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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Leve em Consideração

Quando os olhos de Clarice foram de encontro com os de fulano, ela foi capaz de enxergar toda a beleza contida naquele ser. Ele, trocando em miúdos, era a coisa mais linda que ela já viu ou ainda veria em toda sua existência - e para tal conclusão delicada não fora preciso mover a retina um só centímetro, Clarice sabia disso e era suficiente apenas olhar, mergulhar nos olhos cor Amazônia, vívidos e puros, os quais devolviam percebimento. Junto ao momento, a respiração da moça desapareceu por um segundo equivalente a século, seu corpo traiu-a com arrogância ingrata e ela sentiu nas entranhas mais profundas que a compõe, uma palpitação abstrata que arranca a razão até dos mais pragmáticos dos homens: Amor. Amor categórico e incisivo; amor que não pede para adoecer; o mesmo amor neutralizador de sentidos; o amor cego que, tal qual pelos próprios olhos, escolhe não mais enxergar nada além do que o último vislumbre - O que alguns ainda insistem em chamar de primeira impressão... De primeira vista.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Deixe Que O Cristo Nos Diga O Limite Desta Cidade

Evaristo saltou da cama quando seu despertador, tocando pela sei lá das quantas milésima vez, o fez lembrar da responsabilidade que tem todas as manhãs, levar um O Retorno do Rei completo, versão estendida com comentários e tudo, para chegar ao que ele chama de ganha-pão - Pobre Odisseu. Porém, Evaristo não se ligou na última grande notícia bombástica divulgada, - o coitado lá tem tempo pra isso? - pois se tivesse, teria tomado conhecimento de uma mudança que muito lhe afeta.

Ele não é mais Carioca.

É! Até poucos dias atrás, mesmo sendo habitante do extremo-longe confundó do Judas, lugarzinho entre o limiar da Avenida Brasil e as extensas matas virgens gradativamente descabaçadas pelas viris fábricas de fumaças, Evaristo tinha o direito de dizer-se "Carioca" - Documentos asseguravam isso. Residente, com farto orgulho, da cidade do Corcovado, Pão de Açúcar e Copacabana, por mais que tais lugares fossem apenas vislumbrados através da janela do ônibus ou das novelas. Agora, no entanto, essa cidadania não existia mais. Isso parecia trazer um ar de caos, um ar de panelaços, um ar de pneus queimados interditando estradas e um ar de abandono muito mais abandonado do que o normal.

Não vieram ônibus que levassem para o trabalho; Não veio ordem que trouxesse de volta os ônibus que levassem para o trabalho; Tampouco, explicação sensata que entregasse qualquer ordem suportável; E se qualquer coisa passasse por ali, o protocolo era gritar:

- Não mais cariocas!

Os representantes das mídias com suas sofisticadas quinquilharias, como helicópteros, Drones e até um deturpador de realidade de última geração usado recentemente em alguma causa que merecesse adequar-se ao "padrão-do-cliente-mais-importante", chegaram para transmitir tal evento que a qualquer momento poderia substituir a novela naquele dia, e Copacabana não seria vista. Evaristo, perplexo e aporrinhado por uma desconfiança, perguntou para algum jornalista o que estava acontecendo, mas levou a seca resposta:

- Não mais cariocas!

Então, perguntou para um sujeito que derramava álcool sobre uma parede de pneus e papelão. Ele, porém, também disse:

- Não mais cariocas! - Ríspido e Boom, chamas.

Ciente do dia de serviço perdido e preocupado se poderia ser demitido pela "incapacidade de chegar ao trabalho por causa de um caos bobinho", diria seu chefe, nosso amigo retornou para casa em busca de montar bom argumento. Talvez mais um parente morto por uma bala perdida ou outra enchente de descaso conscientemente exercido, ajudariam na peleja que é não transar com a pindaíba. Antes de solidificar a desculpa escolhida, pasmou-se ao ver, pelo noticiário mesmo, um motivo mais extraordinário, original e real para o alvoroço:

"Que belo dia para ter um protesto, não? Que belo dia para ser carioca, não? Ah, melhor dia ainda para dizer "Não mais cariocas!", não? Foi aprovado, finalmente, o projeto de lei que há tanto tempo a cidade maravilhosa clamava, feito por paladinos comprometidos com uma coerência nada equivocada e estúpida, mas visionária e sadia para as vistas. O Projeto 'Tem Cristo, é Rio' tem como objetivo, e falo isso com uma alegria juvenil, re-mapear, e a essa altura já re-mapeou, a cidade do Rio de Janeiro para novos parâmetros que são convenientes aos interesses de uma meia-dúzia samaritana que entende as necessidades da capital.
 
