sábado, 24 de dezembro de 2016

Saneamento Básico - O Rio de Rios Mortos

Precisamos falar sobre Saneamento Básico

Uau, já faz um tempinho que não venho aqui. Vejo que o reduto está infestado de poeira, as prateleiras estão com complexos emaranhados de teias de aranha e tem um cheiro de morfo invadindo minhas narinas que não posso pensar em mais nada além de: "Preciso tomar vergonha na cara!". E também contratar um caseiro - um mordomo com nome de lorde ou um elfo liberto com direitos trabalhistas devidamente respeitados. Apesar da bagunça, a visão antecipada de uma faxina empenhada já acalma esta ansiedade chata que me aporrinha sempre quando me julgo estagnado. 

Caraca, Matheus, do que você tá falando? Foi longe, hein! Deixa eu voltar ao ponto deste post. 

Nos últimos dois meses estive atrelado a uma árdua missão - junto com os colegas mais batutas que pude me aliar. A tarefa, requerida pela matéria de Sociologia na faculdade, foi produzir uma espécie de pseudo-documentário-reportagem jornalística que abordaria o tema "meio ambiente". Para isso, resolvemos mostrar a ligação entre saneamento básico e preservação ambiental como forma de discutir o tópico proposto e, ao mesmo tempo, apontarmos nossos arcos e flechas de produtores do audiovisual em direção a algo ligado ao cotidiano de qualquer cidade. O Saneamento Básico não é apenas um agente de infraestrutura numa cidade, é também uma questão ambiental, e ter tal serviço funcionando com eficiência é, de maneira bem direta, preservar a natureza de um lugar. 

Nasceu assim o projeto "O Rio de Rios Mortos", o qual foca nos problemas enfrentados nas regiões suburbanas da cidade do Rio de Janeiro com relação a tratamento de esgoto.

Enfim, deixo que assistam o vídeo e reflitam sobre o assunto:



Um muito obrigado a todos os meus colegaços: Su, Lih, Mayky e Jean; ao entrevistados: Rose, Jorge e Katia Regina; um valeu pro Vinicius também; e todos os outros que indiretamente tornaram a produção deste trabalho possível. Coraçõeszinhos para todos vocês!

***

Ah, é claro que houve também a produção de um vídeo só com os erros de gravação. Foi uma maneira de descontrair e registrar o processo de making of. Em nenhum momento foi nossa intenção tirar o peso e seriedade do tema abordado, por isso vídeo está a parte do original. Espero que gostem:


Bom, agora vou me concentrar na imensa faxina que me aguarda aqui. Sabe como é, né, poeiras não se limpam sozinhas. E sou pobre, não tenho dinheiro pra pagar mordomo. Mas quem sabe um dia?

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Isso Segundo Helena Müller

Helena Müller tem grande apreço por duas coisas: primeira, responder perguntas e segunda, seu nome. Por mais que seja difícil conceber, ambas as coisas se interligam, mas em um nível bastante profundo e pessoal jamais revelado. Como conseqüência direta de suas venerações íntimas, Helena tornou-se uma intelectual muito respeitada e de personalidade tão forte quanto o seu nome. Ela admite que um dia, quando nascera, já a nomearam de outra forma, mas que “no processo que me confeccionou ao sublime estágio de existência o qual me encontro, achei inadequado chamar-me daquilo quando deveria chamar-me disto. Então, o meu passado não me interessa e por isso peço que não me direcione mais esta pergunta”. A propósito, esta é a única pergunta que de fato não lhe agrada, pois, tirando isso, nada lhe proporciona mais prazer do que ser indagada. Adorável quando quer ser, simples quando acha necessidade em ser, e ríspida ao se encontrar em uma divagação, Müller não inicia nenhuma de suas respostas sem antes dizer: “E por que você quer obter esse conhecimento?”. No entanto, basta uma insistência convincente que a intelectual responde de bom grado, deixando sempre, após a resposta, a sua célebre advertência pairar sobre o interlocutor: “Agora só não me mate ninguém com este conhecimento!”.

