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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Itambaraçá

Sobre esta rua, nesta minha rua, uma chuva não convidada faz estadia. Ela veio com a naturalidade que não se pode deter, pois o tempo e o seu incorruptível andar estavam como fiéis aliados, em trajes finos e solenes, preparados para ocasiões formais e sérias. Juntou-se alguns fatores facilitadores, como inércia e vulnerabilidade crônica, e pronto, nuvens enegreceram como roupa branca suja-se na lama. Quem poderia presumir? A hora de sua chegada foi a hora da nossa vontade de enxotá-la, num timing mais humano impossível. Se esta chuva renova ou não o antigo solo, hoje muito encharcado, não se sabe ao certo. Na verdade, se sabe, sim. Ou não. Sei lá. O fato irrefutável da prosa é que está chovendo.

Não é garoa fina nem torrente que causa enchente. É chuva de meio termo, como a vida ou a morte, que jamais tomam partido de um lado. Não serve para beber, mas serve para banhar, até mesmo aqueles que não a querem como a água que os banham. Serve principalmente para deteriorar a fotografia. A fotografia que cada morador desta rua carrega nas mãos da mente, guardada pelo íntimo afeto e nostalgia que conduz as lágrimas, as quais se perdem com os pingos. A querida fotografia vai perdendo seu brilho conforme os dias passam. Sabemos que é natural, só não sabemos lidar com isso. Nela estamos nós, os habitantes, desde o passado ao presente, desde o novo ao mais velho, ligados por mais coisas que números e muros. Todos nós expostos às gotas de meio termo.

Alguns estão sendo manchados, desbotados ou borrados. Mas há os que estão sendo apagados, deixando um vazio no quadro. Não será preenchido. E com o assistir da dança desta borracha imperativa, assistimos sincronicamente o passado se tornando mais passado ainda; memórias de um tempo atrás, em lembranças de um tempo demais; e a vida, que tanto parecia longa e invariável, em um choque de realidade mordaz. A chuva persiste e a correnteza por ela criada leva aqueles que não imaginávamos que iriam, fazendo da ausência da despedida digna nosso maior pesar. Seja querido ou não, amado ou não, é do passado que estamos chorando; o passado que em tudo tinha a ver com o presente e em nada terá com o futuro.

Tudo isso vai com a chuva. Somos os anfitriões da vez. Peço a Deus pela alma dos que se foram e pela vida daqueles que ainda estão sob ela, pois esta é a dádiva que chamamos de vida. Esta é a rua que não morrerá. Esta é a chuva que uma hora vai parar. Esta é a fé que não perecerá. Esta é a gente que não se esquecerá. Este é o ciclo, que para sempre se transformará.

E caso esteja achando que ando falando muito de chuva, saiba que a deste texto é diferente, é algo além; a espécie de chuva que não desejo pra ninguém. Que a proteção do divino Senhor esteja com todos, amém.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A Indignação de Um Nerd Interior: Assassin's Creed

Na última quinta (12) fui ao cinema pela primeira vez no ano, o que já é um baita alívio, porque 2016, meu Deus do céu, que aninho pobre de idas ao cinema! Fui pouquíssimas vezes mesmo (mas também vou te falar, algumas dessas "vezes" foram, pra mim, as melhores e mais maravilhosas. Xiu!). Sem sacanagem, acho que devo ter ido mais ao médico do que ao cinema. E isso me faz lembrar de um tal projeto "Cinemas do Rio 2016", onde a minha intenção era ir em TODOS os cinemas da cidade, todos, numa verdadeira peregrinação cinéfila. Mas enfim, eu não completei projeto nenhum, fui pouco e já perdi o fio da meada da conversa - apesar disso ser bem o feitio do filme que falarei. Mas, calma, chegaremos lá.

Peguei meu ânimo e parti pro cinema, né, eu e mais dois amigos, para assistir nada mais, nada menos, que ASSASSIN'S CREED. Pra quem não tá muito por dentro, nessas horas, boia legal, porque, oras, vê um fuzuê danado por causa do lançamento de um filme que tem no nome a palavra credo. E credo mesmo, valha-me Deus! Muito credo, cruz credo, vá de ré Satanás e dez Pai nosso pra esse filme... Mas vou me conter de novo - ao menos tentar - para não perder a razão e acabar parecendo um mimizador de internet. Então lá fomos nós três assistir ao troço. Desde agora aviso aqui que nenhum de nós estava com esse tal de fuzuê no couro. Longe disso, muito longe. Fomos de maneira totalmente okay, sem empolgação doida ou expectativa alta. Éramos apenas três caras indo ao cinema e só.


Primeiro vou situar as coisas:

O filme é uma adaptação de uma famosa franquia de jogos eletrônicos que pertence à francesa Ubisoft - tá aí o motivo da mobilização dos nerds. No elenco principal estão Michael Fassabender, Marion Cotillard, Jeremy Irons, Charlotte Rampling; a direção está nas costas de Justin Kurzel e o roteiro nas de Michael Lessile, Adam Cooper e Bill Collage. Lista boa, você não acha? Dava pra confiar.

Dava.