Tá vendo aquela estátua de pedra-sabão lá no alto do Corcovado? Ali. Isso. Consegue? Se sim, fique tranquilo, o Rio de Janeiro ainda é o seu lugar. Parabenizo, aliás, pelo ótimo gosto em escolher seu bairro e por ser este cidadão exemplar, não precisando nem conhecê-lo para dizer que és muito civilizado, sim. Agora, se você não consegue vê-la de jeito nenhum, nem a lasquinha do dedo do meio ou ela lhe dando as costas, pode ver, ao menos, o meu lamento cinicamente scriptado para informar que a cidade das belezas naturais não é mais para você. Não tenho dito isso eu, mas, sim, o próprio Cristo!
 
É claro que há lugares deploráveis capazes de vislumbrar a estátua. Essas eternas pedras no sapato do desenvolvimento, que tiveram o atrevimento de estar no lugar certo da segregação certa, possuem o texto como proteção. Entretanto, convenhamos, é muito mais fácil cuidar de 2 do que 20, imagina 2000. E acaba sendo importante para o projeto, mostrar que há o interesse de agregar alguns subalternos ao plano do Éden.
 
O Rio agora é a cidade do metrô, da cultura, do grupo estação, do lazer, da boniteza, dos ônibus com TV e ar condicionado e das novelas do Manoel Carlos. A mancha rubra do cão, a cor de tijolo sem emboço, a feiúra das linhas de trem,  a ausência da brisa para a catinga de esgoto e a vivência da lamentação, não mais serão um fardo para a cidade, não mais atrasarão, não mais cariocas serão. Pro lado de cá, tudo continua, pro lado de lá, a rotineira atenção nunca concedida, ou seja, nada muda. O projeto abrirá exceções lógicas, calma civilizados injustiçados! Alguns bairros fiéis aos requisitos serão re-agregados e ganharão até uma projeção digital do homem de Nazaré. No mais, daqui para frente, surgirá um mar de transformações que trarão a nós a tão sonhada ordem e o tão adiado progresso.
 
Aos ex-cariocas, aviso que nossa transmissão terminará agora, em definitivo, para sempre. Não fazemos nem questão de ir recolher nossas coisas por aí, podem ficar. Foi um desprazer tê-los convivido e fique sabendo que é um alívio o corcovado não ser mais alto e o Cristo, maior.
 
Fiquem com suas respectivas programações normais."

Evaristo achou aquele argumento genial para justificar sua falta, mas de nada mais valia, o único prêmio recebido pela retórica fora um: Você está demitido. Motivo? Mora mais longe do que há um dia atrás. De sua varanda, o Cristo não lhe oferecia nada, nem as costas e nem uma esperança. Ele não ousou pensar que Cristo, não o símbolo segregador, tenha abandonado toda aquela gente, mas alguns outros, mortais e responsáveis, com certeza abandonaram. Nosso Evaristo sentiu raiva invadindo. Raiva não por perder o emprego ou o canal de TV, não pelo fedor de pneu queimado impregnando ou pela exclusão - até porque todos ali já eram excluídos há muito tempo. A raiva invadiu porque foi traído o orgulho, arrancando a cidadania de morador da cidade maravilhosa como se fosse desapropriar qualquer moradia feia. No entanto, ele tinha certeza que o panelaço e a fumaça continuariam até alguém prestar atenção, nem que o próprio Cristo e o Corcovado aumentassem...

Ou se mudassem pro lado de lá.