Tivemos o prazer de encontrar esta figura icônica, obra de um esforço que, no fundo, pareceu-me muito acaso. Dissemos que precisávamos de uma resposta e tudo se sucedeu conforme já narrado. Precisávamos de uma definição básica do que viria a ser Literatura. Obviamente, ela implicou com o termo “básico”: “É de um absurdo tamanho que estou sendo tentada a considerá-los pessoas ignorantes. Mas estou rechaçando tal preconceito...”. Esclarecemos, com a voz emperrada como o discurso de um gago, que queríamos a definição para ser lida por adolescentes. “Nenhum conhecimento é básico, pois nem mesmo o desconhecimento é”, rebateu ela. Mas Helena Müller compreendeu a particularidade que requeríamos e atendeu ao nosso pedido. Uma pessoa extraordinária, ela é.

Segundo Helena Müller:

O ato de definir Literatura é uma tarefa difícil, quase impossível eu diria, tendo em conta que muitos estudiosos e intelectuais já intencionaram trazer uma definição definitiva para ela, uma que alcançasse todos os cantos deste vasto ambiente. No entanto, todo esforço para se chegar a uma conclusão unânime era, no final, suplantada por uma observação crítica, porque sempre faltava algum detalhe, e então voltávamos à estaca zero. Por isso fala-se mais sobre conceitos, e não definições; e aí a dinâmica muda completamente, porque cada conceito se complementa, adiciona mais camadas aos estudos e vai elucidando ainda mais o nosso entendimento para com a Literatura.

A palavra Literatura tem, em sua origem, ligação com a palavra littera, que quer dizer letra e, também, o conjunto de habilidades e conhecimentos para compor e ler um texto. Aliás, o material fundamental da Literatura é a letra. Portanto, usa-se o termo para designar uma obra de arte que tem como seu instrumento, e sua forma de se expressar, as palavras. Se fizéssemos um paralelo com a música, por exemplo, veríamos que esta tem o som como o seu instrumento de expressão. Literatura é a arte das letras. Se ainda estiver um pouco confuso para você, veja o que Aristóteles, filósofo da Grécia antiga, disse: “A Literatura é a imitação da realidade”, ou seja, isso quer dizer que o que vemos nas obras literárias são imitações (mimeses) do nosso mundo real, só que com algumas diferenças, como extrapolações lógicas, eventos extraordinários e distorções no espaço e/ou no tempo, coisas que não são possíveis no nosso mundo, apesar de sabermos que ele está repleto de surpresas que desafiam nossas concepções. No entanto, na Literatura, tudo isso é feito com o intuito narrativo, para provocar em nós, leitores, sentimentos e reflexões. O que é mais importante, porém, é sinalizar que para essa tarefa, o escritor faz uso de letras para nos imergir nessa “realidade paralela”. 

Contudo vale esclarecer uma coisa. Seria um equívoco falar que tudo aquilo que é composto por letras/palavras pode ser considerado Literatura (Arte). Não, não é isso, até porque para se discutir o que pode ser considerado arte ou não precisa de toda uma discussão mais profunda do que esta. Mas adianto, grosso modo, que arte precisa de um valor, uma significação e, também, comunicar algo de maneira estética. Mesmo assim, seja os livros do Harry Potter ou aquele poema que um aluno escreve para a matéria de produção de texto, ambos são Literatura – obviamente com seus valores diferentes.

O termo também é usado para denominar o conjunto de obras de um determinado país ou período histórico, pois a Literatura exprime bastante a característica e cultura de um determinado povo. Nesse sentido, quando falamos em Literatura Brasileira ou Inglesa, nos referimos às obras feitas nesses territórios, os quais possuem cada um seus próprios costumes e comportamentos. Por outro lado, quando falamos em Literatura Moderna, por exemplo, nos referimos à característica, uma tendência, de um determinado período na história da humanidade. 

Apresentados esses conceitos gerais, é possível ter um melhor vislumbre do que se trata Literatura e saber que estudá-la é um ato fundamental para se entender a nossa própria história como espécie – uma espécie singular em numerosos sentidos e que quando escreve suas palavras, exatamente o que ocorre na Literatura, é capaz de deixar um dos mais eficientes vestígios de sua passagem neste imensurável universo.

