domingo, 2 de outubro de 2016

O Circundar de um Fogo

Heitor teria evitado a trilha de fumaça que se adensava à sua frente se não fosse esse tom de cinza que nos guia. Fazia tempo que ele se locomovia. Um tempo suficientemente longo para levar à cabeça de qualquer andarilho que pensar demais em planejamentos é, de forma não justa e indireta, planejar-se rumo ao imprevisível. E aconteceu assim com o bem instruído Heitor: o vislumbre de seus pés tomando o caminho da fumaça, pelo simples fato de ter se interessado pela personalidade e aparência que ela ostentava. A improbabilidade incitada o abraçava sem asfixiar e o levava com o mesmo zelo de uma mãe que auxilia os primeiros passos do filho. A rota, no entanto, tinha pouca coisa a ver com simbolismos poéticos e subjetividades, pois o seu cume era o fogo - o mais literal e cruel dos desfechos.

Quando o foco se revelou, Heitor estremeceu ao sentir seu coração embargar. Por um momento ele checou a respiração, porque só agora se preocupara com uma intoxicação. Mas os pulmões iam bem. Por fora, seu corpo estava infestado por bilhões de partículas negras, as quais foram afugentadas aos tapas - um esforço inútil, porém. Então ele se ateve em digerir toda aquela quantidade de informação, espiando por cima dos ombros na desconfiança de se descobrir dentro de um sonho. As chamas produziam crepitações que mais pareciam retumbos, a julgar pelo tamanho que apresentavam, tão altas e ferozes quanto um incêndio florestal deveria fazer. Troncos gemiam ao redor, ruídos penosos que assustaram o rapaz num primeiro instante, mas que depois tornaram-se imperceptíveis. Era um ambiente tomado por danos difíceis de serem freados, e Heitor soube disso desde o instante em que chegara. Ele olhou para o solo de relvas enegrecidas e rasgadas pelo fogo, e, desprovido de ensaios, rumou para os confins da desolação, com os olhos semi-cerrados por causa do calor que não o consumia. E desvanecendo-se para dentro daquele cenário, ele gentilmente acolheu a boa noite como um obediente sábio.

Mais adiante, no interior da conflagração, não fora possível distinguir as dicotomias que formam o mundo e, sim, apenas testemunhar os mistérios que lá povoam. Dentre os diversos, um se sobressaiu. Ele originava-se das copas e despencava para o chão: folhas e mais folhas, em brasa, formando uma extravagante chuva que bailava com as lambidas do fogo, e desfazia-se antes de completar seu trajeto. Um fenômeno simplesmente lindo para as retinas, o que neste caso se limitavam as pertencentes ao Heitor, que tinha mudado seu semblante para uma expressão que cambaleava entre o prazer e a estupefação. De repente, as folhagens casaram-se com o ritmo oriundo dos gemidos das árvores consumidas, numa poligamia intensa e exótica, compondo um espetáculo que jamais poderá ser repetido senão pela natureza. Houve uma harmonia orgânica invadindo o lugar e Heitor a ouviu com todo o seu coração. Isso tudo poderia durar uma vida inteira ou apenas um segundo que não iria fazer qualquer diferença para ele, pois dentro de si um clamor pairava: "O momento... o momento...".

O formidável fenômeno teve seu fim quando a chuva finalmente conseguiu tocar o solo ardente. Um vento suave soprou as folhas chamuscadas e as amontoou, como se estivesse varrendo. Heitor principiou algumas lágrimas que iam sendo evaporadas antes de alcançar as bochechas. Elas logo deixaram de ser produzidas quando um estrondo, proveniente da folhagem amontoada, o sobressaltou e arrepiou-lhe o cabelo crespo. A harmonia sucumbiu sob a hegemonia dos gemidos; e as chamas, sabe lá Deus como, ficaram ainda maiores. O rapaz espionou a vanguarda por entre as brechas da fumaça densa e sentiu sua respiração parar - não por causa do incêndio; não por causa de nenhum motivo que ele fosse capaz de conjecturar.