domingo, 30 de agosto de 2015

Quanto ao Absurdo de Estar Perdido ou Achado

"Você tem essa mania de me dizer que estou 'perdido'. Bem, não que por algum acaso eu já tenha me achado neste mundo turbulento, pois tal coisa, te garanto, jamais fiz e acho meio improvável fazê-lo algum dia. Porém, todavia, entretanto, não - quer - dizer - que - estou -  perdido. Eu só não cheguei ainda. Pergunto ali e pergunto acolá sobre esse negócio de se achar, mas oras, ninguém sabe coisa alguma! Por que eu, miserável ser errante, deveria portar esse item tão raro e valioso? Só de perguntar já me soa arrogante. Agora, hei de admitir que enrolo nesse troço aí. Na verdade, passo em tantos galhos, dos mais tortos aos mais alinhadinhos, desprovido de qualquer pretensão, que até o pouco de bom-senso que possuo não configuraria isso como sendo um procurar. Mas é um, sim, lá num fundo tão fundo que o pobre diacho do 'perdido' venha a calhar de uma certa forma. E pensando bem, aqui nos domínios de um galho lodoso e sinuoso que faço morada há três dias, essa caça é tão eterna quanto o tédio que deve ser se achar por completo. Convenção social ou não, eu não sei o que quero, você não sabe o quer, ninguém sabe! - E nem se toda a sanidade mental minha esvaísse perante uma doença do tempo, ainda assim, não consideraria o termo 'perdido' em meus cunhos de julgamento alheio. Prefiro usar um mais simplório e filosófico: Vivendo - com V maísculo mesmo".

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Matina Audácia

Despertado antes do canto, eu fui. Vontade alguma me ocorria para nada, pois o sono ainda me entorpecia, vinda rotina. Sob a míngua luminosidade da matina, expus-me ao frio que molengava a todos. Os mesmos fulanos se arrastando como lesmas pelo asfalto áspero e bocejadores da preguiça iam ao longo como um coral lamentoso, meu âmbito. De qualquer lugar que convém haver calor ou cantarolar de pássaros, sinal jamais deu e mínima acerca, ninguém ofereceu. Assim o tempo decorreu e mantém. O clima era tão pra baixo quanto a neblina que marchava rente ao chão em modorrenta lentidão. Nós, meros lerdos, cuja as roupas eram as nuvens, marchávamos com igual indiferença, obedientes ao sistema, como sombras carentes de corpo e portadores de cegueira cinza.

Em algum de repente mais súbito que um segundo, cessei meus passos desleixados e me entreguei a um questionamento, coisa qual acho cansativa - E reintegro aqui que não há exatidão na ordem de tais ocorridos, pois procrastino. E digo-lhe mais, parei não pela pertinência do pensamento, petulante comichão muscular da consciência, mas, sim, pelo doce que emanava a essência, diferente. Rasguei ao meio uma volta e minha farda junto, contrariei a manada degustando o teor ácido da rebeldia e vi o turvo dissipar-se, derramando cor das bordas até o núcleo. Não costuma ser costume, tampouco prudente, desligar-se do coral. Entretanto, inédito acorde seduzia e eu me entregava à travessura. Minha alma despida da neblina havia e então achei conveniente correr, como um símbolo de liberdade, clichê.
    
O frescor trouxe uma brisa a tons de amarelo que povoaram todas as dimensões, sendo aquele colossal tapete azul, meu novo acorde, quebradiço, mas tão reconfortante quanto salgado. Como criança, experimentei tudo com euforia e edifiquei coisas à base de areia e ingenuidade. Brinquei até me esquecer do começo ou do fim. Vivi a cor, a natureza, a paz e a liberdade. Eu percebi. Senti-me eterno. E agora rio sem-graçado frente às palavras  que escrevo. Ó, caro leitor, perdoe este miserável lunático. Ele acha graça em demasiar as coisas e divaga sobre fantasias romantizadas entre os intervalos de remédios. Todavia, nem tudo fora fruto de devaneios, pois punhos ferozes seguem toda vez que relato tal acontecido e isso inquieta-me mais do que qualquer comichão. Não mais percebo dor ou visão, devido a punição em locar-me dentro de neblina mais densa que antes.
    
Vive-se tempo de mínguas. Se algum dia, por acaso ou querer divino, alguém achar essa prosa, terá destransformado minha liberdade da imaterialidade e poderá igualmente cessar os passos desleixados, caso cor desmanche a neblina. E enfim, existência menos vão teremos feito.
    
Boa sorte, carta minha.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

A Gênesis de Garvânia

Eis que antes do início de todas as coisas, a escuridão reinava e o caos, a ela, servia. Quando entre os dois houve atrito, criou-se a luz, com a luz veio a ordem e a partir destes, nasceu Garvânia, a Terra.