- Agora só não me vá matar alguém com este conhecimento! Trate de dizer isso a eles também.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Título Provisório

Decerto, há sempre uma coisa (uma não. Várias) que está (estão, meu caro) espalhada (DAS!) pelo meu PC, não importando qual canto seja. É batata você encontrar. Desde a franqueza do Desktop até os confins de uma pasta obscura dentro de outras dezenas de pastas igualmente esquisitas, apresentando avisos do tipo "não tem nada aqui" e "vírus" - alarme este que chega até dar um friozinho na barriga de quem fuxica. Não pelo medo de encontrar o tal vírus, mas, sim, de trombar com algum fetiche bizarro envolvendo bonecas de PVC.  E é óbvio que estou falando apenas de uma situação hipotética, claro... (verdade. O computador dele não tem vírus) - enfim! o ponto é que sempre haverá, em qualquer canto desse meu extenso baú virtual, eles: Os Projetos.

Quem olha assim, acha até que está diante de um computador importante, de onde sairá uma nova obra-prima do século XXI, quentinha para descacetar a arte como a conhecemos (oi?). A cada esquina tem uma ideia sendo trabalhada, um brainstorm sendo agitado, um organograma construído. São tantos projetos que imaginar o perecimento do HD que os armazena é quase uma blasfêmia (bate na madeira, abestado). Aliás, perguntar-se como alguém consegue se situar em meio a tantos documentos também é inevitável. Mas, claro, a resposta é direta: "um nível de percepção que poucos são capazes de atingir, bebê" (Na verdade eu ia perguntar como um PC pode travar tanto).

Projetos, projetos, projetos... estão chovendo sobre mim. Saca só como fervilham, fervilham, fervilham.... ah, é sublime ser criativo (olha lá. Tela azul!). Deixa os projetos jogarem, ô iaiá, é o que eu digo (sim, ele diz. Sério). Se tem uma coisa que não tenho medo é de criar. Steve Jobs já falou sobre isso, se não me falha a memória. É só pintar a ideia que aquele botão direito do mouse já estará sendo esmagado, prontamente, e um novo documento de texto aceitará, sem frescura, o que eu tenho para anotar, e assim a magia se desenvolve, com todo o esplendor de uma gênese.

As pessoas apreciam esse meu jeito; curtem a vista que proporciono a elas quando há aquela visita ao meu reduto eletrônico; ficam tão curiosas e com os olhinhos brilhando que às vezes até fazem merda (falei que não tinha vírus). Mas não há porquê me enraivecer, pois é o meu mundo que elas anseiam ver, precisam ver. Então, diante de tantas inovações e promessas de uma concretização agradável e entretenimentora (é sério?), essas mesmas pessoas disparam a MESMA bendita pergunta, sempre: E aí, quando é que veremos esse projeto pronto? (Exato. Tá aí algo que estava prestes a perguntar)...

(Fala aí, cara.


 
Olá? Responde a pergunta, diacho.

Ei, tem alguém aí ainda?!

...Eu não acredito. Só pode ser brincadeira.

Não é.

Se pelo menos esse maluco tivesse me terminado há seis anos, talvez pudesse finalizar isso aqui de uma maneira digna. Bom, o que resta é mostrar a tal vista. É bonita, admito. Há coisas interessantes no horizonte, como filmes, músicas, poemas, pinturas, épicos e... coisas que parecem sonhos, sabe?

Bem, vai ver ele deve ter tido alguma outra ideia e foi ali anotar. 

Deve ter sido isso, não é mesmo?

Não é?).

domingo, 2 de outubro de 2016

O Circundar de um Fogo

Heitor teria evitado a trilha de fumaça que se adensava à sua frente se não fosse esse tom de cinza que nos guia. Fazia tempo que ele se locomovia. Um tempo suficientemente longo para levar à cabeça de qualquer andarilho que pensar demais em planejamentos é, de forma não justa e indireta, planejar-se rumo ao imprevisível. E aconteceu assim com o bem instruído Heitor: o vislumbre de seus pés tomando o caminho da fumaça, pelo simples fato de ter se interessado pela personalidade e aparência que ela ostentava. A improbabilidade incitada o abraçava sem asfixiar e o levava com o mesmo zelo de uma mãe que auxilia os primeiros passos do filho. A rota, no entanto, tinha pouca coisa a ver com simbolismos poéticos e subjetividades, pois o seu cume era o fogo - o mais literal e cruel dos desfechos.

