domingo, 26 de junho de 2016

A Minha Parte Que é Didática

Sabe aquela hora que você precisa despir-se de toda vergonha pra poder passar na matéria da faculdade? Pois bem, esse vídeo é a materialização de tal aterrorizante ato, o qual alguns costumam nomear "cara de pau" mesmo. Então, minhas amigas e eu entramos com a cara de pau, com a cara de carne e a coragem. Tudo pelo um dez na Ana Paula. Era preciso falar em inglês somente? Falamos. Era preciso fazer esforço máximo para não parecer político ao ler as falas enquanto filmávamos? Fizemos. Era preciso um pouco de maluquice para fazer o vídeo parecer engraçado e didático sem perder o fio da meada? Bem, isso nós tentamos e esparamos que tenha sido este o resultado final. Phrasal Verbs é o foco, mas você pode se distrair um pouco com algumas doideras. Não nos leve a mal, estávamos nervosos, ensinando inglês e se divertindo, TUDO AO MESMO TEMPO.

(Legenda disponível)


quinta-feira, 2 de junho de 2016

Mr. Robot - My Brain Has Been Hacked

Esses são alguns comentários sobre a primeira temporada de Mr. Robot.



Elliot Alderson é um jovem programador que, em decorrência de alguns traumas do passado, sofre de uma desordem que o torna anti-social. Durante o dia, ele leva uma vida medíocre como técnico de segurança virtual na AllSafe Cybersecurity e, durante a noite, ele é um hacker vigilante. Elliot se vê numa encruzilhada quando o líder de um misterioso grupo de hackers, Mr. Robot, o recruta para destruir a firma que ele é pago para proteger, a Evil Corp. Motivado pelas suas crenças pessoais, ele luta para resistir à chance de destruir os CEOs da grande corporação que ele acredita estar controlando - e destruindo - o mundo.

Criada por Sam Esmail e com elenco de Rami Malek, Christian Slater, Martin Wallström, Carly Chaikin e Portia Doubleday. Exibição nos EUA por conta da USA Network e no Brasil, Canal Space.

Mr. Robot certamente foi uma das mais interessantes, e instigantes, surpresas apresentadas na TV em 2015. Portada de uma identidade cinematográfica que traz personalidade ao programa, é possível sentir-se dominado pela atmosfera da série logo em seus primeiros minutos, o que é potencializado pela montagem que acompanha a paranóia e ansiedade de seu protagonista. Outro ponto que reforça tal imediatismo na imersão é a qualidade vinda do roteiro, que constrói personagens tridimensionais e uma trama que não se preocupa em ser traiçoeira com o espectador, em outras palavras: Não tem um pingo de arrependimento de suas rasteiras aplicadas em nós.

Elliot é um jovem estranho. Essa estranheza de longe é algo inédito na TV, tendo em vista que é comum atribuir a uma pessoa de seu tipo - dependente químico, introspectivo e impenetrável - o caráter de genialidade. De fato, Elliot é um rapaz genial, sua inteligência é notável, sobretudo quando se trata de sistemas de informação - engenharia de sistemas, melhor dizendo. E isso é importantíssimo para a história. Ele faz uso de suas habilidades para praticar o vigilantismo cibernético e denunciar criminosos como pedófilos ou traficantes, o que é um ponto que entra em conflito com o seu desinteresse em relacionar-se com as pessoas - e nesse caso, o problema que Elliot tem com contatos e abraços se mostra como uma forte representação desse distanciamento intencional -, porque mesmo sendo assim, ele ainda acredita que de alguma forma pode salvar o mundo e proteger as pessoas.

