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terça-feira, 8 de novembro de 2016

Isso Segundo Helena Müller

Helena Müller tem grande apreço por duas coisas: primeira, responder perguntas e segunda, seu nome. Por mais que seja difícil conceber, ambas as coisas se interligam, mas em um nível bastante profundo e pessoal jamais revelado. Como conseqüência direta de suas venerações íntimas, Helena tornou-se uma intelectual muito respeitada e de personalidade tão forte quanto o seu nome. Ela admite que um dia, quando nascera, já a nomearam de outra forma, mas que “no processo que me confeccionou ao sublime estágio de existência o qual me encontro, achei inadequado chamar-me daquilo quando deveria chamar-me disto. Então, o meu passado não me interessa e por isso peço que não me direcione mais esta pergunta”. A propósito, esta é a única pergunta que de fato não lhe agrada, pois, tirando isso, nada lhe proporciona mais prazer do que ser indagada. Adorável quando quer ser, simples quando acha necessidade em ser, e ríspida ao se encontrar em uma divagação, Müller não inicia nenhuma de suas respostas sem antes dizer: “E por que você quer obter esse conhecimento?”. No entanto, basta uma insistência convincente que a intelectual responde de bom grado, deixando sempre, após a resposta, a sua célebre advertência pairar sobre o interlocutor: “Agora só não me mate ninguém com este conhecimento!”.

Tivemos o prazer de encontrar esta figura icônica, obra de um esforço que, no fundo, pareceu-me muito acaso. Dissemos que precisávamos de uma resposta e tudo se sucedeu conforme já narrado. Precisávamos de uma definição básica do que viria a ser Literatura. Obviamente, ela implicou com o termo “básico”: “É de um absurdo tamanho que estou sendo tentada a considerá-los pessoas ignorantes. Mas estou rechaçando tal preconceito...”. Esclarecemos, com a voz emperrada como o discurso de um gago, que queríamos a definição para ser lida por adolescentes. “Nenhum conhecimento é básico, pois nem mesmo o desconhecimento é”, rebateu ela. Mas Helena Müller compreendeu a particularidade que requeríamos e atendeu ao nosso pedido. Uma pessoa extraordinária, ela é.

Segundo Helena Müller:

O ato de definir Literatura é uma tarefa difícil, quase impossível eu diria, tendo em conta que muitos estudiosos e intelectuais já intencionaram trazer uma definição definitiva para ela, uma que alcançasse todos os cantos deste vasto ambiente. No entanto, todo esforço para se chegar a uma conclusão unânime era, no final, suplantada por uma observação crítica, porque sempre faltava algum detalhe, e então voltávamos à estaca zero. Por isso fala-se mais sobre conceitos, e não definições; e aí a dinâmica muda completamente, porque cada conceito se complementa, adiciona mais camadas aos estudos e vai elucidando ainda mais o nosso entendimento para com a Literatura.

A palavra Literatura tem, em sua origem, ligação com a palavra littera, que quer dizer letra e, também, o conjunto de habilidades e conhecimentos para compor e ler um texto. Aliás, o material fundamental da Literatura é a letra. Portanto, usa-se o termo para designar uma obra de arte que tem como seu instrumento, e sua forma de se expressar, as palavras. Se fizéssemos um paralelo com a música, por exemplo, veríamos que esta tem o som como o seu instrumento de expressão. Literatura é a arte das letras. Se ainda estiver um pouco confuso para você, veja o que Aristóteles, filósofo da Grécia antiga, disse: “A Literatura é a imitação da realidade”, ou seja, isso quer dizer que o que vemos nas obras literárias são imitações (mimeses) do nosso mundo real, só que com algumas diferenças, como extrapolações lógicas, eventos extraordinários e distorções no espaço e/ou no tempo, coisas que não são possíveis no nosso mundo, apesar de sabermos que ele está repleto de surpresas que desafiam nossas concepções. No entanto, na Literatura, tudo isso é feito com o intuito narrativo, para provocar em nós, leitores, sentimentos e reflexões. O que é mais importante, porém, é sinalizar que para essa tarefa, o escritor faz uso de letras para nos imergir nessa “realidade paralela”. 