Ele avistara um corpo, mais precisamente um corpo de uma mulher, repousando sobre a relva consumida.

Ocorreu um momento de hesitação, custeado pelo pânico, que deixou Heitor imóvel e com seu consciente e subconsciente preso àquela imagem. Por outro lado, a indiferença da queimada quanto ao peso de tal cena, a fez, sem cerimônias, navalhar um tronco. Se não fosse o modo com o qual caíra, o robusto cilindro teria esmagado o corpo e confeccionado um patê de sangue, carne e ossos. Heitor manifestou sua preocupação no instante em que conseguiu despir-se da imobilidade e disparar em direção ao ser desamparado, enquanto as partículas negras desenhavam um rastro às suas costas. Ao chegar perto da moça, ele constatou que ela estava viva, fato que o aliviou e o espantou em igual dose. Ele agachou-se e a tomou pelos braços, como em uma pintura romancista; por um instante pensou que poderia protegê-la, que poderia salvá-la. Porém, quando no rosto daquele ser Heitor pousou os olhos, todo esse controle se extinguiu. Não lhe veio forças, apenas fogo e mais fogo... até que consumiu seu coração e cercou-os.

Um grito ensurdecedor irrompeu na floresta, quebrando as labaredas ao meio. Tinha sido Heitor que o produzira como consequência de uma dor insuportável. Ele gritava continuamente, como se a qualquer momento fosse cuspir suas tripas. As chamas encolhiam conforme o grito persistia. O rapaz, ao perceber que o seu bramido surtia efeito sobre elas, escolheu manter o urro estridente até que dissipassem-nas por completo. O esforço o enfraquecia e o vertiginava, mas mesmo assim, ele persistia urrando, como um terremoto vindo do oriente. As vistas, gradualmente, foram escurecendo por conta de tamanha sobrecarga ininterrupta, ao passo que as cordas vocais já sangravam. Testemunhando tal sacrifício suicida, a moça levou sua mão ao rosto dele, num toque macio em oposição àquela agressividade bondosa; e, de maneira repentina, o grito foi cessado. Heitor se indignou com o que ela acabara de fazer, e por isso ficou a encarando com um olhar impotente e encharcado de lágrimas. A moça não disse palavra alguma, pelo contrário, apenas devolveu o olhar; e pôs-se a acariciá-lo, como se estivesse limpando toda aquela sujeira e atenuando as veias dilatadas. Nos lábios, um sorriso tímido e triste, mas também detentor de uma satisfação, germinou. Heitor abanou a cabeça, arremessando as lágrimas ao ar. Mas ela continuou sorrindo. Então, após tanto fixar suas retinas naquela beleza simples, rara e verdadeira, o rapaz notou algo no âmago daquelas esferas castanhas, algo de cor quente e feroz que se misturava à formosura.

Um incêndio.

- Me perdoa - foi o que se ouviu e mais nada, senão a dor de uma floresta há muito atormentada.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Zero seis do zero sete


Hoje é um dia especial - pelos menos é assim que se denomina o dia do nosso aniversário, não é mesmo? Porém, acima de tudo, é um dia, mais um, e eu estou aqui, vivo. E é interessante pensar o quanto estamos expostos a qualquer sorte de experiência, boa ou ruim, exatamente por causa desta condição, por causa deste verbo: viver. Sou grato por isso, sou grato por poder envelhecer. Mais uma translação foi completada e uma nova primavera tá aí, fazendo com que todos os aspectos do último inverno virem lembranças, até que se percam na implacável neblina do tempo. Mas a real é que eu não quero esquecer. Eu quero levar comigo alguma coisa que me faça lembrar, nem que seja só aquele galho ali, sem nenhuma folha. Eu quero entrar na nova estação tendo equilíbrio entre as distinções que formam o todo, carregando tudo em igual medida, para que eu lembre de onde vim, para onde vou, por quem eu vou e para quê eu vou.