No entanto, é uma proteção ao seu modo. E esse modo o qual encontrou para proteger e se aproximar das pessoas não é lícito, pois ele as hackeia para conhecê-las, construindo um acervo de dados pertencente a cada pessoa. Ninguém escapa desse processo, nem mesmo os amigos mais próximos, os quais são poucos. É uma aproximação totalmente artificial e assimétrica, uma invasão pessoal onde segredos são transparecidos e a vulnerabilidade é aumentada. De sua boca sai um discurso de ódio em relação ao rumo que a sociedade vem tomando, porém é nítido perceber que em sua concepção, nós, pessoas comuns, somos vítimas. As vítimas de uma ínfima porcentagem de indivíduos que controlam todo o mundo, exclusivamente de acordo com os seus interesses econômicos.

A série tem uma narração em Voice-over que quebra a quarta parede. Nela, Elliot tenta desenvolver uma certa amizade e cumplicidade com o espectador, mesmo considerando, desde o começo, a artificialidade da mesma: "Talvez eu devesse te dar um nome. Mas pra quê? Você só existe na minha cabeça. Não podemos esquecer disso. Merda, eu realmente estou falando com uma pessoa imaginária" (Mr. Robot S01E01). Não há um tratamento desdenhoso por parte de Elliot para com o seu amigo imaginário, muito pelo contrário. Contudo, a tentativa de edificar a cumplicidade é constantemente embaçada pela desconfiança. Elliot sofre de paranóia e sua mente é perturbada pelos fantasmas do passado, por projeções de seguidores que nem ao menos sabemos se existem realmente. Esse mar de confusões psicológicas faz com que ele desconfie de todos, inclusive de nós, observadores. É uma relação instável a todo momento.

De volta ao plot central, Elliot conhece Mr. Robot - interpretado de maneira surpreendente por Christian Slater -, uma figura que, ao testemunhar o potencial do jovem engenheiro, lhe oferecesse a chance de fazer parte de uma equipe de hackers, a FSociety, e protagonizar uma arrebatadora "Revolução Global". O corpo de membros do time, diga-se de passagem, é composto por figuras caricatas: um gordo, um negro, uma menina com atitude, um velho, um esquisito/maluco e uma árabe - sendo esta a figura que mais me pegou de surpresa, só foi uma pena vê-la tão pouco desenvolvida, e envolvida, dentro da trama, pelo menos nesta primeira temporada.

A tal revolução prometida diz respeito a Evil Corp, corporação ficcional que é detentora majoritária de diversos mercados no mundo, desde os de bens de consumo até os de crédito e finanças, acentuando, aliás, algo muito recorrente em narrativas de Cyberpunk: a dominação mundial por parte de gigantescos conglomerados. O objetivo da FSociety é derrubar a corporação e instaurar um reboliço, que segundo eles, libertará o mundo, as pessoas comuns, das amarras impostas a nós sem qualquer consentimento. Para isso, Elliot é a peça fundamental da conspiração, já que ele é pago para proteger a corporação através de seu emprego regular. A propósito, a Evil Corp foi a responsável pela morte precoce de seu pai, Edward Alderson, morte esta ocorrida devido a negligência e ganância vinda por parte de seus administradores.

Em termos de cinematografia, Mr. Robot apresenta uma identidade visual que se comporta de maneira "rebelde" durante toda a temporada. Chega a ser engraçado observar como a rebeldia exercida gerou inúmeros tópicos de discussões na internet, com alguns defendendo e outros condenando ou lamentando a atitude dos responsáveis. Pois bem, expliquemos essa rebeldia: Há em Mr. Robot frequentes "quebras" de composição e incessantes desobediências à regra dos 180º. Sendo mais claro, os planos, e as cenas como um todo, são compostos de forma incomum, onde os personagens, quando em uma conversa, por exemplo, são postos com espaços abusivamente sufocantes à frente, não havendo a rotineira rima visual e espacial em que cada personagem ocupa uma extremidade do campo, dando assim, a sensação de proximidade e face a face. Também há na composição o arranjo dos personagens em diminutos pontos de intersecção das regras dos terços, conferindo excessivo espaço vazio acima da cabeça e em outras partes do quadro. Visualmente, essas decisões acabam expressando a perturbação de seus personagens e a vulnerabilidade deles, pois parecem ser afogados pelo ambiente que os cercam. Tetos, por exemplo, são constantemente mostrados e a profundidade de campo limitada ajuda a exercer tal impressão. Mas vale salientar que em certos momentos a "desordem" visual empregada distrai a atenção, exatamente por ser difícil de ignorar o seu uso. É como se ela gritasse: "Ei, estou aqui! Olhe!", o que culmina em uma distração desnecessária. Mesmo assim, tem uma cena em especial, com Elliot e sua psiquiatra, Krista, em que é feita uma construção visual esplendorosa, onde há uma gradativa inversão da figura de Elliot na cena, de dominado para dominador. É de descassetar a mente.