Quando o foco se revelou, Heitor estremeceu ao sentir seu coração embargar. Por um momento ele checou a respiração, porque só agora se preocupara com uma intoxicação. Mas os pulmões iam bem. Por fora, seu corpo estava infestado por bilhões de partículas negras, as quais foram afugentadas aos tapas - um esforço inútil, porém. Então ele se ateve em digerir toda aquela quantidade de informação, espiando por cima dos ombros na desconfiança de se descobrir dentro de um sonho. As chamas produziam crepitações que mais pareciam retumbos, a julgar pelo tamanho que apresentavam, tão altas e ferozes quanto um incêndio florestal deveria fazer. Troncos gemiam ao redor, ruídos penosos que assustaram o rapaz num primeiro instante, mas que depois tornaram-se imperceptíveis. Era um ambiente tomado por danos difíceis de serem freados, e Heitor soube disso desde o instante em que chegara. Ele olhou para o solo de relvas enegrecidas e rasgadas pelo fogo, e, desprovido de ensaios, rumou para os confins da desolação, com os olhos semi-cerrados por causa do calor que não o consumia. E desvanecendo-se para dentro daquele cenário, ele gentilmente acolheu a boa noite como um obediente sábio.

Mais adiante, no interior da conflagração, não fora possível distinguir as dicotomias que formam o mundo e, sim, apenas testemunhar os mistérios que lá povoam. Dentre os diversos, um se sobressaiu. Ele originava-se das copas e despencava para o chão: folhas e mais folhas, em brasa, formando uma extravagante chuva que bailava com as lambidas do fogo, e desfazia-se antes de completar seu trajeto. Um fenômeno simplesmente lindo para as retinas, o que neste caso se limitavam as pertencentes ao Heitor, que tinha mudado seu semblante para uma expressão que cambaleava entre o prazer e a estupefação. De repente, as folhagens casaram-se com o ritmo oriundo dos gemidos das árvores consumidas, numa poligamia intensa e exótica, compondo um espetáculo que jamais poderá ser repetido senão pela natureza. Houve uma harmonia orgânica invadindo o lugar e Heitor a ouviu com todo o seu coração. Isso tudo poderia durar uma vida inteira ou apenas um segundo que não iria fazer qualquer diferença para ele, pois dentro de si um clamor pairava: "O momento... o momento...".

O formidável fenômeno teve seu fim quando a chuva finalmente conseguiu tocar o solo ardente. Um vento suave soprou as folhas chamuscadas e as amontoou, como se estivesse varrendo. Heitor principiou algumas lágrimas que iam sendo evaporadas antes de alcançar as bochechas. Elas logo deixaram de ser produzidas quando um estrondo, proveniente da folhagem amontoada, o sobressaltou e arrepiou-lhe o cabelo crespo. A harmonia sucumbiu sob a hegemonia dos gemidos; e as chamas, sabe lá Deus como, ficaram ainda maiores. O rapaz espionou a vanguarda por entre as brechas da fumaça densa e sentiu sua respiração parar - não por causa do incêndio; não por causa de nenhum motivo que ele fosse capaz de conjecturar.

Ele avistara um corpo, mais precisamente um corpo de uma mulher, repousando sobre a relva consumida.

Ocorreu um momento de hesitação, custeado pelo pânico, que deixou Heitor imóvel e com seu consciente e subconsciente preso àquela imagem. Por outro lado, a indiferença da queimada quanto ao peso de tal cena, a fez, sem cerimônias, navalhar um tronco. Se não fosse o modo com o qual caíra, o robusto cilindro teria esmagado o corpo e confeccionado um patê de sangue, carne e ossos. Heitor manifestou sua preocupação no instante em que conseguiu despir-se da imobilidade e disparar em direção ao ser desamparado, enquanto as partículas negras desenhavam um rastro às suas costas. Ao chegar perto da moça, ele constatou que ela estava viva, fato que o aliviou e o espantou em igual dose. Ele agachou-se e a tomou pelos braços, como em uma pintura romancista; por um instante pensou que poderia protegê-la, que poderia salvá-la. Porém, quando no rosto daquele ser Heitor pousou os olhos, todo esse controle se extinguiu. Não lhe veio forças, apenas fogo e mais fogo... até que consumiu seu coração e cercou-os.

