quinta-feira, 24 de março de 2016

O Nome do Vento - Um Exemplo de Maestria no Ofício do Storytelling

Escrito pelo norte-americano Patrick Rothfuss e lançado no Brasil em 2009, O Nome do Vento faz parte de "A Crônica do Matador do Rei", sendo este o primeiro volume de uma trilogia (ainda não selada).

Kvothe e seu fiel alaúde, com a Universidade ao fundo.

O enredo conta a vida e os mais diversos feitos de Kvothe, um sujeito cujo seu nome apenas traz à tona inúmeras lendas. A história é relatada pelo próprio personagem principal para um cronista transformá-la em um livro, com a condição incorruptível de não censurar coisa alguma. Gradativamente, os diversos equívocos envolvendo a figura de Kvothe vão sendo desmascarados, apresentando uma vida sofrida, perigosa e musical, e ao mesmo tempo, revelando um homem brilhante, ambíguo e calculista. Três dias são suficientes para contar tudo. Eis então, o primeiro dos três: O Nome do Vento. O Primeiro Dia.

Quem me conhece, com certeza esteve em alguma situação a qual eu citei esse livro. Por incontáveis jeitos ele foi significativo para mim, mas o que mais se destacou foi a riqueza e a beleza na escrita do Patrick Rothfuss. Em seu livro de estréia, Rothfuss consegue entregar um romance de fantasia num excepcional êxito do ofício de Storytelling. Ele mexe com camadas complexas e uma estrutura detentora de armadilhas cruéis a qualquer estreante, trabalhando com vários personagens ao longo do plot, sem demonstrar insegurança ou perda do controle de sua narrativa.

As decisões de Rothfuss se mostram conscientes. Sua paciência no trabalho de desenvolvimento é fria e calculista, assim como Kvothe. Isso é denunciado muitas vezes ao longo das páginas. A voz do narrador, por exemplo, é dividida entre Interlúdios, compostos por uma voz em terceira pessoa, e os relatos de Kvothe para o Cronista, em primeira pessoa. Isso faz com que o texto não perca fôlego e, como demonstração de não ser simplesmente uma decisão avulsa, Patrick também extrai dessa estrutura certos cortes dramáticos ou insights que prendem a atenção do leitor.

Tratando-se de história, as páginas deste primeiro volume realizam uma trilha minuciosa através da vida de Kvothe, como a infância sendo membro de uma trupe e muito bem amado pela família e amigos. Logo depois, passa pelo sofrimento inerente à perda de entes queridos. E por fim, a sua escalada penosa para conseguir, ainda na adolescência, ingressar na Universidade e se manter nela com quase nenhum tostão no bolso. Durante o desenvolvimento, os infortúnios, as descobertas e reviravoltas vão enriquecendo as características desse mundo fantástico e sustentando a vontade de virar as páginas. Os mistérios do Chandriano, a arte da nomeação ou a relevância da música para desenvolver a obra - seja nas tradicionais cantigas ou em pontos mais sutis -, são alguns desses sustentadores. Aliás, o papel da música nesta obra é belo e de uma eficiência sensorial incrível. Ela não apenas trata a habilidade de Kvothe com o seu fiel alaúde como um mero detalhe em sua ficha, mas também como um fio condutor da trama. Desse fato saem situações narrativas simplesmente mágicas, como a apresentação de Kvothe na Eólica, que foi uma experiência singular - posso jurar que ouvi cada acorde daquela música.

Deve-se reintegrar, então, a qualidade da prosa. Seja Kvothe, seja Patrick, há uma riqueza poética empregada na obra. O texto se permite um olhar pessoal e, às vezes, até filosófico sobre os conflitos e conquistas do personagem. Isso é reforçado pelo fato de Kvothe, no tempo em que narra sua vida, ter escolhido se tornar num homem mergulhado na mediocridade. Portanto, sendo agora um mero dono de uma estalagem quase deserta, situada num local em que as coisas vão devagar por quase se tratar de dom, ele procura esquecer-se do seu antigo eu. Mas por trás dessa casca fatigada existe uma história de conquistas e feitos extraordinários. 