Estou aqui me prendendo que nem cervejeiro religioso entre o boteco e a igreja, pra não ficar boladão e sair cuspindo palavrão, mas tá muito difícil - Jesus, me ajuda. Confiança demais dá nisso: decepção. Nem tanta da minha parte, admito, porque não sou um fã fanático, mas a sensação que fica é  de ter assistido a um filme ruim. Um filme esquecível é o que ele é. Não estaremos daqui a dez anos falando: "Cara, lembra de Assassin's Creed? Que filmão, moleque! Que filmão". De jeito nenhum. Ainda tá confuso o porquê do resultado final ter sido aquilo, o mostrado na telona. Gente, parecia tão fácil, com base nos nomes nessa equipe, que iria sair o "filmão" dali. Pensei em estrear o ano metendo o pé direito na porta e chegar chegando. Pobre inocente. Mas, calma de novo, garoto.

A série de vídeo games possui milhões de fãs ao redor do mundo. Fãs apaixonados do tipo rasga a camisa e dá o sangue, meu irmão. Particularmente, nas palavras deste sujeito que está escrevendo, tive a oportunidade de jogar alguns títulos e confesso que gostei. Não de todos. Mas gostei. Deixo até minha menção mais que honrosa aqui ao Assassin's Creed 2. Que jogão, maluco! Tem que ver, um dos meus preferidos. Aliás, o motivo de tanto fascínio para com a franquia, acredito eu, está na premissa que ela carrega. A ideia é você controlar Desmond Miles - pelo menos nos primeiros e principais jogos -, um sujeito que se descobre pertencente a uma linhagem de assassinos. Não meros assassinos meia boca e, sim, membros de uma sociedade secreta milenar. Com a ajudinha de um treco engenhoso por demais chamado Animus e uma pequena equipe de cientistas, Desmond é tomado por uma corporação para, através da máquina, acessar as memórias de seus ancestrais e viver aquilo que eles viveram. Sendo assim, ele é capaz de visitar tempos passados, como a época das Cruzadas (AC 1), a Renascença (AC 2 e Brotherhood) e a Revolução Americana (AC 3). Fazendo uso dessas memórias de seus antepassados, testemunhamos os conflitos incansáveis entre os Assassinos e Templários, que disputam, entre outras coisas e poderes, a posse da chamada Maçã do Éden, um artefato que guarda o segredo do livre arbítrio. Uuuuhhh... Que profundo. E é, vai por mim. Legal também. O conflito perdura até os tempos atuais, com os Templários ainda influenciando o rumos da humanidade.

Imagem do jogo Assassin's Creed 2
Espero ter explicado mais ou menos o fio que conduz as histórias dos jogos, que é o que deveria também conduzir o filme. No entanto, no filme, nos deparamos com uma Animus que deixou de ser um complexo mecanismo de acesso ao código genético para virar uma espécie de máquina maluca que, na tentativa de proporcionar uma realidade aumentada, parece mais uma nova atração dos parques da Disney, levantando pra lá e pra cá quem a ela está acoplado. Isso é somente um dos numerosos vacilos. Poxa, eu falei, a produção tinha tudo pra dar certo, sabe? A Ubisoft estava envolvida no projeto, Michael Fassbender tomou a dianteira na produção, tínhamos um bom diretor e um extenso material de base, que eram os diachos dos jogos. Porém, todavia, não obstante, o filme é o quê? É o quê?

Ruim.

É ruim, cara, o filme. Infelizmente é a verdade. Houve sempre um pé atrás quanto ao negócio, pois nós sabíamos da reputação de adaptações cinematográficas de jogos, um tenebroso histórico de produções xexelentas - vide D.O.A, Far Cry, Street Fighter... Ai, não consigo terminar. Mas apesar do pessimismo, havia esperança. Assassin's Creed pareceu surgir, através dos malditos trailers, como uma luz no fim deste túnel de esgoto. Só que no final, meu amigo, percebemos que Assassin's Creed não fugiu da maldição. Maldição é maldição.

Michael Fassbender como Aguilar.
Falei lá em cima que não havia expectativa da nossa parte, procede?

Sim, procede. Mas aquela ansiedadizinha é natural, não é mesmo? O que assistimos, no entanto, foi a um projeto extremamente preguiçoso e desinteressante que, literalmente, dá sono - juro! Tipo, o roteiro, que é a alma da parada, não faz jus algum ao potencial da série. As personagens são superficiais e com motivações pobres, o plot é ralo, os diálogos são expositivos e todo o restante é morno. A história gira em torno de Cal (Michael Fassbender), um rapaz vida torta com o passado traumatizado pela morte da mãe, autoria do próprio marido. Ele cresce marcado pelo trauma e vira um criminoso, que anos mais tarde é preso e condenado a pena de morte. Ao ser executado, a LETAL injeção letal não o mata - vaso ruim não quebra, já dizia a vovó - e isso faz com que ele, americano, vá parar em Madri, num prédio de uma fundação chamada Abstergo, onde lá está a famigerada Animus. Com as explicações da cientista Sophia (Cotillard), Cal fica sabendo que um ancestral seu, Aguilar, tinha sido um assassino na época da inquisição espanhola e era de suma importância Cal acessar essas memórias com o intuito de descobrir o paradeiro da Maçã do Éden, artefato que, entre muitas definições, esconde o segredo do livre arbítrio. Segundo o próprio filme "Ela foi deixada por Deus como um mapa para entender a violência". Templários e Assassinos buscam por essa maçã, com os primeiros querendo usá-la e os segundos, guardá-la; e Cal tem a missão de achar esse troço antes dos inimigos.

