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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

1/10

Beira de estrada. Num mercado ao longo, um homem empacotava suas compras apressadamente. Ele estava eufórico, mal conseguia controlar suas próprias coordenações e como resultado, ao receber seu troco, deixou que uma moeda de dez centavos escapulisse de seus domínios e rolasse calçada abaixo, rumo ao asfalto conturbado. O homem, com um impulso automático, correu atrás da moeda numa dedicação nada recíproca, onde seu pé direito tentava deter a fuga, mas a moeda continuava a rolar e o homem, à estrada, atenção não prestava. Obviamente, em certo momento, ele conseguiu detê-la, conseguiu recuperá-la. E após esse certo momento, ele lembrou-se de suas compras, lembrou-se de sua pressa, mas também, não menos importante do que todo o resto, lembrou-se que estava sob a agitação de uma estrada.

E morreu.

Quanto a moeda, a pressa e as compras, todas passam bem.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

As Matérias Corroem

Choraram as flores
Pela falta de vários amores
Sangraram as folhas
Pelo vacilo de algumas escolhas
Silenciaram os ventos
Pela fadiga que nos conduz ao relento
Secaram os rios
Pois pelo papel muitos se tornaram frios
Murcharam os frutos
Por não irem ao encontro dos famintos urros
Endureceram os solos
Tal como os corações nossos.


A vivacidade se desfaz
Num ritmo que apenas satisfaz
Os animais ditos racionais
Cuja a crença está em casuais finais
E quem, aliás, vos faz compreender os aspectos mortais?
Digo, pois, talvez tristeza
A explicitadora crua da fraqueza.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Correntes de Cifrões

Miomir anda pelas ruas da cidade. Ele tenta gostar disso por precisar fazer isso, pois o isso é o seu trabalho. Ele sempre fora determinado em considerar-se um "guerreiro" livre de amarras, espontâneo e desinteressado por quais rótulos eram conferidos sua pacata pessoa. Mas ultimamente, em vista do quanto isso é desconfortável, ele vem sentindo as pernas pesarem. Olhando ao redor de suas andanças, Miomir vislumbra uma realidade mais perturbadora do que seus olhos, pertinentes otimistas, faziam-lhe enxergar:

Correntes.  
        
Elas serpenteiam pela calçada e asfalto, amontoam-se em casas e pessoas, e atingem distâncias imensuráveis. Preenchem o céu, ar e chegam a estremecer até mesmo o interior do mundo em que este jovem vive. Forçar as pálpebras, o pobre Miomir arriscou, no entanto, refutar a sua mais nova visão do mundo, mostra-se ineficaz. Anos de sossego e independência desvanecem conforme sua vista torna-se cinza. A admiração permite que a ponta de uma corrente passe rente a ele, uma corrente ausente de um cativo. O tilintar desta gela a espinha de Miomir, gerando um impulso, inútil, de correr. Este, porém, era o resultado da negligência. O fim de meios os quais Miomir não procurou esforços em extinguir de sua vida. Ele permitiu esta prisão, coexistiu com a aproximação das correntes, e agora elas estão ali para levá-lo.

Como um criminoso encontrando a detenção, ele reage. Mas agora agarrado pelos pés que antes guiavam uma vida independente, Miomir apenas pode permitir a si olhar ao redor mais uma vez. Neste redor, percebe que as pessoas aceitam a prisão. Trabalham, estudam, amam, enfim, vivem com elas. Ele até mesmo ver pessoas matando por elas, destruindo futuros com elas, roubando ou guerreando por elas. Então Miomir entende que é o único ali resistindo à prisão, ecoando e gastando seu fôlego para o vazio, para um mundo que não o enxerga mais. As amarras, porém, apresentam-se como anjos libertadores e recompensadores, munidos de felicidade e prazer pleno. E uma vez selada a infeliz epifania, Miomir, numa compreensão que jamais ocorreria no que agora ele pode nomear de "antigo eu", admite que não seria tão ruim ser um prisioneiro... Um escravo dos cifrões.