O mundo d'A Crônica do Matador do Rei, assim como qualquer universo ficcional bem elaborado, é composto de regras rígidas, sobretudo no que concerne ao uso de sua magia. E ao invés de levar essa tradicional denominação ao pé da letra, ou seja, "é magia porque é magia", aqui testemunhamos ela com múltiplos nomes e finalidades, como "Simpatia", "Nomeação" e "Siglística", cada uma com suas regras e metodologias de estudo e dominação. A "magia" em si, se comporta de maneira custosa para com o seu invocador, requerendo métodos e materiais que cobram preços físicos, monetários e mentais. Se torna evidente perceber a ampla pesquisa realizada pelo autor para criar essas regras, exatamente para embasar as verossimilhanças, por mais que ainda remotas, com as ciências do nosso mundo, como a física, medicina, química etc.

O ofício da nomeação se destaca por apresentar um conceito fantástico que parte de uma ideia simples, mas que carrega uma interessante finalidade. Não é de meu agrado estragar surpresas, mas saiba que as coisas, como os elementos, por exemplo, possuem seus nomes. Nomes verdadeiros, não os que nós demos à elas. Se o arcanista souber e for capaz de aprender esse nome real, ele consegue usar tal coisa ao seu favor. Então, aquele que souber o nome do vento, saberá controlá-lo.

Há naturais comparações, e outras um tanto quanto equivocadas, dessa série com a criada por J. K. Rowling, Harry Potter, a qual sou fã também. E de fato existem, sim, semelhanças entre as duas séries, porém, o que as diferem sistematicamente são as suas abordagens. Seria limitado de minha parte resumir as diferenças, dizendo que A Crônica do Matador de Rei é "um Harry Potter para adultos". Todavia, no fundo me pego imaginando o quanto seriam diferentes as minhas lembranças de Hogwarts, se certas coisas recorrentes na Universidade acontecessem com o Harry. Talvez seja por isso que cunharam esse termo. Porém, são nítidos os momentos em que O Nome do Vento se distancia por completo de Harry Potter, fazendo isso com a segurança de um sábio ancião.

Já em outro cenário, existe uma tonelada de comparações e disputas da série de Patrick Rothfuss com As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin. Mas tal disputa é um equívoco ainda mais descabido. Além do mais, o respeito e o tratamento de "sou fã desse cara" é mútuo entre os dois.

O Nome do Vento possui seus próprios méritos. É um trabalho instigante e belo, com todas as doses que uma aventura de fantasia pode proporcionar. Estou pronto para embarcar no segundo dia de relatos de Kvothe, ansioso para descobrir mais sobre este grande personagem. Deixo aqui minha recomendação. 

Nota importante: Não tente chamar o nome do vento se não estiver devidamente preparado para isso. Você pode cair duro no chão enquanto é aprisionado no mais fundo calabouço da sua mente e, na melhor das hipóteses, morrer. Fique avisado.

Interlúdio - Tudo é Questão de Momento

Para uma boa história o que mais se deseja é que ela seja passada adiante. A experiência precisa ser vivenciada pelo máximo de pessoas possível. O desejo ocorre durante a leitura e se intensifica após o término. Você quer conversar sobre ela, discutir sobre ela, especular sobre ela e qualquer outra coisa que sirva de motivo para poder revisitá-la. Simplesmente, é impossível resistir aos encantos.

Mas o que sobra para uma história que é além de "boa"? 

Até porque as vontades que sucedem a boa história são as mesmas da história que vai além.

O que sobra para marcar, então? 

Talvez a culpa seja da exatidão de seu momento, porque a história que é boa vem por inúmeras maneiras. Mas apenas a história que vai além vem por uma única, a mais certa e a mais oportuna. Uma razão só sua. 

E aí, não basta dizer só "bom", pois não se trata mais de qualidade técnica e/ou narrativa. Se trata de um valor pessoal alcançado por um contato íntimo e uma comunicação sem curvaturas. É algo mais. Sempre mais.

domingo, 13 de março de 2016

The Last Kingdom 1ª Temporada - O Destino é Tudo

Ao término da temporada de estréia da série inglesa The Last Kingdom, minhas palavras me pediram permissão para formular algumas observações sobre esta adaptação audiovisual da obra de Bernard Cornwell. Um pedido nada irritante, veja bem. Elas me abordadaram armadas com alguns gracejos e exalavam uma coerência respeitosa. Nada de obsceno. Além do mais, o termo "minhas palavras" pode ser entendido como "minha opinião", ou melhor, "meus comentários". Essa vontade de comentar costuma ser sentida quando nos deparamos com obras bem-feitas. 