Portanto, neste dia especial agradeço a Deus por mais um ano de vida, muito obrigado mesmo. Agradeço a minha família, minha primeira e mais importante base. Agradeço aos meus amigos pelo carinho, amor e, sobretudo, paciência. Eu sou grato, eternamente. Para este aniversário eu peço além de saúde, felicidade, paz... eu peço perdão. O erro é inerente a mim e a ideia de ter ferido um coração é dolorosa demais para que eu continue sem pedir isso hoje e todos os dias, o perdão de Deus e o seu, o de todos vocês. Perdoem-me.

Quando criança, eu sempre torcia para que nada de errado ocorresse no mundo no dia do meu aniversário, que ninguém morresse, ninguém brigasse, ninguém chorasse, enfim, que tudo parecesse perfeito aos meus olhos - coisa de criança. Os pesos dos anos foram destroçando minha inocência, mas mesmo assim eu vou lhe desejar este tipo de dia para você, exatamente este tipo de dia absurdamente ingênuo e apetitoso, pois eu amo vocês e isso nenhum dia "chato" irá mudar.

É, 23 parece um ótimo número pra mim.

No momento, é o melhor número que eu poderia ter.

Obrigado e feliz aniversário pra mim.

domingo, 26 de junho de 2016

A Minha Parte Que é Didática

Sabe aquela hora que você precisa despir-se de toda vergonha pra poder passar na matéria da faculdade? Pois bem, esse vídeo é a materialização de tal aterrorizante ato, o qual alguns costumam nomear "cara de pau" mesmo. Então, minhas amigas e eu entramos com a cara de pau, com a cara de carne e a coragem. Tudo pelo um dez na Ana Paula. Era preciso falar em inglês somente? Falamos. Era preciso fazer esforço máximo para não parecer político ao ler as falas enquanto filmávamos? Fizemos. Era preciso um pouco de maluquice para fazer o vídeo parecer engraçado e didático sem perder o fio da meada? Bem, isso nós tentamos e esparamos que tenha sido este o resultado final. Phrasal Verbs é o foco, mas você pode se distrair um pouco com algumas doideras. Não nos leve a mal, estávamos nervosos, ensinando inglês e se divertindo, TUDO AO MESMO TEMPO.

(Legenda disponível)


quinta-feira, 2 de junho de 2016

Mr. Robot - My Brain Has Been Hacked

Esses são alguns comentários sobre a primeira temporada de Mr. Robot.



Elliot Alderson é um jovem programador que, em decorrência de alguns traumas do passado, sofre de uma desordem que o torna anti-social. Durante o dia, ele leva uma vida medíocre como técnico de segurança virtual na AllSafe Cybersecurity e, durante a noite, ele é um hacker vigilante. Elliot se vê numa encruzilhada quando o líder de um misterioso grupo de hackers, Mr. Robot, o recruta para destruir a firma que ele é pago para proteger, a Evil Corp. Motivado pelas suas crenças pessoais, ele luta para resistir à chance de destruir os CEOs da grande corporação que ele acredita estar controlando - e destruindo - o mundo.

Criada por Sam Esmail e com elenco de Rami Malek, Christian Slater, Martin Wallström, Carly Chaikin e Portia Doubleday. Exibição nos EUA por conta da USA Network e no Brasil, Canal Space.

Mr. Robot certamente foi uma das mais interessantes, e instigantes, surpresas apresentadas na TV em 2015. Portada de uma identidade cinematográfica que traz personalidade ao programa, é possível sentir-se dominado pela atmosfera da série logo em seus primeiros minutos, o que é potencializado pela montagem que acompanha a paranóia e ansiedade de seu protagonista. Outro ponto que reforça tal imediatismo na imersão é a qualidade vinda do roteiro, que constrói personagens tridimensionais e uma trama que não se preocupa em ser traiçoeira com o espectador, em outras palavras: Não tem um pingo de arrependimento de suas rasteiras aplicadas em nós.

