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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Itambaraçá

Sobre esta rua, nesta minha rua, uma chuva não convidada faz estadia. Ela veio com a naturalidade que não se pode deter, pois o tempo e o seu incorruptível andar estavam como fiéis aliados, em trajes finos e solenes, preparados para ocasiões formais e sérias. Juntou-se alguns fatores facilitadores, como inércia e vulnerabilidade crônica, e pronto, nuvens enegreceram como roupa branca suja-se na lama. Quem poderia presumir? A hora de sua chegada foi a hora da nossa vontade de enxotá-la, num timing mais humano impossível. Se esta chuva renova ou não o antigo solo, hoje muito encharcado, não se sabe ao certo. Na verdade, se sabe, sim. Ou não. Sei lá. O fato irrefutável da prosa é que está chovendo.

Não é garoa fina nem torrente que causa enchente. É chuva de meio termo, como a vida ou a morte, que jamais tomam partido de um lado. Não serve para beber, mas serve para banhar, até mesmo aqueles que não a querem como a água que os banham. Serve principalmente para deteriorar a fotografia. A fotografia que cada morador desta rua carrega nas mãos da mente, guardada pelo íntimo afeto e nostalgia que conduz as lágrimas, as quais se perdem com os pingos. A querida fotografia vai perdendo seu brilho conforme os dias passam. Sabemos que é natural, só não sabemos lidar com isso. Nela estamos nós, os habitantes, desde o passado ao presente, desde o novo ao mais velho, ligados por mais coisas que números e muros. Todos nós expostos às gotas de meio termo.

Alguns estão sendo manchados, desbotados ou borrados. Mas há os que estão sendo apagados, deixando um vazio no quadro. Não será preenchido. E com o assistir da dança desta borracha imperativa, assistimos sincronicamente o passado se tornando mais passado ainda; memórias de um tempo atrás, em lembranças de um tempo demais; e a vida, que tanto parecia longa e invariável, em um choque de realidade mordaz. A chuva persiste e a correnteza por ela criada leva aqueles que não imaginávamos que iriam, fazendo da ausência da despedida digna nosso maior pesar. Seja querido ou não, amado ou não, é do passado que estamos chorando; o passado que em tudo tinha a ver com o presente e em nada terá com o futuro.

Tudo isso vai com a chuva. Somos os anfitriões da vez. Peço a Deus pela alma dos que se foram e pela vida daqueles que ainda estão sob ela, pois esta é a dádiva que chamamos de vida. Esta é a rua que não morrerá. Esta é a chuva que uma hora vai parar. Esta é a fé que não perecerá. Esta é a gente que não se esquecerá. Este é o ciclo, que para sempre se transformará.

E caso esteja achando que ando falando muito de chuva, saiba que a deste texto é diferente, é algo além; a espécie de chuva que não desejo pra ninguém. Que a proteção do divino Senhor esteja com todos, amém.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Sobre Negros, Gatilhos, Balas e Tragédia

O que faz este negro correndo do tiroteio?
Atira depois pergunta, antes que fique feio.
Suspeito!
Quem comanda o gatilho é o receio
de uma sociedade que põe inocências em sorteio.

domingo, 29 de março de 2015

Tradutor Espontâneo: Um dos Maiores Riscos Que Tomamos Na Vida

"Não julgue essas pessoas. Elas têm seus problemas. Não se pode ter um relacionamento se você não deseja decepção e dor. É impossível. Se você diz 'sim, eu aceito' ao outro, você também estará dizendo: 'Sim, eu aceito me machucar por você'. Deve-se estar disposto em perceber, ao entrar neste mundo, que a grandeza da vida está em tudo aquilo que é bom e agradável, mas também em todo desapontamento, amargo e sofrimento. E é isso que a torna maravilhosa.