Então não terei a audácia de não conceder a oportunidade.



Pode-se dizer que estamos presenciando nos meios de séries televisivas (principalmente) uma produção crescente de shows com a temática Medieval. É claro que é simplório empacotar tudo dentro da caixa "Idade Média", já que não parece nem um pouco preciso, levando em conta que muito dos pivôs desse cenário carregam mais as características da Fantasia, que não necessariamente precisa seguir todas as regras do Medievalismo, apresentando aspectos de outras épocas históricas também. Assim como aqueles que apresentam os aspectos genuínos do Medieval podem não trazer nenhum dragão ou criatura mitológica consigo...

Enfim!

Isso não vem ao caso agora. O que eu intencionava dizer era que o sucesso de séries, como Spartacus, Roma, Vikings e, obviamente, Game of Thrones, fagulharam nos produtores das grandes emissoras uma vontade de investir no gênero. Além do sucesso, o que todos esses trabalhos tem em comum é a representação dos comportamentos do ser humano numa época longínqua, onde a religião e o sobrenatural eram mais temidos e vivenciados; terras e aliados eram bens essenciais de sobrevivência; a honra, um dever de vida; os posicionamentos dentro da sociedade, decididos antes mesmo do nascimento. Tendo magia ou não; tendo dragões ou não. O gênero se tornou em um seguro investimento.

Seguindo a caravana do sucesso, consigo pensar em duas séries recentes lançadas no ano passado: The Shannara Chronicles (ainda escreverei sobre) e The Last Kingdom

Baseado nas Crônicas Saxônicas de Bernard Cornwell, produzida e exibida pelo canal BBC e com os toques dos produtores da série de Downton Abbey, O Último Reino narra a trajetória de Uhtred, um rapaz divido pelos rumos de seu destino, em uma Inglaterra ainda não nascida, palco de constantes invasões vikings e, é claro, em guerra.

Não que fosse indispensável revelar isso, mas eu jamais li As Crônicas Saxônicas. Já li Cornwell, sim, e digo que ele é um escritor de romances históricos sem igual. De suas histórias, certos itens se destacam, como a sobriedade das regras do universo narrativo, as minuciosas pesquisas e descrições, as reviravoltas e as paredes de escudos (uma imersão que nos drena o fôlego). O resultado em tela se mostra esforçado em manter-se fiel ao estilo do autor. No entanto, o que se transfigura de forma verossímil para a telinha mesmo, é um outro ponto também interessante e não menos relevante, que é: O temperamento de seu protagonista.

A interpretação de Uhtred ficou a cargo de Alexander Draymon, enquanto os breves eventos da infância dele ficaram com o Tom Taylor. São composições distintas, pois a mais jovem teve de se preocupar em explanar as canduras de um menino passivo ao que o cercava, e a mais velha, a postura de um homem destinado em procurar vingança. Mas o bacana é como o temperamento de Uhtred interfere nesses dois hemisférios, denunciando nele, mesmo após homem-feito, os resquícios de um sujeito inconsequente, debochado, pirracento, arrogante e teimoso. 

Mas vejamos o background  do personagem:

Nascido com o nome de Osbert, filho caçula do Ealdorman Uhtred, ele ainda na infância é rebatizado como Uhtred filho de Uhtred, quando seu irmão mais velho é assassinado. Após presenciar a derrota e morte de seu pai para os vinkings dinamarqueses, Uhtred Filho é sequestrado e criado pelos inimigos, e à medida que cresce, passa a ser como um deles. Porém, sua família dinamarquesa é assassinada e os vikings desconfiam que tal barbárie tenha sido orquestrada pelo filho adotivo e saxão. Sem condições de recorrer aos vikings, pois era tido como um assassino; nem para os saxões, pois havia se transformado num bárbaro pagão; e apenas acompanhado de sua amante, Brida (Emily Cox), Uhtred compreende que há um árduo caminho à frente para alcançar seus objetivos: Vingança e a reivindicação de seu direito como Ealdorman de Bebbanburg. 