Estruturalmente, além do já mencionado Voice Over, a série faz uso de meios como flashbacks, alucinações e situações hipotéticas. Não para ser redundante e preguiçosa, mas para esmiuçar a vida e a mente de seu protagonista. A propósito, o foco da narrativa é este. O plano da FSociety - grupo que muito nos lembra os Anonymous - é relevante, sim; inteligente e incrível também, pois as missões para seu avanço fazem parecer as quests de um Video Game - daqueles que possuem infiltrações na surdina. Porém, o enredo claramente se enverga para falar sobre um jovem solitário, dependente químico, negligente em relações e traumatizado pelo passado, principalmente a perda de seu pai e as péssimas lembranças com sua desprezível mãe. Elliot é uma personagem trágica, sua fisionomia transparece a perturbação psicológica e a angústia de estar preso em farsas. E por causa do cuidadoso trabalho de escrita, o que acabamos por testemunhar é um avalanche de reviravoltas que aumenta o nosso interesse a cada instante, fazendo-nos relevar alguns momentos medianos. As revelações são extraordinárias e explicitam a inteligência da história.

No que diz respeito as atuações, é preciso destacar o trabalho de Christian Slater como Mr. Robot e de Martin Wallström como Tyrell Wellick. Ambos representam pontos de destaque na temporada, os quais sustentam uma química interessantíssima com o protagonista. Mas é o magnetismo de Rami Malek que mais impressiona. Em uma entrega total a natureza de sua personagem, Rami constrói um Elliot paranóico e vulnerável a emoções intensas, apesar de sua frieza característica. A timidez e o olhar esbugalhado e vidrado são resultados adquiridos durante a decadência emocional e psíquica. A persistência no uso do casaco preto, por exemplo, pode ser compreendida como um dos traços de seu distanciamento intencional. Com certeza, este é o ponto alto de sua carreira, o que é muito justo.

Assistir Mr. Robot foi uma experiência incrível. É uma série que ainda nos reserva inúmeras surpresas e respostas para as pontas deixadas soltas ao final da temporada. Uma série autêntica e instigante, uma lição de Storytelling com certeza. A inteligência do roteiro e a tridimensionalidade de seu desenvolvimento, o que pode flertar com discursos de cunho social e político, tornam a série uma janela para o nosso atual rumo como sociedade. Elliot estaria decepcionado com a gente. Portanto, não é apenas "maneiro" assistir Mr. Robot. 

É importante.

Assistam.

sábado, 28 de maio de 2016

O Paradoxo

Ela e ele estavam no fim corredor. Bem, talvez não fosse o fim exatamente, levando em conta a figura de uma escada sob uma débil iluminação, situada logo além deles. Aquilo muito bem poderia ser o começo do corredor, aquilo muito bem poderia ser eles, dentro daquela escuridão conveniente e longe dos olhares dos quais fugiam. Na prática, essa ideia não havia passado na cabeça dele, ela, porém, achou que sim, então ele passou a achar que sim, ele quis que sim, quis que ocorresse. Mesmo contra a vontade unânime de seus corações, eles escolheram o fim ao invés do começo, e portanto pararam em uma porta. Por simplesmente ser quase impossível fazer o que ansiavam, escolheram a luz.