Beleza, beleza, é uma sinopse legal. Pô, o cara voltar no tempo atrás de uma relíquia misteriosa que tem ligação com o mundo atual e no meio disso tudo existir conspirações etc. É bacana só no papel mesmo, porque na tela o buraco é mais embaixo. Os traumas do garoto Cal, por exemplo, logo no início, são jogados de maneira apressada, fazendo com que não haja envolvimento emocional com a personagem. O filho chega em casa, a mãe já tá morta e o pai lá do lado me vem com a miserável frase "Corra". Só. Não testemunhamos momentos anteriores entre pais e o filho, não há construção de afeto, desenvolvimento de empatia; simplesmente o matar por matar: "Mãe é mãe, então é só meter o faca que eles choram". Isso me incomoda pra caraca, pois prejudica o todo, entende? Cal termina por ser uma figura que não nos oferece empatia. Não nos importamos com os rumos de seus dilemas. Pra mandar a real, a gente caga pra ele o filme inteiro, não tememos por sua morte. Justamente ele, o fio condutor da história, a ponte mais sólida que nos liga ao enredo.

Os caminhos que levaram o sujeito até a vida de detento é a mesma coisa, nada é construído. E deixar tudo a cargo dos diálogos para explicar aquilo que deveria ser mostrado é o que empobrece a trama. "Quem eu matei foi um cafetão", disse Cal. Que se dane, cara! E daí? É assim mesmo que você quer justificar seus atos, filhão? Ó, ó, está ouvindo? São palmas. Palmas e mais palmas pra você.

A Animus no filme.

A Animus no jogo.
Mas já é, o cara não morre com a tal injeção letal e é levado para a Espanha - nada até agora foi spoiler. O prédio da Abstergo abriga outros indivíduos iguais ao Cal, que sonham com a vida de liberdade. O plot agora deveria se dedicar aos personagens secundários e ao passado do principal; à figura da cientista Sophia; ao enigmático Allan Rikkin (Irons; pai de Sophia); e às idas até a antiga Espanha. Nada, mano. O filme começa a se arrastar exatamente aí, com motivações fracas, direção perdida e relaxada, cenas de ação medíocres e confusas, design de produção irrelevante e poucas variações na trama, deixando-a ralinha, ralinha. A lista é imensa, tão imensa que você fica com sono. Cara, o atrativo principal do bagulho é você visitar tempos passados, viver dentro de uma época diferente, e os caras não desenvolvem NADA da Espanha em plena inquisição. Imagine o tanto de potencial narrativo que isso tem, pra explorar o contexto histórico, e eles cagaram. Aí, o filme fica todo naquele prédio tosco, com pessoas toscas, com uma Animus tosca e as poucas visitas ao passado, advinha - não, não, não, advinha -, são toscas.

Aguilar, o assassino? Quem é Aguilar, meu Deus? Eu lá sei quem é esse maluco. Porque foi exposto zero sobre ele, ou eu estava dormindo nessa hora, não é possível. Nas suas mãos havia uma liderança no grupo dos assassinos e a responsabilidade de ir atrás da maçã. A mesma coisa que nada, segundo a visão dos roteirista, pois a personagem é tão apática quanto o Calzão. Vai ver está na genética, né, ser chato pra cacete. O grupo de assassinos, aliás, Pai do céu, não lembro de ninguém. Ninguém se destaca, alguns nem fala ou uma mísera cena têm - senão lutas.

Eu vou parar de escrever por aqui, porque estou vendo que não consigo me conduzir pra produzir algo bom. O texto já tá ficando gigante e chato, igual o filme. A mensagem, pelo menos, foi dada, o filme é ruim. Estou chateado pelo resultado final. Não há um respeito pela excelente série de jogos e o incrível é que quanto mais penso sobre o filme, mais vejo que ele se distancia da atmosfera de Assassin's Creed. Por exemplo, o emblemático Salto de Fé (Leap of Faith), marca indiscutível dos jogos, é trazido para a adaptação de forma forçada e sem profundidade ou contexto, um fan service de péssima qualidade. Não espero assisti-lo novamente. Eles até, na cara mais mal lavada, deixam um gancho para uma continuação. Estão de sacanagem, só pode. Espero, do fundo do meu coração puto, que isso jamais ocorra. Deixa morrer, ser esquecido. Essa, diga-se de passagem, é a melhor habilidade deste filme.

A vontade é xingar muito no Twitter e amaldiçoar toda a geração de quem produziu essa joça, até chegar no Gênesis.

Mas vou jogar um Lolzinho que eu ganho mais.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Disse

Sábado passado, na festa, Kelly estava sentada sob a claridade prateada da lua, em frente às violetas, encarando-me com aquele grande par de olhos magnetizantes. Eu estava me aproximando, quando ela enrijeceu seu espírito e levantou-se com a graça que não ouso descrever.

Encontrei-me sendo acariciado suavemente, no rosto, por suas mãos macias, tal como o toque de uma seda. De repente, vi fluir nela um manancial. Não era sólido, pois vivíamos em um país tropical; e tampouco gasoso, porque não estávamos dispostos em nenhum planeta venenoso. Era indiscutivelmente líquido. Era bonito, calmo, quente e salgado - o grupo de qualidades que não costumamos definir as lágrimas.

- Eu estou feliz - ela me disse.