Esses avalanches de infortúnios na vida de Uhtred constroem uma personagem tridimensional e imprevisível, porque suas ações impulsivas fazem o espectador temer pela vida dele, por diversas vezes. Muito se desconfiava de como Draymon se sairia na tarefa de interpretar um protagonista do Cornwell. Alguns alegavam que o visual clean e puxado no Orlando Bloom era um apelo desesperado pelo público teen e em nada fazia jus ao que se idealizava nos livros. É de se admitir, porém, que Uhtred se destaca visualmente dos demais personagens, não exibindo a usual "sujeira Cornwelliana" - aquela imagem de piolhos pra tudo quanto é lado e uma cusparada sem fim. Mesmo assim, é preciso apontar o trabalho de Alexander Draymon como consistente e disposto.

Em relação ao enredo, a temporada em questão engloba os eventos dos dois primeiros livros da série (O Último Reino e O Cavaleiro da Morte). Isso nos leva a ponderar sobre o ritmo da série, que é corrido, prejudicando o envolvimento com a trama. Sobretudo, essa urgência atrapalha mais durante os eventos da infância de Uhtred, o que acaba esfriando a empatia ou a preocupação para com alguns conflitos e personagens. A série lida melhor com o seu ritmo conforme os episódios avançam. A introdução da feiticeira Iseult (como ela me fez lembrar da inesquecível Nimue!) e a batalha do episódio final são executadas de maneira primorosa. 

Se houveram coisas em que essa temporada foi competente, essas coisas foram as numerosas relações dentro da narrativa: a relação entre ingleses e vikings; entre Uhtred e os vikings; entre Uhtred e o rei Alfred, ou entre sua própria divisão pessoal; entre a igreja católica e o paganismo; entre os rituais antigos e a reza ao Deus; e muitas outras. Trata-se de duas forças em atrito uma com a outra, gerando drama, uma técnica básica de Storytelling, que quando bem desenvolvida entregam histórias preciosas. Pessoalmente, ver o papel das religiões nas histórias do Bernard Cornwell é uma atração reflexiva. 

Dirigida por mais de um diretor (coisa muito comum para uma série televisiva), TLK apresenta uma câmera forte no hand-held, conferindo quase um teor documental. Mas o uso constante dessa câmera acaba prejudicando a dramaticidade de certas ocasiões. A profundidade de campo é limitada e os cenários são pouco aproveitados por causa disso. Talvez o fato de ser inspirada em eventos históricos possa explicar as decisões dos cineastas, ainda assim é um ponto negativo. Quanto ao design de produção, a série se mostra fiel a já mencionada "sujeira cornwelliana", e direciono certo destaque ao figurino e maquiagem de Uhtred, porque se ele é um personagem que muito se distingue dos demais, grande parte da culpa está em sua caracterização. Houveram inúmeras críticas ao visual dele, mas para mim, por ele me remeter ao Geralt de Rívia (da série The Witcher) foi uma experiência incomum e interessante. Acabei gostando. 

Não acho frutífero tentar encontrar um espaço para The Last Kingdom entre os sucessos como Game of Thrones e Vikings. Pra falar a verdade, não acho nem necessário. A série consegue adquirir pra si uma identidade, ainda que em processo de amadurecimento. A trilha sonora, por exemplo, é discreta, pois tenta fugir dos padronizados acordes de violoncelos, mas acaba não estabelecendo uma presença, exceto para o tema de abertura e a música tema de Iseult. O elenco, por outro lado, é competente, e menciono aqui os nomes de David Dawson, Adrian Bower e Ian Hart (Sim, ele foi o professor Qurinus Quirrell de A Pedra Filosofal).

Se lhe agrada enredos com temáticas de época, história da Inglaterra e Bernard Cornwell, The Last Kingdom é capaz de atender seus gostos. Após o segundo episódio a série engata a marcha de velocidade e se desenvolve com melhor ritmo. A boa recepção da crítica, a compreensão do público para com as limitações de uma primeira temporada, o razoável sucesso e a qualidade da produção, fazem dela uma promessa que merece atenção.