Seguidamente, Ela originou quatro filhos prometidos a protegê-la: Helena, a leal; Tímus, o sábio; Sara, a árida; e Gorfã, o medonho. Eles dividiram entre si os pólos, formando o Norte (Helena), Sul (Gorfã), Leste (Sara) e Oeste (Tímus). Porém, à retaguarda de qualquer proteção minuciosa, ao reencontrar a escuridão no centro de seu interior, Garvânia gerou Guiliã, um filho que carregava em sua existência presságios pavorosos.

Receosos, os primeiros herdeiros amaldiçoaram a vida deste que fora nomeado indigno. Igualmente amaldiçoadas, foram as terras herdadas por Guiliã, ditas centrais, infestadas com vulcões e poeira escura. O indigno, por sua vez, julgando de injusta tal decisão, forja do magma uma criatura alva e de feição fúnebre, intitulada de humano.

Tão pequenos e tão mortais, mas destruidores. Nascidos da lava e raiva grotesca, retrato de seu ambiente e criador, a prole teria como instinto gerar atribulações e destruição por todo o mundo.

Os demais Irmãos, atormentados com o ocorrido, advertiram Guiliã. Mas o Herdeiro do centro da terra continuou a postergar quaisquer regras. Os humanos, já numerosos e organizados, espalharam-se por toda Garvânia e ultrapassaram as fronteiras. Sendo assim, os herdeiros dos pólos forjaram seus próprios filhos destinados a defender seus respectivos lares.

A retomada dos territórios, antes invadidos pelos homens, tingiu a história do mundo de cor escarlate - o sangue humano. Batalhas cruéis drenaram o mar de Guilianeses de volta ao inaproveitável centro da Terra - a punição seria subsistir, mergulhar entre desolações; e quanto a Guiliã, uma prisão na mais distante estrela do cosmo o aguardava.

Estes novos filhos, legítimos, representavam a ordem. Primeiro vieram os Gorfaneses, tão monstros e abissais quanto os homens, mestres dos ofícios e trabalhos; em seguida, Nutrilianos, filhos de Helena, guardiões da natureza e harmonia; Tímuneses, protetores do conhecimento e especialistas em elementos; e por fim, os místicos Sarenses, seres mestres nas infinitas dimensões da mente e consciências.

A ignorância de um homem, porém, jamais saberia descrever o que os diferenciava dos genuínos. Então, em detrimento da compreensão, fora criado o idioma humano, anteriormente limitado a sinais. Entretanto, o que compreenderam foi a existência de um símbolo. Um dom que os filhos de Guiliã jamais testemunharam ou possuíram. Fora nomeado de 'o brilho da alma', provável fonte de força e júbilo entre os legítimos. Era lindo aos seus olhos e hipnotizante à alma.

Era o sorriso.

Eles estudaram-no, veneraram-no e tentaram capturá-lo. Obcecados por aquele símbolo, enaltecido como a ferramenta que os levariam à legitimidade, as broncas criaturas que pudessem ser denominadas de sábias foram enviadas em expedições. Porém, a fonte para o sagrado dom manteve-se inalcançável e o que restavam-lhes era um fim pior do que a morte.

Os quatro herdeiros, ainda presentes na terra, conservaram o equilíbrio e isolaram os humanos de tal forma que nem mesmo o amanhecer germinava para eles. E na mais profunda noite, eles permaneceram imunes a extinção.

Criador aprisionado e prole condenada.
A segunda era dos humanos em Garvânia começara.

Os vulcões adormeciam diante da distância de Guiliã, tornando os humanos cada vez mais estranhos à luz. O silêncio do que antes denominava-se invencível extinguiu velhos costumes e apagaram crenças. Na ausência do pai, o abandono apadrinhou os homens oferecendo apenas tristeza em seu futuro escuro.

Gorfã, o pai dos monstros, por outro lado, preencheu seu coração de uma obsessão indomável pelas terras agora sem herdeiro. Seu interesse pelos vulcões moveu esforços e perseguições violentas para conquistar a casa de seu irmão mais odiado. No entanto, uma coisa resistia ao furor sulista, uma tribo, povoada por humanos revestidos do magma de Varlanóiã, o último vulcão ativo da terra. Nem mesmo a horda mais macabra obteve o êxito desejado e o ódio de Gorfã envergou-se para um destino sanguinário.