O percurso até lá, em si, nascera encharcado de cautela e preocupações, já que ele tinha diversos significados, especialmente os ligados ao desejo de fuga. Muito mal sabiam eles que a liberdade jamais brilharia de forma habitual, e com o preço habitual. Estavam aprisionados e para sempre seria assim. Foi por isso que, como em todas as outras vezes, pararam naquela porta e não foram além, pois além havia a escada, a escuridão e a excitação, e as correntes não permitiam tal banquete. Entretanto, apesar de todo o cuidado, os olhares julgadores ainda corriam eufóricos ao derredor, invisíveis e astutos. Ela tentava pegá-los, pelo simples prazer de ser capaz de percebê-los e prová-los errados; Ele, por outro lado, os ignorava, não porque era a melhor opção, mas porque era a menos dolorosa. 

Sim, ela e ele estavam no fim do corredor. Sim, ela e ele pararam onde poderiam ser vistos, pararam em uma porta. Pela sorte de olhos não serem capazes de ouvir, eles agora tinham privacidade, por menor que fosse, para conversarem sobre os infinitos obstáculos que os impedem de obter um contato mais genuíno. Obstáculos, esses, que são capazes de se materializar em qualquer coisa, até mesmo em uma porta. Sim, eu disse que ela e ele haviam parado em uma porta, não disse? Porém, mais parecia que tinha sido a porta que escolhera parar ali, justamente entre os dois. A dura verdade é que aquela porta sempre esteve lá, muito antes deles desconfiarem da existência um do outro, quiçá antes mesmo de ambos terem nascido. Mas se torna divertido, por vezes, pensarmos nesse tipo de simbolismo: No meio do caminho tinha uma porta, tinha uma porta no meio do caminho - e antes fosse só uma pedra. Eles não percebiam o que aquela porta representava no momento, provavelmente distraídos pela insistente procura por respostas que explicassem toda a situação, um esforço quase inútil. Dúvidas mais nasciam do que morriam e, durante esse ciclo, sem o querer das partes envolvidas, a porta ia se expandindo entre eles. Dentro da abertura existia uma força física que empurrava de volta ao lugar adequado aquele que tentasse ignorar as regras, desconsiderar as dificuldades. A força tinha diferentes faces, a face de uma proibição, uma culpa, uma vida antecedente; a face de um medo, um princípio, um eclipse. Para uma pessoa comum, era apenas uma porta com uma sala vazia, para eles, não. Era um tudo vestido de nada, assim como um começo vestido de fim.

Tão perto e tão longe, eles conversaram, cumprindo o rotineiro parto de dúvidas. Mas a angústia valia a pena, porque apreciavam a companhia um do outro. Trata-se de uma história triste, muito triste, mas também valia a pena, porque apreciavam o olhar e o sorriso um do outro. Os pensamentos são sempre mais rápidos que as palavras. Eles sempre atropelam tudo, inclusive as diversas faces de uma força inibidora. Embora exista o partir dos corações, tais momentos servem para tentar remendá-los, enquanto continuam a quebrarem-se, selando um completo paradoxo. 

O tempo voou na velocidade dos pensamentos e, quando ela e ele deram por si, já era tempo de ir. A porta cumpriu sua função com sucesso. Ainda restava muito o que dizer e fazer. Mas para quê, afinal? Eles bem conheciam a gravidade de suas ações concretas e hipotéticas. Além do mais, algumas poucas coisas merecem o campo do subentendido para que haja certa magia. Logo, conforme foram se afastando da porta, a mesma retornava ao seu aspecto anterior, o de simplesmente ser uma fenda em uma parede, nada mais. Os olhares aquietaram-se e retomaram o humor padrão. A luz que se ausentara da escada por todo aquele intervalo de tempo, voltou a resplandecer os degraus. Parecia que não, mas tudo estava recobrando a normalidade. Eles chegaram ali juntos. Eles foram embora separados. Não podiam bobear, com certeza a essência do obstáculo deixou aquela porta para poder possuir qualquer outra coisa.