As pessoas precisam umas das outras. Interações, relações, amizades ou casos amorosos. Construir uma relação, seja ela qual for, é uma das coisas mais difíceis que fazemos em nossas vidas. É um dos maiores riscos que tomamos na vida. Então, vamos lidar com isso e ver o que acontece."


Texto Original: One of the Biggest Risks We’ll Take in Our Lives

“Don’t judge these people. They have their problems. You can’t have relationships if you’re not willing to be disappointed and hurt by that person. It’s impossible. If you say yes to someone, I will, you are also saying, I will be hurt by you. You have to be able to enter into the world and realize the richness of life is all the good and joy and thrill of it, but also all the disappointment, hurt, and heartache of it. And that all of that is what’s great.”

“People need each other. That actual interaction or relationship or friendship or romantic love affair. All the different ways relationships take form is one of the hardest things we do in our lives. It’s one of the biggest risks we’ll take in our lives. And let’s deal with it. And see what happens.”

--

Este texto faz parte da minha mais nova atividade por estas bandas. Irei aqui exercitar a minha percepção sobre o idioma Yankee, mas de uma forma desprendida dos "pés das letras" (pobre delas, coitadas). Para começar, traduzi este trecho bastante magistral saído da boca do ator Phillip Seymour Hoffman (que infelizmente veio a falecer) no filme Almost Famous (2000). Este trecho é, na verdade, um recorte presente num vídeo tributo ao ator no canal John Dey, no Youtube. O editor mandou bem na montagem deste quote e achei bacana começar a série de traduções por ele.

E eu espero me divertir nisso.

Fiquem na paz.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Correntes de Cifrões

Miomir anda pelas ruas da cidade. Ele tenta gostar disso por precisar fazer isso, pois o isso é o seu trabalho. Ele sempre fora determinado em considerar-se um "guerreiro" livre de amarras, espontâneo e desinteressado por quais rótulos eram conferidos sua pacata pessoa. Mas ultimamente, em vista do quanto isso é desconfortável, ele vem sentindo as pernas pesarem. Olhando ao redor de suas andanças, Miomir vislumbra uma realidade mais perturbadora do que seus olhos, pertinentes otimistas, faziam-lhe enxergar:

Correntes.  
        
Elas serpenteiam pela calçada e asfalto, amontoam-se em casas e pessoas, e atingem distâncias imensuráveis. Preenchem o céu, ar e chegam a estremecer até mesmo o interior do mundo em que este jovem vive. Forçar as pálpebras, o pobre Miomir arriscou, no entanto, refutar a sua mais nova visão do mundo, mostra-se ineficaz. Anos de sossego e independência desvanecem conforme sua vista torna-se cinza. A admiração permite que a ponta de uma corrente passe rente a ele, uma corrente ausente de um cativo. O tilintar desta gela a espinha de Miomir, gerando um impulso, inútil, de correr. Este, porém, era o resultado da negligência. O fim de meios os quais Miomir não procurou esforços em extinguir de sua vida. Ele permitiu esta prisão, coexistiu com a aproximação das correntes, e agora elas estão ali para levá-lo.

Como um criminoso encontrando a detenção, ele reage. Mas agora agarrado pelos pés que antes guiavam uma vida independente, Miomir apenas pode permitir a si olhar ao redor mais uma vez. Neste redor, percebe que as pessoas aceitam a prisão. Trabalham, estudam, amam, enfim, vivem com elas. Ele até mesmo ver pessoas matando por elas, destruindo futuros com elas, roubando ou guerreando por elas. Então Miomir entende que é o único ali resistindo à prisão, ecoando e gastando seu fôlego para o vazio, para um mundo que não o enxerga mais. As amarras, porém, apresentam-se como anjos libertadores e recompensadores, munidos de felicidade e prazer pleno. E uma vez selada a infeliz epifania, Miomir, numa compreensão que jamais ocorreria no que agora ele pode nomear de "antigo eu", admite que não seria tão ruim ser um prisioneiro... Um escravo dos cifrões.