domingo, 18 de janeiro de 2015

Os Solitários Habitantes do Universo

A missão Discovery chegara ao ponto em que seu total fracasso era claro a todos os tripulantes da nave EBERPE. Nos rostos dos sobreviventes ali presentes, os quais eram poucos, havia um misto de decepção e angústia, pois o segredo perseguido por aqueles viajantes mostrara uma face bruta e inconsequente.

A face da inexistência.

Conforme a grande nave penetrava a escuridão intangível do cosmo, o capitão Hope, chefe da expedição, rendeu-se a uma reflexão, que em primeiro instante veio em forma de pensamento, porém tornou-se num desabafo audível.

- Talvez não. - Ele respondeu a si mesmo - Talvez estejamos sozinhos em toda esta imensidão. Mesmo com toda nossa pequenez e insignificância, continuamos sendo agraciados em testemunhar as estrelas, os planetas e a vida. Logo nós que mal conseguimos cuidar de nossa própria casa. Como podemos ser os únicos privilegiados?

O silêncio foi a resposta.

- Mas hoje - Ele continua. - compreendo que esta pergunta possuí uma resposta óbvia: Nós somos parte desta imensidão, e não meros espectadores. Este TODO nos pertence assim como nós pertencemos a ele.

A tripulação se entreolhou, e tais olhares valeram como longas conversas. O silêncio pertinente permitiu ao capitão levantar e direcionar-se para a proa da nave, onde de lá imaginou poder sentir o vento acariciar-lhe o rosto e levar consigo sua frase final:

- Nós não somos um erro do universo.

domingo, 14 de setembro de 2014

Numa Sexta-feira

Nas molhadas ruas dessa sexta, o frio traz à tona incógnitas rotineiras. Penso estar em conflito com o ambiente que me cerca. Por algum motivo, os homens parecem mais românticos, as mulheres mais radiantes, as crianças mais protegidas, os idosos mais esperançosos e o sol, que em cisma de timidez viveu o hoje, mais conveniente. Um balanço de entusiasmo e nostalgia preenche a minha mente, porém não sei no que meus olhos refletem, acredito estarem tão confusos quanto eu.

Desisti de imediato fazer qualquer ligação lógica com as condições meteorológicas e o humor ambiental vigente: Uma mãe acaba de abrir mão de seu guarda-chuva para proteger o filho da tempestade - O amor em tempos frios. Perseguindo os meus caminhos, penso no que mais é necessário para viver um sonho e, mesmo com o dia que me rodeia sendo tão convidativo, admito que quero estar aqui e ao mesmo tempo não.

Ao sair do trem, me espantei com a insignificante diferença de temperatura entre o vagão e a rua. Isto me preocupa. Estou para chegar em casa mais cedo, poderei pôr em descanso o meu corpo. Quero pensar nas coisas boas que me esperam - Talvez seja este o entusiasmo e a casa, nostalgia.

Homem carrega uma flor, mulher bem consigo, uma criança com um guarda-chuva, idoso sorrir e um dia frio e chuvoso termina em brilho solar. Tudo parece bem, estou no caminho certo. Isso é o que meus olhos refletem.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Dama das Dores

Ontem me foi permitido sonhar
Com uma bela dama de hipnotizante olhar.
Em suas mãos, ela portava algo de difícil compreensão
Não lembro se uma arma ou meu próprio coração

Disse para não temer o fim do perfeito
Senti uma dor eletrizante no peito
Ela jogou fora o que segurava após um beijo
Num cruel e descompromissado desfeito

Suas mãos, agora sujas, estenderam-se a mim
Do paraíso no qual estava, ela me mostraria o fim
Belezas também morrem, ela disse
Poderia restaurar o que fora descartado, se ela não me impedisse
Com não's e uma realidade crua
Encontrei minha companheira amargura.
Excomungado do sonho,
O que sobrou foram lembranças,
de um amor agora desmembrado da esperança.

Foi bom estar perdido na perfeição
Comparado à esta atual desolação.
De que serve o adeus,
se ela é ignorante ao que digo?
Do oxigênio que usa,
ela não tá afim de dividir comigo.

sábado, 16 de agosto de 2014

A Jornada de Todos os Herois

Há na jornada de cada herói a “provação máxima”, aquele momento onde monstros e os mais dos terríveis males precisam ser enfrentados. É aquele instante em que as forças, antes inesgotáveis, agora são escassas. O horizonte passa a ser turvo, incerto, quase uma imagem abstrata de algo que um dia fora uma meta. É difícil prever um fim quando se encontra em tais condições, pois o herói está sozinho - Ele precisa estar sozinho. Seus coadjuvantes, ajudantes, mentores e todo resto tornam-se periféricos, pois esta peleja pertence exclusivamente a ele. É a forma que a vida, cruelmente, escancara que o fim disto é responsabilidade dele, seja o que for. E talvez por se mostrar tão cruel com as chances, estes momentos necessários da jornada sejam o motivo da morte de tantos ideais e objetivos.

O herói tenta fugir, tenta esconder a sua face, embrulhar-se até que desapareça. Mas para onde ele vai a provação o persegue, porque ela não é externa, ela faz parte dele. E quando consegue aceitar a necessidade de enfrentar o inevitável, sua maior certeza é a do fim, por mais que outrora ele tenha sido capaz de superar outros conflitos - Nenhum se compara a este. Então, a espada é desembainhada, as últimas forças são tomadas e o encontro ao que o acaso permitir é aceitado. Neste momento, não importa o que fora aprendido, ganhado ou conquistado, a única coisa que importa é este fardo terminar – por mais que o seu triunfo seja ansiado por tantos terceiros.