A questão é quanto mais ela e ele se afastam, mais eles se atraem. Essa, aliás, é a parte mais triste deles. A parte da divisão do coração com a contradição dos atos. Quem sabe um dia alguém explique isso... Explique ela e ele.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Mãe É Tudo Assim

Ainda no mês de comemoração do Dia das Mães, posto aqui uma homenagem, em forma de poema, que foi encomendada pela minha abiguinha Su para ser recitada por crianças as quais, bem provavelmente, são amadas o suficiente por suas mães, esses seres de bondade inefável, para ouvirem isso e ainda manifestarem uma satisfação na face. Okay, parei com a auto-depreciação. Mas ó, se vale comentar, teve carinho no processo. Garanto. 


Mãe é tudo assim

Plunct Plact Bum!
- Menino, o que houve desta vez?
Mamãe é sempre assim, surge de lugar algum
Perguntando o que o filho fez.

Porque mãe é presença.
Mãe é atenção.
Mãe faz diferença
Ainda mais na repreensão:
- Não faça isso! Saia daí agora!
Essas palavras ressoam
Enquanto minha alma revigora.

Dos dois sóis que me receberam quando nasci,
Mãe é o mais radiante deles.
A estrela de braços macios onde dormi.
E que dentre seus vários deveres,
Faz do amor incondicional seu título de mártir.

- Meu filho vai ter nome de santo.
Mas santo arteiro.
Já olhou pra esse rostinho?
Isso vai fazer bagunça o dia inteiro!

Plunct Plact Bum!
Não tem como ir pra lugar nenhum.
Eu não quero e nem dá,
Porque mãe e longe nunca deveriam combinar.

Como arroz e feijão, quero ter-te pertinho pra sempre
Com o seu carinho aquecendo meu coração
E o seu olhar por minha frente
Protegendo-me de qualquer vilão.

Tu és minha heroína
Dotada de sentidos extraordinários.
Pode juntar todos os Vingadores
E ninguém ali ainda será páreo.

A minha mãe é a razão do meu viver
Presente perfeito de Deus pra se ter.
Mãe, palavra curta de dizer
Mas é igual céu, faz o infinito nela caber.

Mãe, como eu te amo
Eu não sei viver sem ti
Por isso alegre declamo:
Obrigado por existir.

***

Obrigado, Suelem, por me proporcionar essas chances de poder fazer meus textos saírem de outras bocas além da minha. Receba os meus mais sinceros agredicementos.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Suburbiando

A sirene mais uma vez soou.
Embarco no ardor do trem que leva-me de volta
Ao estilo limo com rodas de ferro,
Sob um estridente elo que amontoa esta gaiola.
O rush do fim da tarde nos alcançou.

Por aqui, muitos cruzarão até cidades.
Pelo caminho, um degradê distinguirá as realidades
Com muros pichados, favelas, pobreza,
Becos, vielas e sorrisos em meio a dureza.

Os abastados nos tratam súditos
Por sermos limitados a bens implícitos
Retidos em oculto ramal e distante;
Vindos de um nascedouro caótico, brabo e coadjuvante.

Somos muitos, vivemos nos arredores
De uma cidade com duvidosos intuitos,
Mas a nossa esperança nunca dorme - Ela madruga,
Pois seu trajeto dura horas - Dura vida
De despertar pré-matinal que não mais a intimida.