Elliot é um jovem estranho. Essa estranheza de longe é algo inédito na TV, tendo em vista que é comum atribuir a uma pessoa de seu tipo - dependente químico, introspectivo e impenetrável - o caráter de genialidade. De fato, Elliot é um rapaz genial, sua inteligência é notável, sobretudo quando se trata de sistemas de informação - engenharia de sistemas, melhor dizendo. E isso é importantíssimo para a história. Ele faz uso de suas habilidades para praticar o vigilantismo cibernético e denunciar criminosos como pedófilos ou traficantes, o que é um ponto que entra em conflito com o seu desinteresse em relacionar-se com as pessoas - e nesse caso, o problema que Elliot tem com contatos e abraços se mostra como uma forte representação desse distanciamento intencional -, porque mesmo sendo assim, ele ainda acredita que de alguma forma pode salvar o mundo e proteger as pessoas.

No entanto, é uma proteção ao seu modo. E esse modo o qual encontrou para proteger e se aproximar das pessoas não é lícito, pois ele as hackeia para conhecê-las, construindo um acervo de dados pertencente a cada pessoa. Ninguém escapa desse processo, nem mesmo os amigos mais próximos, os quais são poucos. É uma aproximação totalmente artificial e assimétrica, uma invasão pessoal onde segredos são transparecidos e a vulnerabilidade é aumentada. De sua boca sai um discurso de ódio em relação ao rumo que a sociedade vem tomando, porém é nítido perceber que em sua concepção, nós, pessoas comuns, somos vítimas. As vítimas de uma ínfima porcentagem de indivíduos que controlam todo o mundo, exclusivamente de acordo com os seus interesses econômicos.

A série tem uma narração em Voice-over que quebra a quarta parede. Nela, Elliot tenta desenvolver uma certa amizade e cumplicidade com o espectador, mesmo considerando, desde o começo, a artificialidade da mesma: "Talvez eu devesse te dar um nome. Mas pra quê? Você só existe na minha cabeça. Não podemos esquecer disso. Merda, eu realmente estou falando com uma pessoa imaginária" (Mr. Robot S01E01). Não há um tratamento desdenhoso por parte de Elliot para com o seu amigo imaginário, muito pelo contrário. Contudo, a tentativa de edificar a cumplicidade é constantemente embaçada pela desconfiança. Elliot sofre de paranóia e sua mente é perturbada pelos fantasmas do passado, por projeções de seguidores que nem ao menos sabemos se existem realmente. Esse mar de confusões psicológicas faz com que ele desconfie de todos, inclusive de nós, observadores. É uma relação instável a todo momento.

De volta ao plot central, Elliot conhece Mr. Robot - interpretado de maneira surpreendente por Christian Slater -, uma figura que, ao testemunhar o potencial do jovem engenheiro, lhe oferecesse a chance de fazer parte de uma equipe de hackers, a FSociety, e protagonizar uma arrebatadora "Revolução Global". O corpo de membros do time, diga-se de passagem, é composto por figuras caricatas: um gordo, um negro, uma menina com atitude, um velho, um esquisito/maluco e uma árabe - sendo esta a figura que mais me pegou de surpresa, só foi uma pena vê-la tão pouco desenvolvida, e envolvida, dentro da trama, pelo menos nesta primeira temporada.

A tal revolução prometida diz respeito a Evil Corp, corporação ficcional que é detentora majoritária de diversos mercados no mundo, desde os de bens de consumo até os de crédito e finanças, acentuando, aliás, algo muito recorrente em narrativas de Cyberpunk: a dominação mundial por parte de gigantescos conglomerados. O objetivo da FSociety é derrubar a corporação e instaurar um reboliço, que segundo eles, libertará o mundo, as pessoas comuns, das amarras impostas a nós sem qualquer consentimento. Para isso, Elliot é a peça fundamental da conspiração, já que ele é pago para proteger a corporação através de seu emprego regular. A propósito, a Evil Corp foi a responsável pela morte precoce de seu pai, Edward Alderson, morte esta ocorrida devido a negligência e ganância vinda por parte de seus administradores.

