontos de destaque na temporada, os quais sustentam uma química interessantíssima com o protagonista. Mas é o magnetismo de Rami Malek que mais impressiona. Em uma entrega total a natureza de sua personagem, Rami constrói um Elliot paranóico e vulnerável a emoções intensas, apesar de sua frieza característica. A timidez e o olhar esbugalhado e vidrado são resultados adquiridos durante a decadência emocional e psíquica. A persistência no uso do casaco preto, por exemplo, pode ser compreendida como um dos traços de seu distanciamento intencional. Com certeza, este é o ponto alto de sua carreira, o que é muito justo.

Assistir Mr. Robot foi uma experiência incrível. É uma série que ainda nos reserva inúmeras surpresas e respostas para as pontas deixadas soltas ao final da temporada. Uma série autêntica e instigante, uma lição de Storytelling com certeza. A inteligência do roteiro e a tridimensionalidade de seu desenvolvimento, o que pode flertar com discursos de cunho social e político, tornam a série uma janela para o nosso atual rumo como sociedade. Elliot estaria decepcionado com a gente. Portanto, não é apenas "maneiro" assistir Mr. Robot. 

É importante.

Assistam.

domingo, 13 de março de 2016

The Last Kingdom 1ª Temporada - O Destino é Tudo

Ao término da temporada de estréia da série inglesa The Last Kingdom, minhas palavras me pediram permissão para formular algumas observações sobre esta adaptação audiovisual da obra de Bernard Cornwell. Um pedido nada irritante, veja bem. Elas me abordadaram armadas com alguns gracejos e exalavam uma coerência respeitosa. Nada de obsceno. Além do mais, o termo "minhas palavras" pode ser entendido como "minha opinião", ou melhor, "meus comentários". Essa vontade de comentar costuma ser sentida quando nos deparamos com obras bem-feitas. 

Então não terei a audácia de não conceder a oportunidade.



Pode-se dizer que estamos presenciando nos meios de séries televisivas (principalmente) uma produção crescente de shows com a temática Medieval. É claro que é simplório empacotar tudo dentro da caixa "Idade Média", já que não parece nem um pouco preciso, levando em conta que muito dos pivôs desse cenário carregam mais as características da Fantasia, que não necessariamente precisa seguir todas as regras do Medievalismo, apresentando aspectos de outras épocas históricas também. Assim como aqueles que apresentam os aspectos genuínos do Medieval podem não trazer nenhum dragão ou criatura mitológica consigo...

Enfim!

Isso não vem ao caso agora. O que eu intencionava dizer era que o sucesso de séries, como Spartacus, Roma, Vikings e, obviamente, Game of Thrones, fagulharam nos produtores das grandes emissoras uma vontade de investir no gênero. Além do sucesso, o que todos esses trabalhos tem em comum é a representação dos comportamentos do ser humano numa época longínqua, onde a religião e o sobrenatural eram mais temidos e vivenciados; terras e aliados eram bens essenciais de sobrevivência; a honra, um dever de vida; os posicionamentos dentro da sociedade, decididos antes mesmo do nascimento. Tendo magia ou não; tendo dragões ou não. O gênero se tornou em um seguro investimento.

Seguindo a caravana do sucesso, consigo pensar em duas séries recentes lançadas no ano passado: The Shannara Chronicles (ainda escreverei sobre) e The Last Kingdom. 

Baseado nas Crônicas Saxônicas de Bernard Cornwell, produzida e exibida pelo canal BBC e com os toques dos produtores da série de Downton Abbey, O Último Reino narra a trajetória de Uhtred, um rapaz divido pelos rumos de seu destino, em uma Inglaterra ainda não nascida, palco de constantes invasões vikings e, é claro, em guerra.

Não que fosse indispensável revelar isso, mas eu jamais li As Crônicas Saxônicas. Já li Cornwell, sim, e digo que ele é um escritor de romances históricos sem igual. De suas histórias, certos itens se destacam, como a sobriedade das regras do universo narrativo, as minuciosas pesquisas e descrições, as reviravoltas e as paredes de escudos (uma imersão que nos drena o fôlego). O resultado em tela se mostra esforçado em manter-se fiel ao estilo do autor. No entanto, o que se transfigura de forma verossímil para a telinha mesmo, é um outro ponto também interessante e não menos relevante, que é: O temperamento de seu protagonista.

A interpretação de Uhtred ficou a cargo de Alexander Draymon, enquanto os breves eventos da infância dele ficaram com o Tom Taylor. São composições distintas, pois a mais jovem teve de se preocupar em explanar as canduras de um menino passivo ao que o cercava, e a mais velha, a postura de um homem destinado em procurar vingança. Mas o bacana é como o temperamento de Uhtred interfere nesses dois hemisférios, denunciando nele, mesmo após homem-feito, os resquícios de um sujeito inconsequente, debochado, pirracento, arrogante e teimoso. 

Mas vejamos o background  do personagem:

Nascido com o nome de Osbert, filho caçula do Ealdorman Uhtred, ele ainda na infância é rebatizado como Uhtred filho de Uhtred, quando seu irmão mais velho é assassinado. Após presenciar a derrota e morte de seu pai para os vinkings dinamarqueses, Uhtred Filho é sequestrado e criado pelos inimigos, e à medida que cresce, passa a ser como um deles. Porém, sua família dinamarquesa é assassinada e os vikings desconfiam que tal barbárie tenha sido orquestrada pelo filho adotivo e saxão. Sem condições de recorrer aos vikings, pois era tido como um assassino; nem para os saxões, pois havia se transformado num bárbaro pagão; e apenas acompanhado de sua amante, Brida (Emily Cox), Uhtred compreende que há um árduo caminho à frente para alcançar seus objetivos: Vingança e a reivindicação de seu direito como Ealdorman de Bebbanburg. 