Ter conhecimento da significação fez encher o meu ser de alívio, até porque constatei, enfim, que compartilhávamos do mesmo sentimento.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Manuscrito Deixado em Itaipuaçu

Antes que a última hora de 2016 viesse, dediquei alguns minutos para observar. Observar o céu e sua imensidão. Quem me conhece mais a fundo sabe que eu sempre achei fascinante olhar para o firmamento na tentativa de captar um novo detalhe na vastidão, enquanto pensamentos igualmente vastos transitam pela mente. 

Fui até o gramado do quintal e lá deitei. As mãos foram postas como travesseiro e a imobilidade tomou conta de mim, apenas as retinas se moviam. O céu estava limpo e salpicado de estrelas, mais do que normalmente costumo ver - pois o centro urbano com suas cintilantes luzes artificiais haviam ficado para trás -, e os belos fogos de artifício, anunciando o final próximo de mais um ciclo, iluminavam a noite e o meu rosto.

Depois de alguns minutos em silêncio solene pude perceber uma coisa que me fez esquecer a pinicagem da grama e a dormência nos braços. Percebi que o céu estava me olhando de volta. Bem, eu já estava encarando-o há um tempo considerável, e não me preocupava em ser retribuído. Mas eu fui. E num canto singelo do infinito teto, como se fosse uma mancha de mofo, descobri uma fenda. A brecha, a qual mirei prontamente, me levou para o ponto mais profundo do universo. Lá julguei ser uma perfeita ocasião para conversar com Deus, pois acreditei estar olhando em Seus olhos. Comecei a conversar, não dando muita pretensão às palavras, que eram mais emitidas em pensamento do que em oralidade. E tive o fascínio de me descobrir sendo aquilo que todo ser humano anseia ser: ouvido.

O espírito das festividades de fim de ano, querendo ou não, acabam nos contagiando e por isso temos uma tendência a agir de maneira mais reflexiva. 2016 foi um ano incrível, repleto de experiências novas que para sempre ficarão tatuadas na minha alma. Sim, foi um ano difícil, o qual me machuquei algumas vezes e entrei numa solidão que me assusta só de pensar. Mas nada disso ofusca os méritos de ter vivido intensamente e ter me entregado a tudo que eu considerei válido me entregar. Deus enxergara no meu coração a vontade de desabafar essas coisas, então direcionou sua atenção a mim, àquele ínfimo pontilhado num gramado. Eu tinha muito o que dizer e agradecer, e Deus responde ao necessitado, principalmente aqueles necessitados de amor. Fiz tudo isso com a satisfação que meu espírito havia vestido. Pensei em algumas pessoas, importantes e amadas, e as balanceei com a calmaria que o ambiente da fenda me proporcionava, para assim enviar muita positividade e amor.

Só que em meio a minha conversa com Deus, uma nebulosidade se intrometeu como quem sente ciúmes de uma intimidade alheia. Achei estranho! E fiz questão de gritar isso. Conforme as nuvens avançavam sobre o meu campo de visão, fui perdendo o contato com Deus, até o momento em que todas as estrelas e o meu ponto mais profundo no universo fossem perdidos de vista. Voltei a perceber a pinicagem e o formigamento nos braços. Eu não queria perder aquele lugar. Estava me sentindo preenchido, apesar de ser um local que confundia sossego com angústia. Tentei tocar as nuvens para dissipá-las. O desespero principiou sua chama em meus nervos e uma vontade de me levantar e enlouquecer me cutucou. 

A nuvem ia se tornando mais densa.

Os rojões começaram a estrondear um atrás do outro, sem qualquer pudor ou consideração para com a ocasião. "Merda! Eu só queria agradecer a Deus, conversar com Ele. Será que é pedir muito? Calem a boca rojões malditos, nuvem maldita, calmaria maldita. Calem-se, malditos!". Não há nada mais humano do que o desespero. Só que Deus não queria a minha agonia. Sua voz veio até mim, somente a voz. A nuvem havia sido um teste, um último para o ano - essas foram as palavras dEle. As estrelas permaneciam escondidas, mas Sua voz chegava nitidamente a mim, pedindo por minha calma. Meu estado foi ficando mais sereno e a respiração menos arfante. 

Então, quando não mais ofegava, entendi a lógica de tudo, o sentido da experiência e o motivo de eu ter sido capaz de enxergar o mofo. Aquelas estrelas eram minhas e 2017 estava vindo para eu ir atrás delas. Soa óbvio assim, mas a gente tem mania de acreditar que as nuvens são eternas. Deus não dá nada de mão beijada, como se fosse uma espécie de mimo desregrado. É preciso lutar por aquilo que se quer conquistar, vencer a nuvem.
Agradeço pelo ano maravilhoso que foi 2016, o qual nunca esquecerei e Ele fez questão que eu não esquecesse, jamais. "Algumas atitudes feitas pelo coração não me entristecem. Não se desespere.", foram as suas últimas palavras antes que se despedisse. Pedi perdão pelos meus erros e prometi ser alguém melhor do que jamais fui. Ele soprou uma brisa aconchegante na minha direção e me pediu para confiar. Fiz que sim e Ele sorriu. 

Como eu sei que foi um sorriso?

Bem, uma estrela venceu a nuvem e alcançou meus olhos. 

Dei um nome a ela. O nome mais belo que um dia tive o prazer de pronunciar pela primeira vez. E continuarei pronunciando até que a morte, sob a permissão do Senhor, me leve.