Contudo vale esclarecer uma coisa. Seria um equívoco falar que tudo aquilo que é composto por letras/palavras pode ser considerado Literatura (Arte). Não, não é isso, até porque para se discutir o que pode ser considerado arte ou não precisa de toda uma discussão mais profunda do que esta. Mas adianto, grosso modo, que arte precisa de um valor, uma significação e, também, comunicar algo de maneira estética. Mesmo assim, seja os livros do Harry Potter ou aquele poema que um aluno escreve para a matéria de produção de texto, ambos são Literatura – obviamente com seus valores diferentes.

O termo também é usado para denominar o conjunto de obras de um determinado país ou período histórico, pois a Literatura exprime bastante a característica e cultura de um determinado povo. Nesse sentido, quando falamos em Literatura Brasileira ou Inglesa, nos referimos às obras feitas nesses territórios, os quais possuem cada um seus próprios costumes e comportamentos. Por outro lado, quando falamos em Literatura Moderna, por exemplo, nos referimos à característica, uma tendência, de um determinado período na história da humanidade. 

Apresentados esses conceitos gerais, é possível ter um melhor vislumbre do que se trata Literatura e saber que estudá-la é um ato fundamental para se entender a nossa própria história como espécie – uma espécie singular em numerosos sentidos e que quando escreve suas palavras, exatamente o que ocorre na Literatura, é capaz de deixar um dos mais eficientes vestígios de sua passagem neste imensurável universo.

- Agora só não me vá matar alguém com este conhecimento! Trate de dizer isso a eles também.

sábado, 28 de maio de 2016

O Paradoxo

Ela e ele estavam no fim corredor. Bem, talvez não fosse o fim exatamente, levando em conta a figura de uma escada sob uma débil iluminação, situada logo além deles. Aquilo muito bem poderia ser o começo do corredor, aquilo muito bem poderia ser eles, dentro daquela escuridão conveniente e longe dos olhares dos quais fugiam. Na prática, essa ideia não havia passado na cabeça dele, ela, porém, achou que sim, então ele passou a achar que sim, ele quis que sim, quis que ocorresse. Mesmo contra a vontade unânime de seus corações, eles escolheram o fim ao invés do começo, e portanto pararam em uma porta. Por simplesmente ser quase impossível fazer o que ansiavam, escolheram a luz.

O percurso até lá, em si, nascera encharcado de cautela e preocupações, já que ele tinha diversos significados, especialmente os ligados ao desejo de fuga. Muito mal sabiam eles que a liberdade jamais brilharia de forma habitual, e com o preço habitual. Estavam aprisionados e para sempre seria assim. Foi por isso que, como em todas as outras vezes, pararam naquela porta e não foram além, pois além havia a escada, a escuridão e a excitação, e as correntes não permitiam tal banquete. Entretanto, apesar de todo o cuidado, os olhares julgadores ainda corriam eufóricos ao derredor, invisíveis e astutos. Ela tentava pegá-los, pelo simples prazer de ser capaz de percebê-los e prová-los errados; Ele, por outro lado, os ignorava, não porque era a melhor opção, mas porque era a menos dolorosa. 