És tu a bela flor de abril, cuja tua excelência ruiu;
És tão juvenil quanto não gentil;
Campeã viril na lei do funil:
Viva a pátria Brasil.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Espere um instantinho, Calixto, Deus foi almoçar

Tendo se deixado levar pelo fluxo venenoso da rotina, Calixto assistiu sua vida perder o rumo. O casamento ficou no meio do caminho, a casa inundou-se de poeira e lembranças cada vez mais melancólicas, e o pequeno fruto dessa união fracassada, distanciado. Gradativamente, com um perigoso vigor, a vida desse homem mergulha em um oceano de caos. É como se quem devesse manter a ordem do mundo estivesse se ausentado; se retirado por tempo suficiente para que tudo saísse dos trilhos, como se Deus tivesse saído para almoçar.



O escritor paulista, Ferréz, conduz com um jeito incomum - pelo menos para mim - a crescente desgraça de Calixto nesta obra de voz pessimista. As abruptas alterações entre narrações em primeira e terceira pessoa, a ausência de marcações para diálogos e as compridas orações, por vezes compondo um parágrafo inteiro, são representações condizentes com o caos que o protagonista se encontra. 

Calixto é um homem que enfrenta a crise da meia idade, enquanto organiza de forma pragmática um arquivo de documentos, seu emprego. Praticamente solitário, ele dispõe-se apenas de uma verdadeira amizade, Lourival, uma espécie de alter ego do próprio autor. O resto se resume em relações obrigatórias e fatigosas, frustrações em fugas sexuais, uma velada paixão por uma vizinha lavadora de calçada e as lembranças de seu passado. Um personagem incapaz de distinguir um dia do outro.

O ritmo da leitura torna-se feroz devido aos breves parágrafos e capítulos, conduzidos por uma ágil escrita de Ferréz, repleta de reflexões existencialistas e uma melancolia infecciosa. Essa agilidade, aliás, acaba por dar à obra uma roupagem interessante, como se tudo fosse um amontoado de pequenos retratos, um compilado de eventos que se aprofunda, sem qualquer censura, na caótica vida de Calixto - e também um pouco na vida do amigo, Lourival. São olhares para o passado e presente, incumbindo o leitor de realizar as comparações e julgar a postura do personagem, que em nenhum momento se mostra digno da alcunha de bom Samaritano, ou pobrezinho. O futuro também passa a ter o seu esboço traçado, pois conforme a trama e a obscuridade avançam, é brotada uma preocupação quanto ao desfecho de tudo, em como será o meio para alcançar o tão distante alívio.

A ambientação da trama também carrega uma significativa relevância para mostrar a asfixia existencial de Calixto. Situada no subúrbio, os lugares presentes na obra ganham uma monotonia intencionalmente desinteressante e antipática. Isso se contrapõe nos momentos de lembranças do passado, onde havia família e esperança. No entanto, é nítido perceber o gradual desgaste do otimismo. Por outro lado, a repetição dos locais acentua o aspecto de rotina, como o lavar constante de uma calçada que nunca de fato fica limpo, ou o pragmatismo de um serviço de arquivar documentos. E também são testemunhados motéis decrépitos, putas horrendas e um sexo fracassado que te escandaliza. Não há qualquer local na trama que ofereça conforto, apenas opressão, como se do piso ao teto, do asfalto ao céu, houvesse um metro de distância.
Além disso, acho que não seria absurdo algum levantar um paralelo, que de nada tem o intuito de comparar, entenda bem, mas de pôr numa mesma prateleira, se posso assim dizer, esta obra e o filme Clube da Luta (1999), dirigido por David Fincher e estrelado por Brad Pitt e Edward Norton. Isso, sobretudo, por causa do personagem Lourival, amigo de Calixto, que se apresenta como um indivíduo compulsivo em acumular bens, principalmente os ligados à cultura pop, como action figures, filmes, CDs, jogos etc. Suas buscas para completar uma coleção têm a dinâmica de uma caça ao tesouro, onde a recompensa é superficial e o prazer, passageiro. Afinal, a felicidade jamais oferece-lhe a face, as coleções aglomeram-se em sua casa, precária, e o grande propósito dado à vida dele age como um ingrato soberbo. E quando o filme de 1999 põe em discussão a superficialidade de uma geração que baseia sua vida na filosofia "pra ser eu tenho que ter", e quando se percebe traída pela busca da felicidade e a satisfação plena, entrega-se a propósitos e organizações radicais, como um clube de lutas clandestinas. Lourival não entra pra nenhuma seita ou sai na porrada com ninguém, mas no final ele toma um caminho que muito decepciona Calixto.
Portanto, Deus foi almoçar é um trabalho de tocante e corajosa escrita. Apesar da chatice que às vezes é encarar a personalidade de seu protagonista, a obra tem seus méritos em nos oferecer uma experiência fora do convencional e, mesmo assim, ainda conseguir nos comover com eficiência. Não é uma história alegre, mas com certeza uma experiência reflexiva. Eu recomendo.