Menção: A intro/vinheta tem uma arte fantástica acompanhada de uma música de valor cultural riquíssimo. Vale a pena conferir.

***

Alguns pontos de partida começam como saxões, mas às vezes desvios escusos acabam nos surpreendendo e nos transformando em dinamarqueses. O tempo passa, e o trauma de ter sido expelido de minhas raízes se enfraquece, até ser substituído pela sensação de pertencimento, como se um estrangulamento aos poucos se metamorfoseasse em um abraço cálido. Sou dinamarquês - ouço-me dizer. Eu acredito. Eles aceitam. O passado não mais investe dores ou angústia. Porém, novamente sou traído pelo caminho. A minha segunda raiz agora é expelida também. Seu traidor - ouço eles dizerem. Não é mais um dos nossos - ouço eles dizerem. Eu não tive culpa, tentaram me matar também. Eu não fiz nada. É. Eu não fiz nada. Mas quem irá acreditar em mim? No fundo, nunca pertenci a lugar nenhum. Foi só uma sensação, nada mais. O que me sobra é o desejo por vingança, a mais antiga forma de justiça. Apesar disso, o caminho insiste em mudar, de novo, arrastando-me para longe. Estou começando a ficar farto de tudo. Eu perdi muito desde o começo. De repente, algumas peças se encaixam e repostas aparecem. Pelo visto, o jogo irá manter essa dinâmica. Mas eu não exponho temor algum, pois o destino é inexorável. O destino é tudo.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Ladrões de Bicicletas - A Densidade de um Protagonista e as Múltiplas Intenções de um Clássico

FADE IN

Surge em plano a imagem de um ônibus em chegada. O local se apresenta, sem qualquer censura, como um bairro carente. Igualmente miseráveis são os ânimos das pessoas ao redor, não há som ambiente, tampouco o barulho dos pés apressados que aglomeram-se em volta do ônibus agora parado. Há apenas uma música soturna.

Tudo isso fede a rotina. 
A vida seguindo terrivelmente devagar. 

Desempregados famintos por um rumo perseguem, em ritmo de parasitas, um senhor que pode silenciar os urros de seus estômagos. Porém, esse senhor não tem consigo tantas oportunidades assim para saciar tantos. Ele dispõe, por ora, somente de poucas ofertas de emprego, as quais estritamente não se encaixam nos perfis de nenhum ser ali presente - Como se fosse o reluzir de uma desgraçada coincidência. Quem de fato é adequado para uma chance está avulso a aquela multidão pedinte; está situado a metros dali; e não ouve o seu nome sendo chamado.

- Ricci! Antonio Ricci! 

E é assim que tudo começa...


ANTONIO RICCI (Lamberto Maggiorani) recebe a oferta de colador de cartazes, com a exclusiva condição de ter uma bicicleta própria para poder trabalhar. Após sacrificar a roupa de cama da família no objetivo de conseguir dinheiro para comprar uma bicicleta na loja de penhores, ele começa a trabalhar. Mas quando tudo parecia ter tomado o rumo da esperança, Antonio tem seu veículo roubado no primeiro dia de trabalho, desencadeando uma busca desesperada pela sua ferramenta de sustento. 

Assistir Ladrões de Bicicletas (1948) é contemplar o máximo do movimento Neorrealista Italiano que surgiu nos anos 40, trazendo um olhar mais lúdico para o fazer do cinema naquele país, o qual ainda enfrentava as sequelas de um conflito armado mundial. Abdicar-se do glamour, exercer as filmagens em locações reais, misturar a eficiência de experientes atores com a naturalidade de novatos e relatar tramas que remetem a vida cotidiana, são alguns dos aspectos deste movimento (Considerado por muitos como um dos mais relevantes de toda a história do cinema). A película em questão, dirigida por Vittorio de Sica, se uniformiza de tais características, entregando um filme que levanta questões de cunho social e também de caráter pessoal, como obsessão e angústia.

Lamberto Maggiorani como Antonio Ricci

No entanto, quero limitar o texto a certas observações que conferem a esse filme a categoria de magistral.