Sim, ela e ele estavam no fim do corredor. Sim, ela e ele pararam onde poderiam ser vistos, pararam em uma porta. Pela sorte de olhos não serem capazes de ouvir, eles agora tinham privacidade, por menor que fosse, para conversarem sobre os infinitos obstáculos que os impedem de obter um contato mais genuíno. Obstáculos, esses, que são capazes de se materializar em qualquer coisa, até mesmo em uma porta. Sim, eu disse que ela e ele haviam parado em uma porta, não disse? Porém, mais parecia que tinha sido a porta que escolhera parar ali, justamente entre os dois. A dura verdade é que aquela porta sempre esteve lá, muito antes deles desconfiarem da existência um do outro, quiçá antes mesmo de ambos terem nascido. Mas se torna divertido, por vezes, pensarmos nesse tipo de simbolismo: No meio do caminho tinha uma porta, tinha uma porta no meio do caminho - e antes fosse só uma pedra. Eles não percebiam o que aquela porta representava no momento, provavelmente distraídos pela insistente procura por respostas que explicassem toda a situação, um esforço quase inútil. Dúvidas mais nasciam do que morriam e, durante esse ciclo, sem o querer das partes envolvidas, a porta ia se expandindo entre eles. Dentro da abertura existia uma força física que empurrava de volta ao lugar adequado aquele que tentasse ignorar as regras, desconsiderar as dificuldades. A força tinha diferentes faces, a face de uma proibição, uma culpa, uma vida antecedente; a face de um medo, um princípio, um eclipse. Para uma pessoa comum, era apenas uma porta com uma sala vazia, para eles, não. Era um tudo vestido de nada, assim como um começo vestido de fim.

Tão perto e tão longe, eles conversaram, cumprindo o rotineiro parto de dúvidas. Mas a angústia valia a pena, porque apreciavam a companhia um do outro. Trata-se de uma história triste, muito triste, mas também valia a pena, porque apreciavam o olhar e o sorriso um do outro. Os pensamentos são sempre mais rápidos que as palavras. Eles sempre atropelam tudo, inclusive as diversas faces de uma força inibidora. Embora exista o partir dos corações, tais momentos servem para tentar remendá-los, enquanto continuam a quebrarem-se, selando um completo paradoxo. 

O tempo voou na velocidade dos pensamentos e, quando ela e ele deram por si, já era tempo de ir. A porta cumpriu sua função com sucesso. Ainda restava muito o que dizer e fazer. Mas para quê, afinal? Eles bem conheciam a gravidade de suas ações concretas e hipotéticas. Além do mais, algumas poucas coisas merecem o campo do subentendido para que haja certa magia. Logo, conforme foram se afastando da porta, a mesma retornava ao seu aspecto anterior, o de simplesmente ser uma fenda em uma parede, nada mais. Os olhares aquietaram-se e retomaram o humor padrão. A luz que se ausentara da escada por todo aquele intervalo de tempo, voltou a resplandecer os degraus. Parecia que não, mas tudo estava recobrando a normalidade. Eles chegaram ali juntos. Eles foram embora separados. Não podiam bobear, com certeza a essência do obstáculo deixou aquela porta para poder possuir qualquer outra coisa.

A questão é quanto mais ela e ele se afastam, mais eles se atraem. Essa, aliás, é a parte mais triste deles. A parte da divisão do coração com a contradição dos atos. Quem sabe um dia alguém explique isso... Explique ela e ele.

quinta-feira, 24 de março de 2016

O Nome do Vento - Um Exemplo de Maestria no Ofício do Storytelling

Escrito pelo norte-americano Patrick Rothfuss e lançado no Brasil em 2009, O Nome do Vento faz parte de "A Crônica do Matador do Rei", sendo este o primeiro volume de uma trilogia (ainda não selada).

Kvothe e seu fiel alaúde, com a Universidade ao fundo.

O enredo conta a vida e os mais diversos feitos de Kvothe, um sujeito cujo seu nome apenas traz à tona inúmeras lendas. A história é relatada pelo próprio personagem principal para um cronista transformá-la em um livro, com a condição incorruptível de não censurar coisa alguma. Gradativamente, os diversos equívocos envolvendo a figura de Kvothe vão sendo desmascarados, apresentando uma vida sofrida, perigosa e musical, e ao mesmo tempo, revelando um homem brilhante, ambíguo e calculista. Três dias são suficientes para contar tudo. Eis então, o primeiro dos três: O Nome do Vento. O Primeiro Dia.