Um grito ensurdecedor irrompeu na floresta, quebrando as labaredas ao meio. Tinha sido Heitor que o produzira como consequência de uma dor insuportável. Ele gritava continuamente, como se a qualquer momento fosse cuspir suas tripas. As chamas encolhiam conforme o grito persistia. O rapaz, ao perceber que o seu bramido surtia efeito sobre elas, escolheu manter o urro estridente até que dissipassem-nas por completo. O esforço o enfraquecia e o vertiginava, mas mesmo assim, ele persistia urrando, como um terremoto vindo do oriente. As vistas, gradualmente, foram escurecendo por conta de tamanha sobrecarga ininterrupta, ao passo que as cordas vocais já sangravam. Testemunhando tal sacrifício suicida, a moça levou sua mão ao rosto dele, num toque macio em oposição àquela agressividade bondosa; e, de maneira repentina, o grito foi cessado. Heitor se indignou com o que ela acabara de fazer, e por isso ficou a encarando com um olhar impotente e encharcado de lágrimas. A moça não disse palavra alguma, pelo contrário, apenas devolveu o olhar; e pôs-se a acariciá-lo, como se estivesse limpando toda aquela sujeira e atenuando as veias dilatadas. Nos lábios, um sorriso tímido e triste, mas também detentor de uma satisfação, germinou. Heitor abanou a cabeça, arremessando as lágrimas ao ar. Mas ela continuou sorrindo. Então, após tanto fixar suas retinas naquela beleza simples, rara e verdadeira, o rapaz notou algo no âmago daquelas esferas castanhas, algo de cor quente e feroz que se misturava à formosura.

Um incêndio.

- Me perdoa - foi o que se ouviu e mais nada, senão a dor de uma floresta há muito atormentada.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Zero seis do zero sete


Hoje é um dia especial - pelos menos é assim que se denomina o dia do nosso aniversário, não é mesmo? Porém, acima de tudo, é um dia, mais um, e eu estou aqui, vivo. E é interessante pensar o quanto estamos expostos a qualquer sorte de experiência, boa ou ruim, exatamente por causa desta condição, por causa deste verbo: viver. Sou grato por isso, sou grato por poder envelhecer. Mais uma translação foi completada e uma nova primavera tá aí, fazendo com que todos os aspectos do último inverno virem lembranças, até que se percam na implacável neblina do tempo. Mas a real é que eu não quero esquecer. Eu quero levar comigo alguma coisa que me faça lembrar, nem que seja só aquele galho ali, sem nenhuma folha. Eu quero entrar na nova estação tendo equilíbrio entre as distinções que formam o todo, carregando tudo em igual medida, para que eu lembre de onde vim, para onde vou, por quem eu vou e para quê eu vou.

Portanto, neste dia especial agradeço a Deus por mais um ano de vida, muito obrigado mesmo. Agradeço a minha família, minha primeira e mais importante base. Agradeço aos meus amigos pelo carinho, amor e, sobretudo, paciência. Eu sou grato, eternamente. Para este aniversário eu peço além de saúde, felicidade, paz... eu peço perdão. O erro é inerente a mim e a ideia de ter ferido um coração é dolorosa demais para que eu continue sem pedir isso hoje e todos os dias, o perdão de Deus e o seu, o de todos vocês. Perdoem-me.

Quando criança, eu sempre torcia para que nada de errado ocorresse no mundo no dia do meu aniversário, que ninguém morresse, ninguém brigasse, ninguém chorasse, enfim, que tudo parecesse perfeito aos meus olhos - coisa de criança. Os pesos dos anos foram destroçando minha inocência, mas mesmo assim eu vou lhe desejar este tipo de dia para você, exatamente este tipo de dia absurdamente ingênuo e apetitoso, pois eu amo vocês e isso nenhum dia "chato" irá mudar.

É, 23 parece um ótimo número pra mim.

No momento, é o melhor número que eu poderia ter.