Pois então, a julgar pelo ritmo enérgico e pela postura ágil do filme em desenvolver uma trama instigante, Ladrões de Bicicletas consegue puxar para si observações variadas. Entre elas, se faz necessário mencionar a riqueza dramática presente em seu personagem principal, Antonio Ricci, e como é interessante ver tal personagem adquirindo mais densidade à medida que a história avança.

No início, Antonio é apresentado como uma figura sossegada e detentora de uma passividade acomodada. É possível perceber o resultado disso na forma que ele é introduzido em tela, meio que involuntariamente, ou seja, RICCI não vem até nós e diz: 

- Olá, espectador.

Não.

É a câmera que vai até ele. E vale dizer o quanto isso é útil para demonstrar o crescimento de determinado personagem no decorrer de uma narrativa:

Ele começa no raso e calmo, como a água de uma psicina, e avança através dos degraus da história até adquirir a agitação que o faz se assemelhar com um oceano.

ALIÁS, durante os primeiros minutos de projeção, a figura de Antonio concede aspectos que desenham a sua já mencionada inércia comportamental (E voltando à cena introdutória - Antonio é filmado sentado tal como uma criança que hiberna na caverna de sua solitária imaginação, longe dos homens que procuravam emprego, alheio ao chamado e, assim, havendo a necessidade de ser alertado por um conhecido); Desse modo, podemos vislumbrar a dita passividade característica nele e, para efeitos de ilustração, podemos também testemunhar como sua esposa, Maria (Lianella Carell), logo depois, é quem toma a iniciativa de penhorar a roupa de cama da família.

"Pai, filho e bicicleta"

Na composição de Maggiorani também estão traços de um homem jovial, dedicado à família e otimista para com o futuro. Toda essa confiança é roubada de seu semblante logo no primeiro dia de trabalho, no momento em que levam a bicicleta. A partir desse incidente, uma tormenta começa a ser tecida no Antonio, desencadeando nuvens de aflição, impotência e desespero.

Essas nebulosas transformações aplicam ao filme uma energia constante em volta da busca pelo veículo roubado. A obsessão para com o desfecho da procura é experimentada por cada cena posterior ao incidente, tendo como plano de fundo as ruas de uma Roma pós-guerra. Quem mais bebe da obsessão é justamente Antonio, e torna-se interessante ver como a angústia se intensifica conforme o desespero toma conta dele.

A película toma a liberdade de discutir, através desse conflito narrativo, certas relações humanísticas, como as ligadas com emprego, sociedade, criminalidade e também entre um pai e seu filho, Bruno Ricci (Enzo Staiola). Por isso, é relevante comentar a habilidade de Vittorio de Sica em construir satisfatoriamente todo esse espírito que representa o filme - como pôr o protagonista em meio a pessoas ou em planos mais amplos para acentuar sua pequenez; e também os diferentes espaçamentos existentes, e oscilantes, entre Antonio e Bruno, e como essas variações parecem exercer uma tensão narrativa; ou até mesmo em compor uma sequência com a estruturação de três atos explícita para narrar a sufocante Piazza Vittorio e a dimensão do conflito central.

Contudo, uma sequência que merece destaque e que sintetiza a excelência de Ladrões de Bicicletas, é aquela situada na Porta Portese. Vittorio, numa escolha inteligente, utiliza do significado e valor emocional da chuva para realçar a aflição e frustração de seus personagens. Antonio ensaia um início para sua desesperada procura, mas a já torrencial tempestade e a correria do povo em fuga atrapalham qualquer esforço. Ao fundo, um constante crescendo da trilha perturba e, mais uma vez, o trabalho corporal dos atores marca o desorientação dos personagens, pai e filho. A chuva, então, literalmente, pausa a perseguição e passa a desenvolver somente as dimensões internas relacionadas a quem procura a bicicleta. Quando a ultima gota, enfim, vai ao solo, Vittorio diminui a frustração de Antonio, lançando luz ao paradeiro da bicicleta, numa clara estruturação de escalada de tensão até uma recompensa. 



O realizador repete tais estruturações em outras sequências, sempre adicionando novos componentes, necessários para o desenvolvimento da história. No meio dessas construções, ele abre espaço para abordar o momento daquela Itália, não se apoderando de um discurso escancarado, mas apenas mostrando em tela aquilo que era vero, exatamente o que o movimento Neorrealista tinha de principal característica. 