Quem me conhece, com certeza esteve em alguma situação a qual eu citei esse livro. Por incontáveis jeitos ele foi significativo para mim, mas o que mais se destacou foi a riqueza e a beleza na escrita do Patrick Rothfuss. Em seu livro de estréia, Rothfuss consegue entregar um romance de fantasia num excepcional êxito do ofício de Storytelling. Ele mexe com camadas complexas e uma estrutura detentora de armadilhas cruéis a qualquer estreante, trabalhando com vários personagens ao longo do plot, sem demonstrar insegurança ou perda do controle de sua narrativa.

As decisões de Rothfuss se mostram conscientes. Sua paciência no trabalho de desenvolvimento é fria e calculista, assim como Kvothe. Isso é denunciado muitas vezes ao longo das páginas. A voz do narrador, por exemplo, é dividida entre Interlúdios, compostos por uma voz em terceira pessoa, e os relatos de Kvothe para o Cronista, em primeira pessoa. Isso faz com que o texto não perca fôlego e, como demonstração de não ser simplesmente uma decisão avulsa, Patrick também extrai dessa estrutura certos cortes dramáticos ou insights que prendem a atenção do leitor.

Tratando-se de história, as páginas deste primeiro volume realizam uma trilha minuciosa através da vida de Kvothe, como a infância sendo membro de uma trupe e muito bem amado pela família e amigos. Logo depois, passa pelo sofrimento inerente à perda de entes queridos. E por fim, a sua escalada penosa para conseguir, ainda na adolescência, ingressar na Universidade e se manter nela com quase nenhum tostão no bolso. Durante o desenvolvimento, os infortúnios, as descobertas e reviravoltas vão enriquecendo as características desse mundo fantástico e sustentando a vontade de virar as páginas. Os mistérios do Chandriano, a arte da nomeação ou a relevância da música para desenvolver a obra - seja nas tradicionais cantigas ou em pontos mais sutis -, são alguns desses sustentadores. Aliás, o papel da música nesta obra é belo e de uma eficiência sensorial incrível. Ela não apenas trata a habilidade de Kvothe com o seu fiel alaúde como um mero detalhe em sua ficha, mas também como um fio condutor da trama. Desse fato saem situações narrativas simplesmente mágicas, como a apresentação de Kvothe na Eólica, que foi uma experiência singular - posso jurar que ouvi cada acorde daquela música.

Deve-se reintegrar, então, a qualidade da prosa. Seja Kvothe, seja Patrick, há uma riqueza poética empregada na obra. O texto se permite um olhar pessoal e, às vezes, até filosófico sobre os conflitos e conquistas do personagem. Isso é reforçado pelo fato de Kvothe, no tempo em que narra sua vida, ter escolhido se tornar num homem mergulhado na mediocridade. Portanto, sendo agora um mero dono de uma estalagem quase deserta, situada num local em que as coisas vão devagar por quase se tratar de dom, ele procura esquecer-se do seu antigo eu. Mas por trás dessa casca fatigada existe uma história de conquistas e feitos extraordinários. 

O mundo d'A Crônica do Matador do Rei, assim como qualquer universo ficcional bem elaborado, é composto de regras rígidas, sobretudo no que concerne ao uso de sua magia. E ao invés de levar essa tradicional denominação ao pé da letra, ou seja, "é magia porque é magia", aqui testemunhamos ela com múltiplos nomes e finalidades, como "Simpatia", "Nomeação" e "Siglística", cada uma com suas regras e metodologias de estudo e dominação. A "magia" em si, se comporta de maneira custosa para com o seu invocador, requerendo métodos e materiais que cobram preços físicos, monetários e mentais. Se torna evidente perceber a ampla pesquisa realizada pelo autor para criar essas regras, exatamente para embasar as verossimilhanças, por mais que ainda remotas, com as ciências do nosso mundo, como a física, medicina, química etc.

O ofício da nomeação se destaca por apresentar um conceito fantástico que parte de uma ideia simples, mas que carrega uma interessante finalidade. Não é de meu agrado estragar surpresas, mas saiba que as coisas, como os elementos, por exemplo, possuem seus nomes. Nomes verdadeiros, não os que nós demos à elas. Se o arcanista souber e for capaz de aprender esse nome real, ele consegue usar tal coisa ao seu favor. Então, aquele que souber o nome do vento, saberá controlá-lo.