quinta-feira, 24 de março de 2016

O Nome do Vento - Um Exemplo de Maestria no Ofício do Storytelling

Escrito pelo norte-americano Patrick Rothfuss e lançado no Brasil em 2009, O Nome do Vento faz parte de "A Crônica do Matador do Rei", sendo este o primeiro volume de uma trilogia (ainda não selada).

Kvothe e seu fiel alaúde, com a Universidade ao fundo.

O enredo conta a vida e os mais diversos feitos de Kvothe, um sujeito cujo seu nome apenas traz à tona inúmeras lendas. A história é relatada pelo próprio personagem principal para um cronista transformá-la em um livro, com a condição incorruptível de não censurar coisa alguma. Gradativamente, os diversos equívocos envolvendo a figura de Kvothe vão sendo desmascarados, apresentando uma vida sofrida, perigosa e musical, e ao mesmo tempo, revelando um homem brilhante, ambíguo e calculista. Três dias são suficientes para contar tudo. Eis então, o primeiro dos três: O Nome do Vento. O Primeiro Dia.

Quem me conhece, com certeza esteve em alguma situação a qual eu citei esse livro. Por incontáveis jeitos ele foi significativo para mim, mas o que mais se destacou foi a riqueza e a beleza na escrita do Patrick Rothfuss. Em seu livro de estréia, Rothfuss consegue entregar um romance de fantasia num excepcional êxito do ofício de Storytelling. Ele mexe com camadas complexas e uma estrutura detentora de armadilhas cruéis a qualquer estreante, trabalhando com vários personagens ao longo do plot, sem demonstrar insegurança ou perda do controle de sua narrativa.

As decisões de Rothfuss se mostram conscientes. Sua paciência no trabalho de desenvolvimento é fria e calculista, assim como Kvothe. Isso é denunciado muitas vezes ao longo das páginas. A voz do narrador, por exemplo, é dividida entre Interlúdios, compostos por uma voz em terceira pessoa, e os relatos de Kvothe para o Cronista, em primeira pessoa. Isso faz com que o texto não perca fôlego e, como demonstração de não ser simplesmente uma decisão avulsa, Patrick também extrai dessa estrutura certos cortes dramáticos ou insights que prendem a atenção do leitor.

Tratando-se de história, as páginas deste primeiro volume realizam uma trilha minuciosa através da vida de Kvothe, como a infância sendo membro de uma trupe e muito bem amado pela família e amigos. Logo depois, passa pelo sofrimento inerente à perda de entes queridos. E por fim, a sua escalada penosa para conseguir, ainda na adolescência, ingressar na Universidade e se manter nela com quase nenhum tostão no bolso. Durante o desenvolvimento, os infortúnios, as descobertas e reviravoltas vão enriquecendo as características desse mundo fantástico e sustentando a vontade de virar as páginas. Os mistérios do Chandriano, a arte da nomeação ou a relevância da música para desenvolver a obra - seja nas tradicionais cantigas ou em pontos mais sutis -, são alguns desses sustentadores. Aliás, o papel da música nesta obra é belo e de uma eficiência sensorial incrível. Ela não apenas trata a habilidade de Kvothe com o seu fiel alaúde como um mero detalhe em sua ficha, mas também como um fio condutor da trama. Desse fato saem situações narrativas simplesmente mágicas, como a apresentação de Kvothe na Eólica, que foi uma experiência singular - posso jurar que ouvi cada acorde daquela música.