Feliz 2017. Principalmente para você, que confia.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Título Provisório

Decerto, há sempre uma coisa (uma não. Várias) que está (estão, meu caro) espalhada (DAS!) pelo meu PC, não importando qual canto seja. É batata você encontrar. Desde a franqueza do Desktop até os confins de uma pasta obscura dentro de outras dezenas de pastas igualmente esquisitas, apresentando avisos do tipo "não tem nada aqui" e "vírus" - alarme este que chega até dar um friozinho na barriga de quem fuxica. Não pelo medo de encontrar o tal vírus, mas, sim, de trombar com algum fetiche bizarro envolvendo bonecas de PVC.  E é óbvio que estou falando apenas de uma situação hipotética, claro... (verdade. O computador dele não tem vírus) - enfim! o ponto é que sempre haverá, em qualquer canto desse meu extenso baú virtual, eles: Os Projetos.

Quem olha assim, acha até que está diante de um computador importante, de onde sairá uma nova obra-prima do século XXI, quentinha para descacetar a arte como a conhecemos (oi?). A cada esquina tem uma ideia sendo trabalhada, um brainstorm sendo agitado, um organograma construído. São tantos projetos que imaginar o perecimento do HD que os armazena é quase uma blasfêmia (bate na madeira, abestado). Aliás, perguntar-se como alguém consegue se situar em meio a tantos documentos também é inevitável. Mas, claro, a resposta é direta: "um nível de percepção que poucos são capazes de atingir, bebê" (Na verdade eu ia perguntar como um PC pode travar tanto).

Projetos, projetos, projetos... estão chovendo sobre mim. Saca só como fervilham, fervilham, fervilham.... ah, é sublime ser criativo (olha lá. Tela azul!). Deixa os projetos jogarem, ô iaiá, é o que eu digo (sim, ele diz. Sério). Se tem uma coisa que não tenho medo é de criar. Steve Jobs já falou sobre isso, se não me falha a memória. É só pintar a ideia que aquele botão direito do mouse já estará sendo esmagado, prontamente, e um novo documento de texto aceitará, sem frescura, o que eu tenho para anotar, e assim a magia se desenvolve, com todo o esplendor de uma gênese.

As pessoas apreciam esse meu jeito; curtem a vista que proporciono a elas quando há aquela visita ao meu reduto eletrônico; ficam tão curiosas e com os olhinhos brilhando que às vezes até fazem merda (falei que não tinha vírus). Mas não há porquê me enraivecer, pois é o meu mundo que elas anseiam ver, precisam ver. Então, diante de tantas inovações e promessas de uma concretização agradável e entretenimentora (é sério?), essas mesmas pessoas disparam a MESMA bendita pergunta, sempre: E aí, quando é que veremos esse projeto pronto? (Exato. Tá aí algo que estava prestes a perguntar)...

(Fala aí, cara.


 
Olá? Responde a pergunta, diacho.

Ei, tem alguém aí ainda?!

...Eu não acredito. Só pode ser brincadeira.

Não é.

Se pelo menos esse maluco tivesse me terminado há seis anos, talvez pudesse finalizar isso aqui de uma maneira digna. Bom, o que resta é mostrar a tal vista. É bonita, admito. Há coisas interessantes no horizonte, como filmes, músicas, poemas, pinturas, épicos e... coisas que parecem sonhos, sabe?

Bem, vai ver ele deve ter tido alguma outra ideia e foi ali anotar. 

Deve ter sido isso, não é mesmo?

Não é?).

domingo, 2 de outubro de 2016

O Circundar de um Fogo

Heitor teria evitado a trilha de fumaça que se adensava à sua frente se não fosse esse tom de cinza que nos guia. Fazia tempo que ele se locomovia. Um tempo suficientemente longo para levar à cabeça de qualquer andarilho que pensar demais em planejamentos é, de forma não justa e indireta, planejar-se rumo ao imprevisível. E aconteceu assim com o bem instruído Heitor: o vislumbre de seus pés tomando o caminho da fumaça, pelo simples fato de ter se interessado pela personalidade e aparência que ela ostentava. A improbabilidade incitada o abraçava sem asfixiar e o levava com o mesmo zelo de uma mãe que auxilia os primeiros passos do filho. A rota, no entanto, tinha pouca coisa a ver com simbolismos poéticos e subjetividades, pois o seu cume era o fogo - o mais literal e cruel dos desfechos.

Quando o foco se revelou, Heitor estremeceu ao sentir seu coração embargar. Por um momento ele checou a respiração, porque só agora se preocupara com uma intoxicação. Mas os pulmões iam bem. Por fora, seu corpo estava infestado por bilhões de partículas negras, as quais foram afugentadas aos tapas - um esforço inútil, porém. Então ele se ateve em digerir toda aquela quantidade de informação, espiando por cima dos ombros na desconfiança de se descobrir dentro de um sonho. As chamas produziam crepitações que mais pareciam retumbos, a julgar pelo tamanho que apresentavam, tão altas e ferozes quanto um incêndio florestal deveria fazer. Troncos gemiam ao redor, ruídos penosos que assustaram o rapaz num primeiro instante, mas que depois tornaram-se imperceptíveis. Era um ambiente tomado por danos difíceis de serem freados, e Heitor soube disso desde o instante em que chegara. Ele olhou para o solo de relvas enegrecidas e rasgadas pelo fogo, e, desprovido de ensaios, rumou para os confins da desolação, com os olhos semi-cerrados por causa do calor que não o consumia. E desvanecendo-se para dentro daquele cenário, ele gentilmente acolheu a boa noite como um obediente sábio.