Há naturais comparações, e outras um tanto quanto equivocadas, dessa série com a criada por J. K. Rowling, Harry Potter, a qual sou fã também. E de fato existem, sim, semelhanças entre as duas séries, porém, o que as diferem sistematicamente são as suas abordagens. Seria limitado de minha parte resumir as diferenças, dizendo que A Crônica do Matador de Rei é "um Harry Potter para adultos". Todavia, no fundo me pego imaginando o quanto seriam diferentes as minhas lembranças de Hogwarts, se certas coisas recorrentes na Universidade acontecessem com o Harry. Talvez seja por isso que cunharam esse termo. Porém, são nítidos os momentos em que O Nome do Vento se distancia por completo de Harry Potter, fazendo isso com a segurança de um sábio ancião.

Já em outro cenário, existe uma tonelada de comparações e disputas da série de Patrick Rothfuss com As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin. Mas tal disputa é um equívoco ainda mais descabido. Além do mais, o respeito e o tratamento de "sou fã desse cara" é mútuo entre os dois.

O Nome do Vento possui seus próprios méritos. É um trabalho instigante e belo, com todas as doses que uma aventura de fantasia pode proporcionar. Estou pronto para embarcar no segundo dia de relatos de Kvothe, ansioso para descobrir mais sobre este grande personagem. Deixo aqui minha recomendação. 

Nota importante: Não tente chamar o nome do vento se não estiver devidamente preparado para isso. Você pode cair duro no chão enquanto é aprisionado no mais fundo calabouço da sua mente e, na melhor das hipóteses, morrer. Fique avisado.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Leve em Consideração

Quando os olhos de Clarice foram de encontro com os de fulano, ela foi capaz de enxergar toda a beleza contida naquele ser. Ele, trocando em miúdos, era a coisa mais linda que ela já viu ou ainda veria em toda sua existência - e para tal conclusão delicada não fora preciso mover a retina um só centímetro, Clarice sabia disso e era suficiente apenas olhar, mergulhar nos olhos cor Amazônia, vívidos e puros, os quais devolviam percebimento. Junto ao momento, a respiração da moça desapareceu por um segundo equivalente a século, seu corpo traiu-a com arrogância ingrata e ela sentiu nas entranhas mais profundas que a compõe, uma palpitação abstrata que arranca a razão até dos mais pragmáticos dos homens: Amor. Amor categórico e incisivo; amor que não pede para adoecer; o mesmo amor neutralizador de sentidos; o amor cego que, tal qual pelos próprios olhos, escolhe não mais enxergar nada além do que o último vislumbre - O que alguns ainda insistem em chamar de primeira impressão... De primeira vista.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

A Gênesis de Garvânia

Eis que antes do início de todas as coisas, a escuridão reinava e o caos, a ela, servia. Quando entre os dois houve atrito, criou-se a luz, com a luz veio a ordem e a partir destes, nasceu Garvânia, a Terra.

Seguidamente, Ela originou quatro filhos prometidos a protegê-la: Helena, a leal; Tímus, o sábio; Sara, a árida; e Gorfã, o medonho. Eles dividiram entre si os pólos, formando o Norte (Helena), Sul (Gorfã), Leste (Sara) e Oeste (Tímus). Porém, à retaguarda de qualquer proteção minuciosa, ao reencontrar a escuridão no centro de seu interior, Garvânia gerou Guiliã, um filho que carregava em sua existência presságios pavorosos.

Receosos, os primeiros herdeiros amaldiçoaram a vida deste que fora nomeado indigno. Igualmente amaldiçoadas, foram as terras herdadas por Guiliã, ditas centrais, infestadas com vulcões e poeira escura. O indigno, por sua vez, julgando de injusta tal decisão, forja do magma uma criatura alva e de feição fúnebre, intitulada de humano.