Em termos de cinematografia, Mr. Robot apresenta uma identidade visual que se comporta de maneira "rebelde" durante toda a temporada. Chega a ser engraçado observar como a rebeldia exercida gerou inúmeros tópicos de discussões na internet, com alguns defendendo e outros condenando ou lamentando a atitude dos responsáveis. Pois bem, expliquemos essa rebeldia: Há em Mr. Robot frequentes "quebras" de composição e incessantes desobediências à regra dos 180º. Sendo mais claro, os planos, e as cenas como um todo, são compostos de forma incomum, onde os personagens, quando em uma conversa, por exemplo, são postos com espaços abusivamente sufocantes à frente, não havendo a rotineira rima visual e espacial em que cada personagem ocupa uma extremidade do campo, dando assim, a sensação de proximidade e face a face. Também há na composição o arranjo dos personagens em diminutos pontos de intersecção das regras dos terços, conferindo excessivo espaço vazio acima da cabeça e em outras partes do quadro. Visualmente, essas decisões acabam expressando a perturbação de seus personagens e a vulnerabilidade deles, pois parecem ser afogados pelo ambiente que os cercam. Tetos, por exemplo, são constantemente mostrados e a profundidade de campo limitada ajuda a exercer tal impressão. Mas vale salientar que em certos momentos a "desordem" visual empregada distrai a atenção, exatamente por ser difícil de ignorar o seu uso. É como se ela gritasse: "Ei, estou aqui! Olhe!", o que culmina em uma distração desnecessária. Mesmo assim, tem uma cena em especial, com Elliot e sua psiquiatra, Krista, em que é feita uma construção visual esplendorosa, onde há uma gradativa inversão da figura de Elliot na cena, de dominado para dominador. É de descassetar a mente.

Estruturalmente, além do já mencionado Voice Over, a série faz uso de meios como flashbacks, alucinações e situações hipotéticas. Não para ser redundante e preguiçosa, mas para esmiuçar a vida e a mente de seu protagonista. A propósito, o foco da narrativa é este. O plano da FSociety - grupo que muito nos lembra os Anonymous - é relevante, sim; inteligente e incrível também, pois as missões para seu avanço fazem parecer as quests de um Video Game - daqueles que possuem infiltrações na surdina. Porém, o enredo claramente se enverga para falar sobre um jovem solitário, dependente químico, negligente em relações e traumatizado pelo passado, principalmente a perda de seu pai e as péssimas lembranças com sua desprezível mãe. Elliot é uma personagem trágica, sua fisionomia transparece a perturbação psicológica e a angústia de estar preso em farsas. E por causa do cuidadoso trabalho de escrita, o que acabamos por testemunhar é um avalanche de reviravoltas que aumenta o nosso interesse a cada instante, fazendo-nos relevar alguns momentos medianos. As revelações são extraordinárias e explicitam a inteligência da história.

No que diz respeito as atuações, é preciso destacar o trabalho de Christian Slater como Mr. Robot e de Martin Wallström como Tyrell Wellick. Ambos representam pontos de destaque na temporada, os quais sustentam uma química interessantíssima com o protagonista. Mas é o magnetismo de Rami Malek que mais impressiona. Em uma entrega total a natureza de sua personagem, Rami constrói um Elliot paranóico e vulnerável a emoções intensas, apesar de sua frieza característica. A timidez e o olhar esbugalhado e vidrado são resultados adquiridos durante a decadência emocional e psíquica. A persistência no uso do casaco preto, por exemplo, pode ser compreendida como um dos traços de seu distanciamento intencional. Com certeza, este é o ponto alto de sua carreira, o que é muito justo.

Assistir Mr. Robot foi uma experiência incrível. É uma série que ainda nos reserva inúmeras surpresas e respostas para as pontas deixadas soltas ao final da temporada. Uma série autêntica e instigante, uma lição de Storytelling com certeza. A inteligência do roteiro e a tridimensionalidade de seu desenvolvimento, o que pode flertar com discursos de cunho social e político, tornam a série uma janela para o nosso atual rumo como sociedade. Elliot estaria decepcionado com a gente. Portanto, não é apenas "maneiro" assistir Mr. Robot. 

É importante.