Mais adiante, no interior da conflagração, não fora possível distinguir as dicotomias que formam o mundo e, sim, apenas testemunhar os mistérios que lá povoam. Dentre os diversos, um se sobressaiu. Ele originava-se das copas e despencava para o chão: folhas e mais folhas, em brasa, formando uma extravagante chuva que bailava com as lambidas do fogo, e desfazia-se antes de completar seu trajeto. Um fenômeno simplesmente lindo para as retinas, o que neste caso se limitavam as pertencentes ao Heitor, que tinha mudado seu semblante para uma expressão que cambaleava entre o prazer e a estupefação. De repente, as folhagens casaram-se com o ritmo oriundo dos gemidos das árvores consumidas, numa poligamia intensa e exótica, compondo um espetáculo que jamais poderá ser repetido senão pela natureza. Houve uma harmonia orgânica invadindo o lugar e Heitor a ouviu com todo o seu coração. Isso tudo poderia durar uma vida inteira ou apenas um segundo que não iria fazer qualquer diferença para ele, pois dentro de si um clamor pairava: "O momento... o momento...".

O formidável fenômeno teve seu fim quando a chuva finalmente conseguiu tocar o solo ardente. Um vento suave soprou as folhas chamuscadas e as amontoou, como se estivesse varrendo. Heitor principiou algumas lágrimas que iam sendo evaporadas antes de alcançar as bochechas. Elas logo deixaram de ser produzidas quando um estrondo, proveniente da folhagem amontoada, o sobressaltou e arrepiou-lhe o cabelo crespo. A harmonia sucumbiu sob a hegemonia dos gemidos; e as chamas, sabe lá Deus como, ficaram ainda maiores. O rapaz espionou a vanguarda por entre as brechas da fumaça densa e sentiu sua respiração parar - não por causa do incêndio; não por causa de nenhum motivo que ele fosse capaz de conjecturar.

Ele avistara um corpo, mais precisamente um corpo de uma mulher, repousando sobre a relva consumida.

Ocorreu um momento de hesitação, custeado pelo pânico, que deixou Heitor imóvel e com seu consciente e subconsciente preso àquela imagem. Por outro lado, a indiferença da queimada quanto ao peso de tal cena, a fez, sem cerimônias, navalhar um tronco. Se não fosse o modo com o qual caíra, o robusto cilindro teria esmagado o corpo e confeccionado um patê de sangue, carne e ossos. Heitor manifestou sua preocupação no instante em que conseguiu despir-se da imobilidade e disparar em direção ao ser desamparado, enquanto as partículas negras desenhavam um rastro às suas costas. Ao chegar perto da moça, ele constatou que ela estava viva, fato que o aliviou e o espantou em igual dose. Ele agachou-se e a tomou pelos braços, como em uma pintura romancista; por um instante pensou que poderia protegê-la, que poderia salvá-la. Porém, quando no rosto daquele ser Heitor pousou os olhos, todo esse controle se extinguiu. Não lhe veio forças, apenas fogo e mais fogo... até que consumiu seu coração e cercou-os.

Um grito ensurdecedor irrompeu na floresta, quebrando as labaredas ao meio. Tinha sido Heitor que o produzira como consequência de uma dor insuportável. Ele gritava continuamente, como se a qualquer momento fosse cuspir suas tripas. As chamas encolhiam conforme o grito persistia. O rapaz, ao perceber que o seu bramido surtia efeito sobre elas, escolheu manter o urro estridente até que dissipassem-nas por completo. O esforço o enfraquecia e o vertiginava, mas mesmo assim, ele persistia urrando, como um terremoto vindo do oriente. As vistas, gradualmente, foram escurecendo por conta de tamanha sobrecarga ininterrupta, ao passo que as cordas vocais já sangravam. Testemunhando tal sacrifício suicida, a moça levou sua mão ao rosto dele, num toque macio em oposição àquela agressividade bondosa; e, de maneira repentina, o grito foi cessado. Heitor se indignou com o que ela acabara de fazer, e por isso ficou a encarando com um olhar impotente e encharcado de lágrimas. A moça não disse palavra alguma, pelo contrário, apenas devolveu o olhar; e pôs-se a acariciá-lo, como se estivesse limpando toda aquela sujeira e atenuando as veias dilatadas. Nos lábios, um sorriso tímido e triste, mas também detentor de uma satisfação, germinou. Heitor abanou a cabeça, arremessando as lágrimas ao ar. Mas ela continuou sorrindo. Então, após tanto fixar suas retinas naquela beleza simples, rara e verdadeira, o rapaz notou algo no âmago daquelas esferas castanhas, algo de cor quente e feroz que se misturava à formosura.

Um incêndio.

- Me perdoa - foi o que se ouviu e mais nada, senão a dor de uma floresta há muito atormentada.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Ladrões de Bicicletas - A Densidade de um Protagonista e as Múltiplas Intenções de um Clássico

FADE IN

Surge em plano a imagem de um ônibus em chegada. O local se apresenta, sem qualquer censura, como um bairro carente. Igualmente miseráveis são os ânimos das pessoas ao redor, não há som ambiente, tampouco o barulho dos pés apressados que aglomeram-se em volta do ônibus agora parado. Há apenas uma música soturna.

Tudo isso fede a rotina. 
A vida seguindo terrivelmente devagar. 