Tão pequenos e tão mortais, mas destruidores. Nascidos da lava e raiva grotesca, retrato de seu ambiente e criador, a prole teria como instinto gerar atribulações e destruição por todo o mundo.

Os demais Irmãos, atormentados com o ocorrido, advertiram Guiliã. Mas o Herdeiro do centro da terra continuou a postergar quaisquer regras. Os humanos, já numerosos e organizados, espalharam-se por toda Garvânia e ultrapassaram as fronteiras. Sendo assim, os herdeiros dos pólos forjaram seus próprios filhos destinados a defender seus respectivos lares.

A retomada dos territórios, antes invadidos pelos homens, tingiu a história do mundo de cor escarlate - o sangue humano. Batalhas cruéis drenaram o mar de Guilianeses de volta ao inaproveitável centro da Terra - a punição seria subsistir, mergulhar entre desolações; e quanto a Guiliã, uma prisão na mais distante estrela do cosmo o aguardava.

Estes novos filhos, legítimos, representavam a ordem. Primeiro vieram os Gorfaneses, tão monstros e abissais quanto os homens, mestres dos ofícios e trabalhos; em seguida, Nutrilianos, filhos de Helena, guardiões da natureza e harmonia; Tímuneses, protetores do conhecimento e especialistas em elementos; e por fim, os místicos Sarenses, seres mestres nas infinitas dimensões da mente e consciências.

A ignorância de um homem, porém, jamais saberia descrever o que os diferenciava dos genuínos. Então, em detrimento da compreensão, fora criado o idioma humano, anteriormente limitado a sinais. Entretanto, o que compreenderam foi a existência de um símbolo. Um dom que os filhos de Guiliã jamais testemunharam ou possuíram. Fora nomeado de 'o brilho da alma', provável fonte de força e júbilo entre os legítimos. Era lindo aos seus olhos e hipnotizante à alma.

Era o sorriso.

Eles estudaram-no, veneraram-no e tentaram capturá-lo. Obcecados por aquele símbolo, enaltecido como a ferramenta que os levariam à legitimidade, as broncas criaturas que pudessem ser denominadas de sábias foram enviadas em expedições. Porém, a fonte para o sagrado dom manteve-se inalcançável e o que restavam-lhes era um fim pior do que a morte.

Os quatro herdeiros, ainda presentes na terra, conservaram o equilíbrio e isolaram os humanos de tal forma que nem mesmo o amanhecer germinava para eles. E na mais profunda noite, eles permaneceram imunes a extinção.

Criador aprisionado e prole condenada.
A segunda era dos humanos em Garvânia começara.

Os vulcões adormeciam diante da distância de Guiliã, tornando os humanos cada vez mais estranhos à luz. O silêncio do que antes denominava-se invencível extinguiu velhos costumes e apagaram crenças. Na ausência do pai, o abandono apadrinhou os homens oferecendo apenas tristeza em seu futuro escuro.

Gorfã, o pai dos monstros, por outro lado, preencheu seu coração de uma obsessão indomável pelas terras agora sem herdeiro. Seu interesse pelos vulcões moveu esforços e perseguições violentas para conquistar a casa de seu irmão mais odiado. No entanto, uma coisa resistia ao furor sulista, uma tribo, povoada por humanos revestidos do magma de Varlanóiã, o último vulcão ativo da terra. Nem mesmo a horda mais macabra obteve o êxito desejado e o ódio de Gorfã envergou-se para um destino sanguinário.

Varlanóiã erguia sua aparência negra junto às cordilheiras de Coimbra, banhando de larva sua redondeza e rugindo grunhidos dilaceradores de ar. Na falha situada aos pés do vulcão, sobre a planície elevada, viviam as únicas criaturas capazes de aguentar tamanha desolação: Humanos. Estes faltavam-lhes sombras, eram selvagens e não se interessavam por sagrados símbolos descobertos no Norte. Mantiveram-se junto à sua natureza, a violência de um Guilianes, e devolviam com igual gravidade, o ódio de Gorfã.