Esses avalanches de infortúnios na vida de Uhtred constroem uma personagem tridimensional e imprevisível, porque suas ações impulsivas fazem o espectador temer pela vida dele, por diversas vezes. Muito se desconfiava de como Draymon se sairia na tarefa de interpretar um protagonista do Cornwell. Alguns alegavam que o visual clean e puxado no Orlando Bloom era um apelo desesperado pelo público teen e em nada fazia jus ao que se idealizava nos livros. É de se admitir, porém, que Uhtred se destaca visualmente dos demais personagens, não exibindo a usual "sujeira Cornwelliana" - aquela imagem de piolhos pra tudo quanto é lado e uma cusparada sem fim. Mesmo assim, é preciso apontar o trabalho de Alexander Draymon como consistente e disposto.

Em relação ao enredo, a temporada em questão engloba os eventos dos dois primeiros livros da série (O Último Reino e O Cavaleiro da Morte). Isso nos leva a ponderar sobre o ritmo da série, que é corrido, prejudicando o envolvimento com a trama. Sobretudo, essa urgência atrapalha mais durante os eventos da infância de Uhtred, o que acaba esfriando a empatia ou a preocupação para com alguns conflitos e personagens. A série lida melhor com o seu ritmo conforme os episódios avançam. A introdução da feiticeira Iseult (como ela me fez lembrar da inesquecível Nimue!) e a batalha do episódio final são executadas de maneira primorosa. 

Se houveram coisas em que essa temporada foi competente, essas coisas foram as numerosas relações dentro da narrativa: a relação entre ingleses e vikings; entre Uhtred e os vikings; entre Uhtred e o rei Alfred, ou entre sua própria divisão pessoal; entre a igreja católica e o paganismo; entre os rituais antigos e a reza ao Deus; e muitas outras. Trata-se de duas forças em atrito uma com a outra, gerando drama, uma técnica básica de Storytelling, que quando bem desenvolvida entregam histórias preciosas. Pessoalmente, ver o papel das religiões nas histórias do Bernard Cornwell é uma atração reflexiva. 

Dirigida por mais de um diretor (coisa muito comum para uma série televisiva), TLK apresenta uma câmera forte no hand-held, conferindo quase um teor documental. Mas o uso constante dessa câmera acaba prejudicando a dramaticidade de certas ocasiões. A profundidade de campo é limitada e os cenários são pouco aproveitados por causa disso. Talvez o fato de ser inspirada em eventos históricos possa explicar as decisões dos cineastas, ainda assim é um ponto negativo. Quanto ao design de produção, a série se mostra fiel a já mencionada "sujeira cornwelliana", e direciono certo destaque ao figurino e maquiagem de Uhtred, porque se ele é um personagem que muito se distingue dos demais, grande parte da culpa está em sua caracterização. Houveram inúmeras críticas ao visual dele, mas para mim, por ele me remeter ao Geralt de Rívia (da série The Witcher) foi uma experiência incomum e interessante. Acabei gostando. 

Não acho frutífero tentar encontrar um espaço para The Last Kingdom entre os sucessos como Game of Thrones e Vikings. Pra falar a verdade, não acho nem necessário. A série consegue adquirir pra si uma identidade, ainda que em processo de amadurecimento. A trilha sonora, por exemplo, é discreta, pois tenta fugir dos padronizados acordes de violoncelos, mas acaba não estabelecendo uma presença, exceto para o tema de abertura e a música tema de Iseult. O elenco, por outro lado, é competente, e menciono aqui os nomes de David Dawson, Adrian Bower e Ian Hart (Sim, ele foi o professor Qurinus Quirrell de A Pedra Filosofal).

Se lhe agrada enredos com temáticas de época, história da Inglaterra e Bernard Cornwell, The Last Kingdom é capaz de atender seus gostos. Após o segundo episódio a série engata a marcha de velocidade e se desenvolve com melhor ritmo. A boa recepção da crítica, a compreensão do público para com as limitações de uma primeira temporada, o razoável sucesso e a qualidade da produção, fazem dela uma promessa que merece atenção.

Menção: A intro/vinheta tem uma arte fantástica acompanhada de uma música de valor cultural riquíssimo. Vale a pena conferir.

***

Alguns pontos de partida começam como saxões, mas às vezes desvios escusos acabam nos surpreendendo e nos transformando em dinamarqueses. O tempo passa, e o trauma de ter sido expelido de minhas raízes se enfraquece, até ser substituído pela sensação de pertencimento, como se um estrangulamento aos poucos se metamorfoseasse em um abraço cálido. Sou dinamarquês - ouço-me dizer. Eu acredito. Eles aceitam. O passado não mais investe dores ou angústia. Porém, novamente sou traído pelo caminho. A minha segunda raiz agora é expelida também. Seu traidor - ouço eles dizerem. Não é mais um dos nossos - ouço eles dizerem. Eu não tive culpa, tentaram me matar também. Eu não fiz nada. É. Eu não fiz nada. Mas quem irá acreditar em mim? No fundo, nunca pertenci a lugar nenhum. Foi só uma sensação, nada mais. O que me sobra é o desejo por vingança, a mais antiga forma de justiça. Apesar disso, o caminho insiste em mudar, de novo, arrastando-me para longe. Estou começando a ficar farto de tudo. Eu perdi muito desde o começo. De repente, algumas peças se encaixam e repostas aparecem. Pelo visto, o jogo irá manter essa dinâmica. Mas eu não exponho temor algum, pois o destino é inexorável. O destino é tudo.