Ladrões de Bicicletas é um trabalho sóbrio e tocante acerca da capacidade que um ser humano tem de reagir ao horripilante horizonte da penúria, revelando intenções (artísticas e sociais) de discutir sobre o proletariado e a sacrificante vida daqueles à margem dos abastados. Energético em seu desenvolvimento e realista em seu desfecho, o filme é certamente um dos mais relevantes de toda a história.

Quanto a Antonio Ricci: Este é uma personagem tridimensional à deriva de um complexo avalanche de sentimentos. A frustração e o desespero são ingredientes que moldam a densidade de sua mutação, levando-o para ações que às vezes não condizem com seu verdadeiro caráter e alinhamento, mas que são consequências de uma aguda angústia.


Supermente recomendado.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

A Funky Dude in Love

(OK
Listen up you folks
I'm gonna bring some beat
Over here
Over there
Over all around
Better shake y'all up
Up very high from the ground)

1, 2, 3, 4

He's got a woman
Come here and see
Said he's got a woman
Something hard to believe

He loves her in the morning
And in the night too
Who could ever imagine
A woman tamed our dude

He's got a woman
His loose days are gone
Girls, he's got a woman
Farewell our nasty John

She brought tenderness
To a man in need
He's now a song
Oh a song with color and heat

Said he's now got a woman
Better you start to believe

(Let's put some sexy sax here)

All over the town
One thing news
John gotta a baby that
loves him from hair to shoes
People says they won't last
It can't be true
'Cause where once was a sinner
We now see only good

Oh the naughty is gone
(All the way gone)
Oh Those one night love
(Gone, gone)
All that disguised loneliness
(Yeah, gone, gone)

He's got a woman
Listen up my beat
He's got a woman
You know, that's good to me

He's got a woman
Come here, see
Said he's now got a woman
Something not so hard to believe

Oh yeah

(He's alright
She's alright
Their love is alright...)

---

Inspirada na música "I Got a Woman" de Ray Charles

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Cinemas do Rio: Dia 1 - O Cinema das Luzes

Hoje dei início a um projeto que no ano passado procrastinei, enrolei e acabei não fazendo. A brincadeira é simples: Visitar TODOS os cinemas da cidade, e mais alguns de regiões próximas. É um exercício interessante e excêntrico, em igual escala, de experimentar O Cinema em lugares fora da minha rota comum. E também, por que não, um exercício de carioquice. 2015 ficou marcado como o ano de poucas idas ao cinema, raras, minguadas, pífias, enfim. 2016 veio para mudar o triste quadro deixado.

Para começar esta longa jornada, escolhi o Cinemark Downtown, localizado no bairro da Barra. Vale sublinhar que a escolha foi totalmente desprendida de simbolismos ou motivos poetizados. O estabelecimento em si é bom, oferece programação variada, um bom número de salas e projeção satisfatória. Para esta vez ficaram marcadas algumas peculiaridades meio que esquisitas, como por exemplo, um rapaz aleatoriamente contando piadas para estranhos na fila da bilheteria, a quantidade insana de publicidade antes dos filmes e bem... Digamos que esse cinema tem um certo apego às luzes. A má primeira impressão, aliás, foi essa. O apego peculiar fez com que houvesse atraso em desligar as luzes quando iniciaram um filme e que houvesse pressa em acender as mesmas DOIS minutos antes do término de outro filme.

Os filmes assistidos foram dois, O Despertar da Força, de J.J. Abrams, e Os 8 Odiados, de Quentin Tarantino. Pode falar, um começo e tanto tratando-se de programação escolhida. Fico feliz por ter acertado. E ok, ok, lá se vai a quarta vez assistindo Star Wars, beleza, eu admito. Contudo, posso dizer que hoje houveram alguns adicionais. A tecnologia D-Box empregada nas poltronas, fazendo com que elas se mexam freneticamente durante a projeção, ficou com o cargo de ser o diferenciador. De certa forma, foi sim, com suas chacoalhadas intensas a bordo da Millenium Falcon e X-Wing ou acompanhando um duelo de Sabres e Força, tudo isso deu uma imersão que eu ainda não havia provado. Mas no final, o que de fato tornou as coisas singulares foi a empolgação de um casal ao meu lado, assistindo o filme pela primeira vez. Vislumbrei neles cada dose de nostalgia aplicada, cada empolgação por uma vitória conquistada, cada suspiro de satisfação por um reencontro e cada lágrima pela... Bem, quem assistiu sabe. Estar na terceira pessoa da reação imparizou tudo.