Ataques investidos, resistência humana e a falha dos monstros: esta ordem de acontecimentos manteve-se por muito tempo, adicionando tons escarlates ao solo negro de Varlanóiã. Gorfã, fruto da luz e escuridão, fora o legítimo que escolheu as sombras, escolheu dar vida às aberrações, pois desde que testemunhou a natureza destruidora e selvagem dos humanos, desejou tal instinto em seus filhos. O sul de Garvânia, representava o limite da terra, o inverno e os dias curtos; Com seu aspecto espinhoso, planícies são escassas e montanhas pungentes  acrescem por quase todo território até o oceano gélido com seu horizonte nebuloso e infinito.

Enquanto as escuridões confrontavam-se, Tímus, Sara e Helena escolheram não intervir no conflito por temerem o contágio com a selvageria vigente, muito menos repreenderam os desejos de Gorfã ou procuraram seus reais motivos. Dos demais filhos legítimos de Garvânia veio apenas a liberdade de nomear a batalha:

A Guerra dos Horrendos.

O primeiro ataque à Varlanóiã havia se tornado um passado distante, o qual apenas a derrota permanecia inalterável. Guinchos de espadas, com ódios descendo junto aos golpes, e feridas cada vez maiores ecoavam pela fúnebre atmosfera do sul. Os humanos continuavam a resistir, com o brandir do último vulcão, às hordas abissais que penetravam nas sombras trazendo a ambição de um legítimo. Porém, o brandido tornara-se abatido, sonolento, como se estivesse caindo em adormecimento.

O temor estremeceu os humanos.

Farto com a derrota e de coração petrificado, Gorfã buscou do mais profundo manancial das montanhas negras a matriz para Suas novas hordas. Destes ele arrancou o brilho da alma, armou-os do mais ínfimo furor e avermelhou seus olhos. Das cordilheiras de Coimbra era capaz de testemunhar o bater dos tambores, o reluzir de chamas verdes e o brado dos monstros, reprimindo Varlanóiã ao sussurro. Revestidos de rancor, as legiões abissais investiram o único ataque necessário para sucumbir os humanos do sul, não levando misericórdia alguma consigo.

Os indignos foram derrotados.

No entanto, ao ponto cego de olhos sedentos de sangue, um vestígio salientou à ira: uma jovem humana de pés pálidos e vestes encardidas. Ela fugiu horizonte glacial adentro, mesmo com o peito atravessado por uma arma de Dolordrã, almejando a clemência dos deuses. Mas a única resposta que recebia era o eco de seu sofrimento. A dor lancinante percorria todo seu corpo potencializada pelo frio, perfurando como agulhas a carne, os nervos e ossos. Logo, o ferimento manifestou à manceba excrementos esverdeados do mais profundo sangue de Garvânia e um odor nauseante de enxofre. Para a desistência ela tentou entregar sua peleja, urrando súplicas pela morte, mas uma presença parecia puxá-la, impedindo-a de parar.

Quando a alma se dispôs abandonar aquela vida, trancando-se no abismo mais obscuro da consciência, surgiu do céu, através das nuvens negras, uma penumbra. Da fresta vazou uma luz amarelada, atingindo a humana em resplandecência jamais testemunhada por um filho de Guiliã. Contudo, ao invés de um calor reconfortante, veio a dor e a acidez, seguido do crepitar escaldante onde a arma encontrava-se. Não havia mais presença guiadora, nem o caminhar contra a vontade, apenas o cair oco sobre a neve e o contorcer de agonia.

Mesmo refém do sofrimento, ela questionou o por quê daquilo, o por quê da penúria, de ser a única que resistiu ao ódio de Gorfã.

