Casal no restaurante, sentados no pouco iluminado fundo do local, se encontra para bater um papo. Pegamos o bonde andando, no entanto, em oportuno momento, ouve-se:
- Alguma vez você já se pegou olhando ao redor e se sentindo tão diferente das outras pessoas, como se o seu eu fosse incompreendido? - Yasmim indaga com certo teor de contemplação na fala.
- Onde você quer chegar exatamente? - Gustavo paga com outra pergunta.
- A lugar nenhum em especial. Só me bateu a curiosidade de saber se mais alguém já experimentou essa sensação.
- De ser autista, portador de uma síndrome-narcisista?
- Não tem nada a ver com isso. Na real, tem a ver com uma sensação de deslocamento, sabe? Escapulir de algum eixo que, no meu ponto de vista, todo o resto do mundo segue.
- Deve ser divertido se sentir tão especial.
- Eu sei que soa egoísta...
- E é, acredite. Por exemplo, posso enquadrar esse teu raciocínio a nós dois aqui, sentados nesta mesa. Eu posso olhar para os lados e julgar que todo o resto além de nós é menos interessante do que as coisas que nos englobam. Nós somos melhores, nossa comida é melhor, nossa relação é melhor, enfim, até posso pensar que nossa conversa é melhor, apesar de ser difícil me fazer crer nisso. - Ele sorri.
- Me faz parecer uma criança mimada colocando as coisas assim.
- Me desculpe, Yasmim, mas não somos melhores que os outros. Apenas somos, entende?
- Entendo que você sempre gosta de monopolizar os rumos dos nossos papos. - Ela responde em tom áspero.
- Hei, isso não é justo! - Brinca.
- Quer saber? Nem sei porque ainda converso essas coisas contigo. Me manter mais superficial perto de tu é uma boa saída pra não pirar.
- O que você queria ouvir? Ah, Yasmim, você é tão diferente das outras mulheres. Você é tão original, autêntica e interessante. Adoro seu modo de se distanciar dos estereótipos de garotas fúteis e vazias. Que sorte é a minha ter...
- Já chega, Gustavo!
Silêncio. Contatos visuais opostos.
- Você é especial pra mim, Yasmim. E para todas as outras pessoas que te conhecem, creio eu. Mas quanto as proporções que nos contabilizam neste planeta, você é apenas mais uma. Uma singela peça de um mosaico soberbo chamado humanidade.
- Cara, na boa, namorar você deve ser um porre, sabia?
- Sei que temos um progresso agora. - Gustavo diz com um sorriso bobo.
- Eu, sua companheira, te esganando da forma mais cruel em pensamento neste exato momento? Puta progresso! - Ela disse isso mais alto do que planejara.
- Olha, sua ingratidão me parte o coração. - Ele abre os braços. - Há jeito mais genuíno de parecer diferente do que parecer pior?
Yasmim não respondeu, preferiu digerir o que Gustavo acabara de dizer. Ele, de uma certa forma, havia respondido a pergunta dela, mas ao modo dele.
E o que sucedeu após isso de nada nos interessa.
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terça-feira, 22 de setembro de 2015
Ensaio Sobre Questionamento Existencialista Clichê
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domingo, 30 de agosto de 2015
Quanto ao Absurdo de Estar Perdido ou Achado
"Você tem essa mania de me dizer que estou 'perdido'. Bem, não que por algum acaso eu já tenha me achado neste mundo turbulento, pois tal coisa, te garanto, jamais fiz e acho meio improvável fazê-lo algum dia. Porém, todavia, entretanto, não - quer - dizer - que - estou - perdido. Eu só não cheguei ainda. Pergunto ali e pergunto acolá sobre esse negócio de se achar, mas oras, ninguém sabe coisa alguma! Por que eu, miserável ser errante, deveria portar esse item tão raro e valioso? Só de perguntar já me soa arrogante. Agora, hei de admitir que enrolo nesse troço aí. Na verdade, passo em tantos galhos, dos mais tortos aos mais alinhadinhos, desprovido de qualquer pretensão, que até o pouco de bom-senso que possuo não configuraria isso como sendo um procurar. Mas é um, sim, lá num fundo tão fundo que o pobre diacho do 'perdido' venha a calhar de uma certa forma. E pensando bem, aqui nos domínios de um galho lodoso e sinuoso que faço morada há três dias, essa caça é tão eterna quanto o tédio que deve ser se achar por completo. Convenção social ou não, eu não sei o que quero, você não sabe o quer, ninguém sabe! - E nem se toda a sanidade mental minha esvaísse perante uma doença do tempo, ainda assim, não consideraria o termo 'perdido' em meus cunhos de julgamento alheio. Prefiro usar um mais simplório e filosófico: Vivendo - com V maísculo mesmo".
quarta-feira, 29 de julho de 2015
As Matérias Corroem
Choraram as flores
Pela falta de vários amores
Sangraram as folhas
Pelo vacilo de algumas escolhas
Silenciaram os ventos
Pela fadiga que nos conduz ao relento
Secaram os rios
Pois pelo papel muitos se tornaram frios
Murcharam os frutos
Por não irem ao encontro dos famintos urros
Endureceram os solos
Tal como os corações nossos.
A vivacidade se desfaz
Num ritmo que apenas satisfaz
Os animais ditos racionais
Cuja a crença está em casuais finais
E quem, aliás, vos faz compreender os aspectos mortais?
Digo, pois, talvez tristeza
A explicitadora crua da fraqueza.
Pela falta de vários amores
Sangraram as folhas
Pelo vacilo de algumas escolhas
Silenciaram os ventos
Pela fadiga que nos conduz ao relento
Secaram os rios
Pois pelo papel muitos se tornaram frios
Murcharam os frutos
Por não irem ao encontro dos famintos urros
Endureceram os solos
Tal como os corações nossos.
A vivacidade se desfaz
Num ritmo que apenas satisfaz
Os animais ditos racionais
Cuja a crença está em casuais finais
E quem, aliás, vos faz compreender os aspectos mortais?
Digo, pois, talvez tristeza
A explicitadora crua da fraqueza.
sexta-feira, 3 de abril de 2015
Sobre Negros, Gatilhos, Balas e Tragédia
O que faz este negro correndo do tiroteio?
Atira depois pergunta, antes que fique feio.
Suspeito!
Quem comanda o gatilho é o receio
de uma sociedade que põe inocências em sorteio.
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Suspeito!
Quem comanda o gatilho é o receio
de uma sociedade que põe inocências em sorteio.
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