Varlanóiã erguia sua aparência negra junto às cordilheiras de Coimbra, banhando de larva sua redondeza e rugindo grunhidos dilaceradores de ar. Na falha situada aos pés do vulcão, sobre a planície elevada, viviam as únicas criaturas capazes de aguentar tamanha desolação: Humanos. Estes faltavam-lhes sombras, eram selvagens e não se interessavam por sagrados símbolos descobertos no Norte. Mantiveram-se junto à sua natureza, a violência de um Guilianes, e devolviam com igual gravidade, o ódio de Gorfã.

Ataques investidos, resistência humana e a falha dos monstros: esta ordem de acontecimentos manteve-se por muito tempo, adicionando tons escarlates ao solo negro de Varlanóiã. Gorfã, fruto da luz e escuridão, fora o legítimo que escolheu as sombras, escolheu dar vida às aberrações, pois desde que testemunhou a natureza destruidora e selvagem dos humanos, desejou tal instinto em seus filhos. O sul de Garvânia, representava o limite da terra, o inverno e os dias curtos; Com seu aspecto espinhoso, planícies são escassas e montanhas pungentes  acrescem por quase todo território até o oceano gélido com seu horizonte nebuloso e infinito.

Enquanto as escuridões confrontavam-se, Tímus, Sara e Helena escolheram não intervir no conflito por temerem o contágio com a selvageria vigente, muito menos repreenderam os desejos de Gorfã ou procuraram seus reais motivos. Dos demais filhos legítimos de Garvânia veio apenas a liberdade de nomear a batalha:

A Guerra dos Horrendos.

O primeiro ataque à Varlanóiã havia se tornado um passado distante, o qual apenas a derrota permanecia inalterável. Guinchos de espadas, com ódios descendo junto aos golpes, e feridas cada vez maiores ecoavam pela fúnebre atmosfera do sul. Os humanos continuavam a resistir, com o brandir do último vulcão, às hordas abissais que penetravam nas sombras trazendo a ambição de um legítimo. Porém, o brandido tornara-se abatido, sonolento, como se estivesse caindo em adormecimento.

O temor estremeceu os humanos.

Farto com a derrota e de coração petrificado, Gorfã buscou do mais profundo manancial das montanhas negras a matriz para Suas novas hordas. Destes ele arrancou o brilho da alma, armou-os do mais ínfimo furor e avermelhou seus olhos. Das cordilheiras de Coimbra era capaz de testemunhar o bater dos tambores, o reluzir de chamas verdes e o brado dos monstros, reprimindo Varlanóiã ao sussurro. Revestidos de rancor, as legiões abissais investiram o único ataque necessário para sucumbir os humanos do sul, não levando misericórdia alguma consigo.

Os indignos foram derrotados.

No entanto, ao ponto cego de olhos sedentos de sangue, um vestígio salientou à ira: uma jovem humana de pés pálidos e vestes encardidas. Ela fugiu horizonte glacial adentro, mesmo com o peito atravessado por uma arma de Dolordrã, almejando a clemência dos deuses. Mas a única resposta que recebia era o eco de seu sofrimento. A dor lancinante percorria todo seu corpo potencializada pelo frio, perfurando como agulhas a carne, os nervos e ossos. Logo, o ferimento manifestou à manceba excrementos esverdeados do mais profundo sangue de Garvânia e um odor nauseante de enxofre. Para a desistência ela tentou entregar sua peleja, urrando súplicas pela morte, mas uma presença parecia puxá-la, impedindo-a de parar.

Quando a alma se dispôs abandonar aquela vida, trancando-se no abismo mais obscuro da consciência, surgiu do céu, através das nuvens negras, uma penumbra. Da fresta vazou uma luz amarelada, atingindo a humana em resplandecência jamais testemunhada por um filho de Guiliã. Contudo, ao invés de um calor reconfortante, veio a dor e a acidez, seguido do crepitar escaldante onde a arma encontrava-se. Não havia mais presença guiadora, nem o caminhar contra a vontade, apenas o cair oco sobre a neve e o contorcer de agonia.

Mesmo refém do sofrimento, ela questionou o por quê daquilo, o por quê da penúria, de ser a única que resistiu ao ódio de Gorfã.

Então veio o silêncio;
Depois uma voz;

- DEIXAI DE SER ESTRANHA À LUZ, CRIATURA DE GUILIÃ, O SANGUE DESTA TERRA AGORA CORRE EM SUAS VEIAS. QUE TORNE-SE LIMPA TUA VESTE E SEMBLANTE, E VOSSOS PÉS AQUEÇAM-SE, PORQUE GUARDO EM TI A CHANCE DE TUA RAÇA TRIUNFAR. DESCANCE POIS AGORA EM MEU CORPO, ARMORA.