Então veio o silêncio;
Depois uma voz;

- DEIXAI DE SER ESTRANHA À LUZ, CRIATURA DE GUILIÃ, O SANGUE DESTA TERRA AGORA CORRE EM SUAS VEIAS. QUE TORNE-SE LIMPA TUA VESTE E SEMBLANTE, E VOSSOS PÉS AQUEÇAM-SE, PORQUE GUARDO EM TI A CHANCE DE TUA RAÇA TRIUNFAR. DESCANCE POIS AGORA EM MEU CORPO, ARMORA.

E o cair inconsciente se fez, alvorecendo uma nova era para os humanos.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A Canção dos Humanos em Garvânia

Horripilante criatura!
É aquela que não sorrir.
Ausente brilho da alma,
aos humanos era apenas capaz subsistir.

Frutos de indignação,
criados ao intuito de destruição.
Isolados e frios,
para eles, restava somente a escuridão.

Quem poderia imaginar,
que dentro deles havia poder e ganância?
E que seres de pequenos e quase extintos,
alcançariam grandiosa relevância?

De fato, sua incapacidade de sorrir
é contrária a de sobreviver.
Porém, vosso sofrimento
o fim é impossível prever.

Apesar da escuridão, apesar de uma maldição,
No fim, houve uma solução, uma esperança,
um sorriso...
E todos os humanos poderiam se beneficiar por isso.

--

N.T.: Há milhões de estações, existiu Garvânia, uma terra inundada de mitos e criaturas que convidam para um baile apoteótico a imaginação (pelo menos a minha). Este texto é o primeiro, de muitos, que povoarão este blog com crônicas e canções que invocam a magia deste mundo.

domingo, 14 de setembro de 2014

Numa Sexta-feira

Nas molhadas ruas dessa sexta, o frio traz à tona incógnitas rotineiras. Penso estar em conflito com o ambiente que me cerca. Por algum motivo, os homens parecem mais românticos, as mulheres mais radiantes, as crianças mais protegidas, os idosos mais esperançosos e o sol, que em cisma de timidez viveu o hoje, mais conveniente. Um balanço de entusiasmo e nostalgia preenche a minha mente, porém não sei no que meus olhos refletem, acredito estarem tão confusos quanto eu.

Desisti de imediato fazer qualquer ligação lógica com as condições meteorológicas e o humor ambiental vigente: Uma mãe acaba de abrir mão de seu guarda-chuva para proteger o filho da tempestade - O amor em tempos frios. Perseguindo os meus caminhos, penso no que mais é necessário para viver um sonho e, mesmo com o dia que me rodeia sendo tão convidativo, admito que quero estar aqui e ao mesmo tempo não.

Ao sair do trem, me espantei com a insignificante diferença de temperatura entre o vagão e a rua. Isto me preocupa. Estou para chegar em casa mais cedo, poderei pôr em descanso o meu corpo. Quero pensar nas coisas boas que me esperam - Talvez seja este o entusiasmo e a casa, nostalgia.

Homem carrega uma flor, mulher bem consigo, uma criança com um guarda-chuva, idoso sorrir e um dia frio e chuvoso termina em brilho solar. Tudo parece bem, estou no caminho certo. Isso é o que meus olhos refletem.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Dama das Dores

Ontem me foi permitido sonhar
Com uma bela dama de hipnotizante olhar.
Em suas mãos, ela portava algo de difícil compreensão
Não lembro se uma arma ou meu próprio coração

Disse para não temer o fim do perfeito
Senti uma dor eletrizante no peito
Ela jogou fora o que segurava após um beijo
Num cruel e descompromissado desfeito

Suas mãos, agora sujas, estenderam-se a mim
Do paraíso no qual estava, ela me mostraria o fim
Belezas também morrem, ela disse
Poderia restaurar o que fora descartado, se ela não me impedisse
Com não's e uma realidade crua
Encontrei minha companheira amargura.
Excomungado do sonho,
O que sobrou foram lembranças,
de um amor agora desmembrado da esperança.

Foi bom estar perdido na perfeição
Comparado à esta atual desolação.
De que serve o adeus,
se ela é ignorante ao que digo?
Do oxigênio que usa,
ela não tá afim de dividir comigo.