Desempregados famintos por um rumo perseguem, em ritmo de parasitas, um senhor que pode silenciar os urros de seus estômagos. Porém, esse senhor não tem consigo tantas oportunidades assim para saciar tantos. Ele dispõe, por ora, somente de poucas ofertas de emprego, as quais estritamente não se encaixam nos perfis de nenhum ser ali presente - Como se fosse o reluzir de uma desgraçada coincidência. Quem de fato é adequado para uma chance está avulso a aquela multidão pedinte; está situado a metros dali; e não ouve o seu nome sendo chamado.

- Ricci! Antonio Ricci! 

E é assim que tudo começa...


ANTONIO RICCI (Lamberto Maggiorani) recebe a oferta de colador de cartazes, com a exclusiva condição de ter uma bicicleta própria para poder trabalhar. Após sacrificar a roupa de cama da família no objetivo de conseguir dinheiro para comprar uma bicicleta na loja de penhores, ele começa a trabalhar. Mas quando tudo parecia ter tomado o rumo da esperança, Antonio tem seu veículo roubado no primeiro dia de trabalho, desencadeando uma busca desesperada pela sua ferramenta de sustento. 

Assistir Ladrões de Bicicletas (1948) é contemplar o máximo do movimento Neorrealista Italiano que surgiu nos anos 40, trazendo um olhar mais lúdico para o fazer do cinema naquele país, o qual ainda enfrentava as sequelas de um conflito armado mundial. Abdicar-se do glamour, exercer as filmagens em locações reais, misturar a eficiência de experientes atores com a naturalidade de novatos e relatar tramas que remetem a vida cotidiana, são alguns dos aspectos deste movimento (Considerado por muitos como um dos mais relevantes de toda a história do cinema). A película em questão, dirigida por Vittorio de Sica, se uniformiza de tais características, entregando um filme que levanta questões de cunho social e também de caráter pessoal, como obsessão e angústia.

Lamberto Maggiorani como Antonio Ricci

No entanto, quero limitar o texto a certas observações que conferem a esse filme a categoria de magistral.

Pois então, a julgar pelo ritmo enérgico e pela postura ágil do filme em desenvolver uma trama instigante, Ladrões de Bicicletas consegue puxar para si observações variadas. Entre elas, se faz necessário mencionar a riqueza dramática presente em seu personagem principal, Antonio Ricci, e como é interessante ver tal personagem adquirindo mais densidade à medida que a história avança.

No início, Antonio é apresentado como uma figura sossegada e detentora de uma passividade acomodada. É possível perceber o resultado disso na forma que ele é introduzido em tela, meio que involuntariamente, ou seja, RICCI não vem até nós e diz: 

- Olá, espectador.

Não.

É a câmera que vai até ele. E vale dizer o quanto isso é útil para demonstrar o crescimento de determinado personagem no decorrer de uma narrativa:

Ele começa no raso e calmo, como a água de uma psicina, e avança através dos degraus da história até adquirir a agitação que o faz se assemelhar com um oceano.

ALIÁS, durante os primeiros minutos de projeção, a figura de Antonio concede aspectos que desenham a sua já mencionada inércia comportamental (E voltando à cena introdutória - Antonio é filmado sentado tal como uma criança que hiberna na caverna de sua solitária imaginação, longe dos homens que procuravam emprego, alheio ao chamado e, assim, havendo a necessidade de ser alertado por um conhecido); Desse modo, podemos vislumbrar a dita passividade característica nele e, para efeitos de ilustração, podemos também testemunhar como sua esposa, Maria (Lianella Carell), logo depois, é quem toma a iniciativa de penhorar a roupa de cama da família.

"Pai, filho e bicicleta"

Na composição de Maggiorani também estão traços de um homem jovial, dedicado à família e otimista para com o futuro. Toda essa confiança é roubada de seu semblante logo no primeiro dia de trabalho, no momento em que levam a bicicleta. A partir desse incidente, uma tormenta começa a ser tecida no Antonio, desencadeando nuvens de aflição, impotência e desespero.

Essas nebulosas transformações aplicam ao filme uma energia constante em volta da busca pelo veículo roubado. A obsessão para com o desfecho da procura é experimentada por cada cena posterior ao incidente, tendo como plano de fundo as ruas de uma Roma pós-guerra. Quem mais bebe da obsessão é justamente Antonio, e torna-se interessante ver como a angústia se intensifica conforme o desespero toma conta dele.

A película toma a liberdade de discutir, através desse conflito narrativo, certas relações humanísticas, como as ligadas com emprego, sociedade, criminalidade e também entre um pai e seu filho, Bruno Ricci (Enzo Staiola). Por isso, é relevante comentar a habilidade de Vittorio de Sica em construir satisfatoriamente todo esse espírito que representa o filme - como pôr o protagonista em meio a pessoas ou em planos mais amplos para acentuar sua pequenez; e também os diferentes espaçamentos existentes, e oscilantes, entre Antonio e Bruno, e como essas variações parecem exercer uma tensão narrativa; ou até mesmo em compor uma sequência com a estruturação de três atos explícita para narrar a sufocante Piazza Vittorio e a dimensão do conflito central.