E o cair inconsciente se fez, alvorecendo uma nova era para os humanos.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Os Solitários Habitantes do Universo

A missão Discovery chegara ao ponto em que seu total fracasso era claro a todos os tripulantes da nave EBERPE. Nos rostos dos sobreviventes ali presentes, os quais eram poucos, havia um misto de decepção e angústia, pois o segredo perseguido por aqueles viajantes mostrara uma face bruta e inconsequente.

A face da inexistência.

Conforme a grande nave penetrava a escuridão intangível do cosmo, o capitão Hope, chefe da expedição, rendeu-se a uma reflexão, que em primeiro instante veio em forma de pensamento, porém tornou-se num desabafo audível.

- Talvez não. - Ele respondeu a si mesmo - Talvez estejamos sozinhos em toda esta imensidão. Mesmo com toda nossa pequenez e insignificância, continuamos sendo agraciados em testemunhar as estrelas, os planetas e a vida. Logo nós que mal conseguimos cuidar de nossa própria casa. Como podemos ser os únicos privilegiados?

O silêncio foi a resposta.

- Mas hoje - Ele continua. - compreendo que esta pergunta possuí uma resposta óbvia: Nós somos parte desta imensidão, e não meros espectadores. Este TODO nos pertence assim como nós pertencemos a ele.

A tripulação se entreolhou, e tais olhares valeram como longas conversas. O silêncio pertinente permitiu ao capitão levantar e direcionar-se para a proa da nave, onde de lá imaginou poder sentir o vento acariciar-lhe o rosto e levar consigo sua frase final:

- Nós não somos um erro do universo.

domingo, 14 de setembro de 2014

Numa Sexta-feira

Nas molhadas ruas dessa sexta, o frio traz à tona incógnitas rotineiras. Penso estar em conflito com o ambiente que me cerca. Por algum motivo, os homens parecem mais românticos, as mulheres mais radiantes, as crianças mais protegidas, os idosos mais esperançosos e o sol, que em cisma de timidez viveu o hoje, mais conveniente. Um balanço de entusiasmo e nostalgia preenche a minha mente, porém não sei no que meus olhos refletem, acredito estarem tão confusos quanto eu.

Desisti de imediato fazer qualquer ligação lógica com as condições meteorológicas e o humor ambiental vigente: Uma mãe acaba de abrir mão de seu guarda-chuva para proteger o filho da tempestade - O amor em tempos frios. Perseguindo os meus caminhos, penso no que mais é necessário para viver um sonho e, mesmo com o dia que me rodeia sendo tão convidativo, admito que quero estar aqui e ao mesmo tempo não.

Ao sair do trem, me espantei com a insignificante diferença de temperatura entre o vagão e a rua. Isto me preocupa. Estou para chegar em casa mais cedo, poderei pôr em descanso o meu corpo. Quero pensar nas coisas boas que me esperam - Talvez seja este o entusiasmo e a casa, nostalgia.

Homem carrega uma flor, mulher bem consigo, uma criança com um guarda-chuva, idoso sorrir e um dia frio e chuvoso termina em brilho solar. Tudo parece bem, estou no caminho certo. Isso é o que meus olhos refletem.

sábado, 16 de agosto de 2014

A Jornada de Todos os Herois

Há na jornada de cada herói a “provação máxima”, aquele momento onde monstros e os mais dos terríveis males precisam ser enfrentados. É aquele instante em que as forças, antes inesgotáveis, agora são escassas. O horizonte passa a ser turvo, incerto, quase uma imagem abstrata de algo que um dia fora uma meta. É difícil prever um fim quando se encontra em tais condições, pois o herói está sozinho - Ele precisa estar sozinho. Seus coadjuvantes, ajudantes, mentores e todo resto tornam-se periféricos, pois esta peleja pertence exclusivamente a ele. É a forma que a vida, cruelmente, escancara que o fim disto é responsabilidade dele, seja o que for. E talvez por se mostrar tão cruel com as chances, estes momentos necessários da jornada sejam o motivo da morte de tantos ideais e objetivos.