Deve-se reintegrar, então, a qualidade da prosa. Seja Kvothe, seja Patrick, há uma riqueza poética empregada na obra. O texto se permite um olhar pessoal e, às vezes, até filosófico sobre os conflitos e conquistas do personagem. Isso é reforçado pelo fato de Kvothe, no tempo em que narra sua vida, ter escolhido se tornar num homem mergulhado na mediocridade. Portanto, sendo agora um mero dono de uma estalagem quase deserta, situada num local em que as coisas vão devagar por quase se tratar de dom, ele procura esquecer-se do seu antigo eu. Mas por trás dessa casca fatigada existe uma história de conquistas e feitos extraordinários. 

O mundo d'A Crônica do Matador do Rei, assim como qualquer universo ficcional bem elaborado, é composto de regras rígidas, sobretudo no que concerne ao uso de sua magia. E ao invés de levar essa tradicional denominação ao pé da letra, ou seja, "é magia porque é magia", aqui testemunhamos ela com múltiplos nomes e finalidades, como "Simpatia", "Nomeação" e "Siglística", cada uma com suas regras e metodologias de estudo e dominação. A "magia" em si, se comporta de maneira custosa para com o seu invocador, requerendo métodos e materiais que cobram preços físicos, monetários e mentais. Se torna evidente perceber a ampla pesquisa realizada pelo autor para criar essas regras, exatamente para embasar as verossimilhanças, por mais que ainda remotas, com as ciências do nosso mundo, como a física, medicina, química etc.

O ofício da nomeação se destaca por apresentar um conceito fantástico que parte de uma ideia simples, mas que carrega uma interessante finalidade. Não é de meu agrado estragar surpresas, mas saiba que as coisas, como os elementos, por exemplo, possuem seus nomes. Nomes verdadeiros, não os que nós demos à elas. Se o arcanista souber e for capaz de aprender esse nome real, ele consegue usar tal coisa ao seu favor. Então, aquele que souber o nome do vento, saberá controlá-lo.

Há naturais comparações, e outras um tanto quanto equivocadas, dessa série com a criada por J. K. Rowling, Harry Potter, a qual sou fã também. E de fato existem, sim, semelhanças entre as duas séries, porém, o que as diferem sistematicamente são as suas abordagens. Seria limitado de minha parte resumir as diferenças, dizendo que A Crônica do Matador de Rei é "um Harry Potter para adultos". Todavia, no fundo me pego imaginando o quanto seriam diferentes as minhas lembranças de Hogwarts, se certas coisas recorrentes na Universidade acontecessem com o Harry. Talvez seja por isso que cunharam esse termo. Porém, são nítidos os momentos em que O Nome do Vento se distancia por completo de Harry Potter, fazendo isso com a segurança de um sábio ancião.

Já em outro cenário, existe uma tonelada de comparações e disputas da série de Patrick Rothfuss com As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin. Mas tal disputa é um equívoco ainda mais descabido. Além do mais, o respeito e o tratamento de "sou fã desse cara" é mútuo entre os dois.

O Nome do Vento possui seus próprios méritos. É um trabalho instigante e belo, com todas as doses que uma aventura de fantasia pode proporcionar. Estou pronto para embarcar no segundo dia de relatos de Kvothe, ansioso para descobrir mais sobre este grande personagem. Deixo aqui minha recomendação. 

Nota importante: Não tente chamar o nome do vento se não estiver devidamente preparado para isso. Você pode cair duro no chão enquanto é aprisionado no mais fundo calabouço da sua mente e, na melhor das hipóteses, morrer. Fique avisado.