Contudo, uma sequência que merece destaque e que sintetiza a excelência de Ladrões de Bicicletas, é aquela situada na Porta Portese. Vittorio, numa escolha inteligente, utiliza do significado e valor emocional da chuva para realçar a aflição e frustração de seus personagens. Antonio ensaia um início para sua desesperada procura, mas a já torrencial tempestade e a correria do povo em fuga atrapalham qualquer esforço. Ao fundo, um constante crescendo da trilha perturba e, mais uma vez, o trabalho corporal dos atores marca o desorientação dos personagens, pai e filho. A chuva, então, literalmente, pausa a perseguição e passa a desenvolver somente as dimensões internas relacionadas a quem procura a bicicleta. Quando a ultima gota, enfim, vai ao solo, Vittorio diminui a frustração de Antonio, lançando luz ao paradeiro da bicicleta, numa clara estruturação de escalada de tensão até uma recompensa. 



O realizador repete tais estruturações em outras sequências, sempre adicionando novos componentes, necessários para o desenvolvimento da história. No meio dessas construções, ele abre espaço para abordar o momento daquela Itália, não se apoderando de um discurso escancarado, mas apenas mostrando em tela aquilo que era vero, exatamente o que o movimento Neorrealista tinha de principal característica. 

Ladrões de Bicicletas é um trabalho sóbrio e tocante acerca da capacidade que um ser humano tem de reagir ao horripilante horizonte da penúria, revelando intenções (artísticas e sociais) de discutir sobre o proletariado e a sacrificante vida daqueles à margem dos abastados. Energético em seu desenvolvimento e realista em seu desfecho, o filme é certamente um dos mais relevantes de toda a história.

Quanto a Antonio Ricci: Este é uma personagem tridimensional à deriva de um complexo avalanche de sentimentos. A frustração e o desespero são ingredientes que moldam a densidade de sua mutação, levando-o para ações que às vezes não condizem com seu verdadeiro caráter e alinhamento, mas que são consequências de uma aguda angústia.


Supermente recomendado.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

1/10

Beira de estrada. Num mercado ao longo, um homem empacotava suas compras apressadamente. Ele estava eufórico, mal conseguia controlar suas próprias coordenações e como resultado, ao receber seu troco, deixou que uma moeda de dez centavos escapulisse de seus domínios e rolasse calçada abaixo, rumo ao asfalto conturbado. O homem, com um impulso automático, correu atrás da moeda numa dedicação nada recíproca, onde seu pé direito tentava deter a fuga, mas a moeda continuava a rolar e o homem, à estrada, atenção não prestava. Obviamente, em certo momento, ele conseguiu detê-la, conseguiu recuperá-la. E após esse certo momento, ele lembrou-se de suas compras, lembrou-se de sua pressa, mas também, não menos importante do que todo o resto, lembrou-se que estava sob a agitação de uma estrada.

E morreu.

Quanto a moeda, a pressa e as compras, todas passam bem.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Matina Audácia

Despertado antes do canto, eu fui. Vontade alguma me ocorria para nada, pois o sono ainda me entorpecia, vinda rotina. Sob a míngua luminosidade da matina, expus-me ao frio que molengava a todos. Os mesmos fulanos se arrastando como lesmas pelo asfalto áspero e bocejadores da preguiça iam ao longo como um coral lamentoso, meu âmbito. De qualquer lugar que convém haver calor ou cantarolar de pássaros, sinal jamais deu e mínima acerca, ninguém ofereceu. Assim o tempo decorreu e mantém. O clima era tão pra baixo quanto a neblina que marchava rente ao chão em modorrenta lentidão. Nós, meros lerdos, cuja as roupas eram as nuvens, marchávamos com igual indiferença, obedientes ao sistema, como sombras carentes de corpo e portadores de cegueira cinza.

Em algum de repente mais súbito que um segundo, cessei meus passos desleixados e me entreguei a um questionamento, coisa qual acho cansativa - E reintegro aqui que não há exatidão na ordem de tais ocorridos, pois procrastino. E digo-lhe mais, parei não pela pertinência do pensamento, petulante comichão muscular da consciência, mas, sim, pelo doce que emanava a essência, diferente. Rasguei ao meio uma volta e minha farda junto, contrariei a manada degustando o teor ácido da rebeldia e vi o turvo dissipar-se, derramando cor das bordas até o núcleo. Não costuma ser costume, tampouco prudente, desligar-se do coral. Entretanto, inédito acorde seduzia e eu me entregava à travessura. Minha alma despida da neblina havia e então achei conveniente correr, como um símbolo de liberdade, clichê.
    
O frescor trouxe uma brisa a tons de amarelo que povoaram todas as dimensões, sendo aquele colossal tapete azul, meu novo acorde, quebradiço, mas tão reconfortante quanto salgado. Como criança, experimentei tudo com euforia e edifiquei coisas à base de areia e ingenuidade. Brinquei até me esquecer do começo ou do fim. Vivi a cor, a natureza, a paz e a liberdade. Eu percebi. Senti-me eterno. E agora rio sem-graçado frente às palavras  que escrevo. Ó, caro leitor, perdoe este miserável lunático. Ele acha graça em demasiar as coisas e divaga sobre fantasias romantizadas entre os intervalos de remédios. Todavia, nem tudo fora fruto de devaneios, pois punhos ferozes seguem toda vez que relato tal acontecido e isso inquieta-me mais do que qualquer comichão. Não mais percebo dor ou visão, devido a punição em locar-me dentro de neblina mais densa que antes.
    
Vive-se tempo de mínguas. Se algum dia, por acaso ou querer divino, alguém achar essa prosa, terá destransformado minha liberdade da imaterialidade e poderá igualmente cessar os passos desleixados, caso cor desmanche a neblina. E enfim, existência menos vão teremos feito.
    
Boa sorte, carta minha.