O herói tenta fugir, tenta esconder a sua face, embrulhar-se até que desapareça. Mas para onde ele vai a provação o persegue, porque ela não é externa, ela faz parte dele. E quando consegue aceitar a necessidade de enfrentar o inevitável, sua maior certeza é a do fim, por mais que outrora ele tenha sido capaz de superar outros conflitos - Nenhum se compara a este. Então, a espada é desembainhada, as últimas forças são tomadas e o encontro ao que o acaso permitir é aceitado. Neste momento, não importa o que fora aprendido, ganhado ou conquistado, a única coisa que importa é este fardo terminar – por mais que o seu triunfo seja ansiado por tantos terceiros.

Um alívio com a sensação do iminente fim é sentido. No entanto, uma força incansável faísca dentro de seu ser, no mais profundo dele. É de natureza desconhecida, começa como uma imperceptível fagulha até preenchê-lo por completo. É um outro lado do herói o qual ele não conhecia até então. O que era antigo e velho, dar lugar ao renovo. Este lado parece não desejar o fim: Ele quer vencer, ele pode conquistar. Jogado, antes da grande batalha, numa dimensão diferente à atual, o herói espanta-se. Nesta realidade paralela, dois tons são suficientes: o branco e o negro; o sim e o não; o começo e o fim; a vida e a morte. Uma explosão cegante inicia-se, ele não é atingido por ela, somente testemunha algo bonito e único - Alguns costumam chamar isto de redenção. O clarão da explosão mata suas conclusões pessimistas, porém mata o seu antigo eu também, aquele descrente das próprias forças. Ele renasce logo em seguida e os tons modeladores desta realidade fundem-se e tornam-se um novo espectro, um artefato que pode ser grandioso, mas que agora cabe em suas mãos.

A recompensa por esta batalha vencida é o elixir, o artefato que o ensinará simplesmente a seguir em frente, a experiência para superar os seus demônios mais tenebrosos. Voltar a desconfiar de si nos momentos de provações faz parte deste arquétipo, mas basta encontrar aquela pequena faísca para desencadear o descontrolado entusiasmo que nos guiará a vitória de cada luta. Tudo isso porque somos grandes, somos fortes... Somos heróis.


N.T.: Este texto faz parte da volta deste inresponsável jovem escritor. I'M BACK!

sábado, 10 de maio de 2014

Dona Cláudia

Declaro, excepcionalmente hoje, que é permitido o uso de “tumates”, “brinjelas”, “liquificador” e “táubas” para homenagear minha mãe querida. Essas são, obviamente, piadas internas entre nós que a conhecemos, porém o que não é interno, somente, é a minha admiração por ela. Este veredito é parte de um todo, é claro, até porque há muito o que esta guerreira chamada Cláudia fez por mim: Entre corretivos fervorosos e arremessos de coisas no meu lombo foi pautada a minha educação, e não digo que não tenha havido sutilezas e amor nesse processo – O chamado amor à moda Christina.

“Se correr, vai ser pior”

Corri, corri e corri mais um pouco, até me cansar. Desiste, cara, entregue-se e deleite-se naquela apetitosa vara de goiaba para tomar vergonha. Ah, o que seria de mim sem ela (minha mãe e não a vara)? Nada - Tanto biologicamente quanto moralmente, se é que me entende. Há certas coisas encantadoras nessa mulher: Falar as verdades necessárias, gritar meu nome numerosas vezes por dia, sua comida e o dom sublime de prever as minhas mancadas.

Por fim, ainda não me ocorreu nada de impactante para dizer neste momento, talvez seja falta de coça ou de sofrimento – Não existe nenhum quando estou perto dela. Então, uma boa saída é cantar esta singela canção que fiz de todo coração pensando nela:

Moleque, pode vir pra cá
Tu fez a merda, agora vai apanhar
Escolhe vassoura ou sinta e pode começar a chorar
Quem mandou você me desrespeitar?

Oh minha mãe querida, tenha mais compaixão
A vida é difícil e o teu filho é um vacilão
Mas não se preocupe, tudo vai se resolver
Entre a coça do mundo e a sua, eu prefiro a de você

Agora canto esse refrão
Feito para a dama do meu coração
Bom saber que te amar nunca será uma desilusão
Você é a mulher que sempre me estenderá a mão

Hoje minha alma se enche de alegria
Dedico minhas palavras à dona de minha sina
Não há problemas em não ter ‘pobremas’ em dizer que te amo
Dona Cláudia Christina.