Assistam.

sábado, 28 de maio de 2016

O Paradoxo

Ela e ele estavam no fim corredor. Bem, talvez não fosse o fim exatamente, levando em conta a figura de uma escada sob uma débil iluminação, situada logo além deles. Aquilo muito bem poderia ser o começo do corredor, aquilo muito bem poderia ser eles, dentro daquela escuridão conveniente e longe dos olhares dos quais fugiam. Na prática, essa ideia não havia passado na cabeça dele, ela, porém, achou que sim, então ele passou a achar que sim, ele quis que sim, quis que ocorresse. Mesmo contra a vontade unânime de seus corações, eles escolheram o fim ao invés do começo, e portanto pararam em uma porta. Por simplesmente ser quase impossível fazer o que ansiavam, escolheram a luz.

O percurso até lá, em si, nascera encharcado de cautela e preocupações, já que ele tinha diversos significados, especialmente os ligados ao desejo de fuga. Muito mal sabiam eles que a liberdade jamais brilharia de forma habitual, e com o preço habitual. Estavam aprisionados e para sempre seria assim. Foi por isso que, como em todas as outras vezes, pararam naquela porta e não foram além, pois além havia a escada, a escuridão e a excitação, e as correntes não permitiam tal banquete. Entretanto, apesar de todo o cuidado, os olhares julgadores ainda corriam eufóricos ao derredor, invisíveis e astutos. Ela tentava pegá-los, pelo simples prazer de ser capaz de percebê-los e prová-los errados; Ele, por outro lado, os ignorava, não porque era a melhor opção, mas porque era a menos dolorosa. 

Sim, ela e ele estavam no fim do corredor. Sim, ela e ele pararam onde poderiam ser vistos, pararam em uma porta. Pela sorte de olhos não serem capazes de ouvir, eles agora tinham privacidade, por menor que fosse, para conversarem sobre os infinitos obstáculos que os impedem de obter um contato mais genuíno. Obstáculos, esses, que são capazes de se materializar em qualquer coisa, até mesmo em uma porta. Sim, eu disse que ela e ele haviam parado em uma porta, não disse? Porém, mais parecia que tinha sido a porta que escolhera parar ali, justamente entre os dois. A dura verdade é que aquela porta sempre esteve lá, muito antes deles desconfiarem da existência um do outro, quiçá antes mesmo de ambos terem nascido. Mas se torna divertido, por vezes, pensarmos nesse tipo de simbolismo: No meio do caminho tinha uma porta, tinha uma porta no meio do caminho - e antes fosse só uma pedra. Eles não percebiam o que aquela porta representava no momento, provavelmente distraídos pela insistente procura por respostas que explicassem toda a situação, um esforço quase inútil. Dúvidas mais nasciam do que morriam e, durante esse ciclo, sem o querer das partes envolvidas, a porta ia se expandindo entre eles. Dentro da abertura existia uma força física que empurrava de volta ao lugar adequado aquele que tentasse ignorar as regras, desconsiderar as dificuldades. A força tinha diferentes faces, a face de uma proibição, uma culpa, uma vida antecedente; a face de um medo, um princípio, um eclipse. Para uma pessoa comum, era apenas uma porta com uma sala vazia, para eles, não. Era um tudo vestido de nada, assim como um começo vestido de fim.

Tão perto e tão longe, eles conversaram, cumprindo o rotineiro parto de dúvidas. Mas a angústia valia a pena, porque apreciavam a companhia um do outro. Trata-se de uma história triste, muito triste, mas também valia a pena, porque apreciavam o olhar e o sorriso um do outro. Os pensamentos são sempre mais rápidos que as palavras. Eles sempre atropelam tudo, inclusive as diversas faces de uma força inibidora. Embora exista o partir dos corações, tais momentos servem para tentar remendá-los, enquanto continuam a quebrarem-se, selando um completo paradoxo. 