Um alívio com a sensação do iminente fim é sentido. No entanto, uma força incansável faísca dentro de seu ser, no mais profundo dele. É de natureza desconhecida, começa como uma imperceptível fagulha até preenchê-lo por completo. É um outro lado do herói o qual ele não conhecia até então. O que era antigo e velho, dar lugar ao renovo. Este lado parece não desejar o fim: Ele quer vencer, ele pode conquistar. Jogado, antes da grande batalha, numa dimensão diferente à atual, o herói espanta-se. Nesta realidade paralela, dois tons são suficientes: o branco e o negro; o sim e o não; o começo e o fim; a vida e a morte. Uma explosão cegante inicia-se, ele não é atingido por ela, somente testemunha algo bonito e único - Alguns costumam chamar isto de redenção. O clarão da explosão mata suas conclusões pessimistas, porém mata o seu antigo eu também, aquele descrente das próprias forças. Ele renasce logo em seguida e os tons modeladores desta realidade fundem-se e tornam-se um novo espectro, um artefato que pode ser grandioso, mas que agora cabe em suas mãos.

A recompensa por esta batalha vencida é o elixir, o artefato que o ensinará simplesmente a seguir em frente, a experiência para superar os seus demônios mais tenebrosos. Voltar a desconfiar de si nos momentos de provações faz parte deste arquétipo, mas basta encontrar aquela pequena faísca para desencadear o descontrolado entusiasmo que nos guiará a vitória de cada luta. Tudo isso porque somos grandes, somos fortes... Somos heróis.


N.T.: Este texto faz parte da volta deste inresponsável jovem escritor. I'M BACK!

sábado, 10 de maio de 2014

Dona Cláudia

Declaro, excepcionalmente hoje, que é permitido o uso de “tumates”, “brinjelas”, “liquificador” e “táubas” para homenagear minha mãe querida. Essas são, obviamente, piadas internas entre nós que a conhecemos, porém o que não é interno, somente, é a minha admiração por ela. Este veredito é parte de um todo, é claro, até porque há muito o que esta guerreira chamada Cláudia fez por mim: Entre corretivos fervorosos e arremessos de coisas no meu lombo foi pautada a minha educação, e não digo que não tenha havido sutilezas e amor nesse processo – O chamado amor à moda Christina.

“Se correr, vai ser pior”

Corri, corri e corri mais um pouco, até me cansar. Desiste, cara, entregue-se e deleite-se naquela apetitosa vara de goiaba para tomar vergonha. Ah, o que seria de mim sem ela (minha mãe e não a vara)? Nada - Tanto biologicamente quanto moralmente, se é que me entende. Há certas coisas encantadoras nessa mulher: Falar as verdades necessárias, gritar meu nome numerosas vezes por dia, sua comida e o dom sublime de prever as minhas mancadas.

Por fim, ainda não me ocorreu nada de impactante para dizer neste momento, talvez seja falta de coça ou de sofrimento – Não existe nenhum quando estou perto dela. Então, uma boa saída é cantar esta singela canção que fiz de todo coração pensando nela:

Moleque, pode vir pra cá
Tu fez a merda, agora vai apanhar
Escolhe vassoura ou sinta e pode começar a chorar
Quem mandou você me desrespeitar?

Oh minha mãe querida, tenha mais compaixão
A vida é difícil e o teu filho é um vacilão
Mas não se preocupe, tudo vai se resolver
Entre a coça do mundo e a sua, eu prefiro a de você

Agora canto esse refrão
Feito para a dama do meu coração
Bom saber que te amar nunca será uma desilusão
Você é a mulher que sempre me estenderá a mão

Hoje minha alma se enche de alegria
Dedico minhas palavras à dona de minha sina
Não há problemas em não ter ‘pobremas’ em dizer que te amo
Dona Cláudia Christina.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Rima Pobre Para Baixos Investimentos em Infraestrutura

Estrada escura, perspectiva curta,
Chove pesado e minha mente se preocupa.
Temo se alguma hora chegará a curva,
A pior maneira de morrer é na madruga.
O farol está pifando, a minha vista é turva
Recorro a visão periférica, mas nada muda.
Desespero em meu consciente, a mente refuta
A luta de manter-se sobrevivente em meio a chuva
Mútua, de ambos os lados a esperança encurta
O limite fica próximo, lá está a curva
Que não é curta igual minha visão fajuta.

A gravidade puxa e depois chuta,
Calculo uma forma de me safar mas nada se resulta,
Hoje em dia é raro ter uma existência pura.
Por alguns instantes, a vida me surra.
Dura, pesada e inconsequente culpa
Automática ao ser que o óbvio nunca escuta,
Pois a solução é simples e nada difusa
Que para curva, basta virar o volante de forma crua.
Sem muitas cerimônias e assim achar a cura.
Atitude astuta é cobiçar a mais doce fruta
Que a vida lhe oferece após cada luta.

Mantenha a leal conduta
Senão a queda será bruta.
Na estrada da vida não há disputas,
Só uma elevada quantidade de curvas
Esta é a única verdade absoluta.
O mundo sempre tratará de forma rústica
Seus filhos alheios à refusa.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Tradutor Espontâneo: Fertilizador

Eu tenho um jardim onde jamais chove
Eu alimento as flores com lágrimas, elas não reclamam.
Posso ganhar uma lágrima, querida?
Pra isso sou capaz de recorrer à mentira
Uma reação é tudo o que eu gostaria
Para mantê-lo vivo.
Pois este jardim é o meu coração
E eu não consigo sobreviver sem algum...

Fertilizador
Eu fico com o esterco
Se é só isso que você me oferece.
Mas sem fertilizador, lágrimas e sol todo o jardim irá perecer
Seja o que for, eu só preciso de você
De qualquer coisa vinda de você.


Adaptação: Matheus F. Machado
Inspirado na música Fertilizer de James Fauntleroy (com part. Frank Ocean)