Tanto o Episódio VII de Star Wars quanto o Episódio 8 de Tarantino são trabalhos de excelência cinematográfica e narrativa. Os 8 Odiados comprova a genialidade de Quentin como um Storyteller, um dos melhores filmes de sua carreira. Me ver reclinado para a tela do cinema, intrigado com as reviravoltas da trama, é algo que não costumo fazer muito, pelo menos não em público. Tarantino conseguiu mover minha postura, conseguiu entregar um estudo da cruel natureza humana sob o uso do bom, velho e puro cinema. Cinema de verdade.

No cinema de apego às luzes, comecei a jornada a qual espero encontrar muito mais do verdadeiro cinema. Que a força esteja comigo e o desânimo com os opositores da causa.

Rodemos esta cidade, então!

Um registro. Ignore a cara de mongol.

sábado, 14 de novembro de 2015

Tradutor Espontâneo: Beautiful Escape

- Houve momento de desejo implacável por algo diferente. Algo que pede uma displicência em querer correr rumo ao LÁ que Gonçalves Dias tanto idealizou. Uma fuga que traz catarse... Uma fuga encantadora.

Essa é uma tradução livre da música Beautiful Escape de Tom Misch com participação de Zak Abel.

Segue a letra original, letra traduzida e, ao final do post, a música:


BEAUTIFUL ESCAPE

I feel you breathing down my neck
As the blood's rushing through my legs
Waiting for a chance to prove that my soul
It belongs to you
I just wanna go there,
I just want a beautiful escape
I just wanna move ya
Show you that this love is yours to tear

And now we're driving over,
Thrills that makes us feel like we're not enough
Yeah, we're flying up, closer
Dancing on the edge of the world above
I was scared I couldn't show ya
All this lovin' that I hold inside
But now I feel your power
I am here, and I don't wanna hide
No more

Now I'm feeling like you're with me
As my heart's pouring on my sleeve
I don't want this rush to go
Oh I'm trying to let you know
I just wanna go there
I just want a beautiful escape
I just wanna move ya
I just wanna take you to that place

And now we're driving over,
Thrills that makes us feel like we're not enough
Yeah, we're flying up, closer
Dancing on the edge of the world above
I was scared I couldn't show ya
All this lovin' that I hold inside
But now I feel your power
I am here, and I don't wanna hide
No more

No more


FUGA ENCANTADORA

Sinto sua respiração rente ao meu pescoço
Como as correntes sanguíneas que fluem em mim
Ao aguardo de uma chance de se provar que minh'alma
Pertence a você
Eu só quero ir até lá,
Eu só quero uma fuga encantadora
Eu só quero te excitar
Mostrar-te que esse amor é teu para despedaçá-lo

E agora nós estamos em curso,
Curtindo aquele prazer de achar que não somos o bastante
É, estamos voando, juntos
Bailando nos limites do firmamento
Temi não ser capaz de te mostrar
Todo o amor que guardo dentro de mim
Mas agora sinto o teu calor
Estou aqui e não vou mais escondê-lo
Não mais.

Agora vejo que estamos em sincronia
Conforme meus sentimentos saem das fobias
Não quero me precipitar
Oh, estou tentando te mostrar
Que eu só quero ir até lá,
Eu só quero uma fuga encantadora
Eu só quero te excitar
Eu só quero te levar até aquele lugar

E agora nós estamos em curso,
Curtindo o prazer de achar que não somos o bastante
É, estamos voando, juntos
Bailando nos limites do firmamento
Temi não ser capaz de te mostrar
Todo o amor que guardo dentro de mim
Mas agora sinto o teu calor
Estou aqui e não vou mais escondê-lo
Não mais

Não mais.