O tempo voou na velocidade dos pensamentos e, quando ela e ele deram por si, já era tempo de ir. A porta cumpriu sua função com sucesso. Ainda restava muito o que dizer e fazer. Mas para quê, afinal? Eles bem conheciam a gravidade de suas ações concretas e hipotéticas. Além do mais, algumas poucas coisas merecem o campo do subentendido para que haja certa magia. Logo, conforme foram se afastando da porta, a mesma retornava ao seu aspecto anterior, o de simplesmente ser uma fenda em uma parede, nada mais. Os olhares aquietaram-se e retomaram o humor padrão. A luz que se ausentara da escada por todo aquele intervalo de tempo, voltou a resplandecer os degraus. Parecia que não, mas tudo estava recobrando a normalidade. Eles chegaram ali juntos. Eles foram embora separados. Não podiam bobear, com certeza a essência do obstáculo deixou aquela porta para poder possuir qualquer outra coisa.

A questão é quanto mais ela e ele se afastam, mais eles se atraem. Essa, aliás, é a parte mais triste deles. A parte da divisão do coração com a contradição dos atos. Quem sabe um dia alguém explique isso... Explique ela e ele.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Mãe É Tudo Assim

Ainda no mês de comemoração do Dia das Mães, posto aqui uma homenagem, em forma de poema, que foi encomendada pela minha abiguinha Su para ser recitada por crianças as quais, bem provavelmente, são amadas o suficiente por suas mães, esses seres de bondade inefável, para ouvirem isso e ainda manifestarem uma satisfação na face. Okay, parei com a auto-depreciação. Mas ó, se vale comentar, teve carinho no processo. Garanto. 


Mãe é tudo assim

Plunct Plact Bum!
- Menino, o que houve desta vez?
Mamãe é sempre assim, surge de lugar algum
Perguntando o que o filho fez.

Porque mãe é presença.
Mãe é atenção.
Mãe faz diferença
Ainda mais na repreensão:
- Não faça isso! Saia daí agora!
Essas palavras ressoam
Enquanto minha alma revigora.

Dos dois sóis que me receberam quando nasci,
Mãe é o mais radiante deles.
A estrela de braços macios onde dormi.
E que dentre seus vários deveres,
Faz do amor incondicional seu título de mártir.

- Meu filho vai ter nome de santo.
Mas santo arteiro.
Já olhou pra esse rostinho?
Isso vai fazer bagunça o dia inteiro!

Plunct Plact Bum!
Não tem como ir pra lugar nenhum.
Eu não quero e nem dá,
Porque mãe e longe nunca deveriam combinar.

Como arroz e feijão, quero ter-te pertinho pra sempre
Com o seu carinho aquecendo meu coração
E o seu olhar por minha frente
Protegendo-me de qualquer vilão.

Tu és minha heroína
Dotada de sentidos extraordinários.
Pode juntar todos os Vingadores
E ninguém ali ainda será páreo.

A minha mãe é a razão do meu viver
Presente perfeito de Deus pra se ter.
Mãe, palavra curta de dizer
Mas é igual céu, faz o infinito nela caber.

Mãe, como eu te amo
Eu não sei viver sem ti
Por isso alegre declamo:
Obrigado por existir.

***

Obrigado, Suelem, por me proporcionar essas chances de poder fazer meus textos saírem de outras bocas além da minha. Receba os meus mais sinceros agredicementos.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Suburbiando

A sirene mais uma vez soou.
Embarco no ardor do trem que leva-me de volta
Ao estilo limo com rodas de ferro,
Sob um estridente elo que amontoa esta gaiola.
O rush do fim da tarde nos alcançou.

Por aqui, muitos cruzarão até cidades.
Pelo caminho, um degradê distinguirá as realidades
Com muros pichados, favelas, pobreza,
Becos, vielas e sorrisos em meio a dureza.

Os abastados nos tratam súditos
Por sermos limitados a bens implícitos
Retidos em oculto ramal e distante;
Vindos de um nascedouro caótico, brabo e coadjuvante.

Somos muitos, vivemos nos arredores
De uma cidade com duvidosos intuitos,
Mas a nossa esperança nunca dorme - Ela madruga,
Pois seu trajeto dura horas - Dura vida
De despertar pré-matinal que não mais a intimida.

És tu a bela flor de abril, cuja tua excelência ruiu;
És tão juvenil quanto não gentil;
Campeã viril na lei do funil:
Viva a pátria Brasil.