Obrigado e feliz aniversário pra mim.

domingo, 26 de junho de 2016

A Minha Parte Que é Didática

Sabe aquela hora que você precisa despir-se de toda vergonha pra poder passar na matéria da faculdade? Pois bem, esse vídeo é a materialização de tal aterrorizante ato, o qual alguns costumam nomear "cara de pau" mesmo. Então, minhas amigas e eu entramos com a cara de pau, com a cara de carne e a coragem. Tudo pelo um dez na Ana Paula. Era preciso falar em inglês somente? Falamos. Era preciso fazer esforço máximo para não parecer político ao ler as falas enquanto filmávamos? Fizemos. Era preciso um pouco de maluquice para fazer o vídeo parecer engraçado e didático sem perder o fio da meada? Bem, isso nós tentamos e esparamos que tenha sido este o resultado final. Phrasal Verbs é o foco, mas você pode se distrair um pouco com algumas doideras. Não nos leve a mal, estávamos nervosos, ensinando inglês e se divertindo, TUDO AO MESMO TEMPO.

(Legenda disponível)


quinta-feira, 2 de junho de 2016

Mr. Robot - My Brain Has Been Hacked

Esses são alguns comentários sobre a primeira temporada de Mr. Robot.



Elliot Alderson é um jovem programador que, em decorrência de alguns traumas do passado, sofre de uma desordem que o torna anti-social. Durante o dia, ele leva uma vida medíocre como técnico de segurança virtual na AllSafe Cybersecurity e, durante a noite, ele é um hacker vigilante. Elliot se vê numa encruzilhada quando o líder de um misterioso grupo de hackers, Mr. Robot, o recruta para destruir a firma que ele é pago para proteger, a Evil Corp. Motivado pelas suas crenças pessoais, ele luta para resistir à chance de destruir os CEOs da grande corporação que ele acredita estar controlando - e destruindo - o mundo.

Criada por Sam Esmail e com elenco de Rami Malek, Christian Slater, Martin Wallström, Carly Chaikin e Portia Doubleday. Exibição nos EUA por conta da USA Network e no Brasil, Canal Space.

Mr. Robot certamente foi uma das mais interessantes, e instigantes, surpresas apresentadas na TV em 2015. Portada de uma identidade cinematográfica que traz personalidade ao programa, é possível sentir-se dominado pela atmosfera da série logo em seus primeiros minutos, o que é potencializado pela montagem que acompanha a paranóia e ansiedade de seu protagonista. Outro ponto que reforça tal imediatismo na imersão é a qualidade vinda do roteiro, que constrói personagens tridimensionais e uma trama que não se preocupa em ser traiçoeira com o espectador, em outras palavras: Não tem um pingo de arrependimento de suas rasteiras aplicadas em nós.

Elliot é um jovem estranho. Essa estranheza de longe é algo inédito na TV, tendo em vista que é comum atribuir a uma pessoa de seu tipo - dependente químico, introspectivo e impenetrável - o caráter de genialidade. De fato, Elliot é um rapaz genial, sua inteligência é notável, sobretudo quando se trata de sistemas de informação - engenharia de sistemas, melhor dizendo. E isso é importantíssimo para a história. Ele faz uso de suas habilidades para praticar o vigilantismo cibernético e denunciar criminosos como pedófilos ou traficantes, o que é um ponto que entra em conflito com o seu desinteresse em relacionar-se com as pessoas - e nesse caso, o problema que Elliot tem com contatos e abraços se mostra como uma forte representação desse distanciamento intencional -, porque mesmo sendo assim, ele ainda acredita que de alguma forma pode salvar o mundo e proteger as pessoas.

No entanto, é uma proteção ao seu modo. E esse modo o qual encontrou para proteger e se aproximar das pessoas não é lícito, pois ele as hackeia para conhecê-las, construindo um acervo de dados pertencente a cada pessoa. Ninguém escapa desse processo, nem mesmo os amigos mais próximos, os quais são poucos. É uma aproximação totalmente artificial e assimétrica, uma invasão pessoal onde segredos são transparecidos e a vulnerabilidade é aumentada. De sua boca sai um discurso de ódio em relação ao rumo que a sociedade vem tomando, porém é nítido perceber que em sua concepção, nós, pessoas comuns, somos vítimas. As vítimas de uma ínfima porcentagem de indivíduos que controlam todo o mundo, exclusivamente de acordo com os seus interesses econômicos.

A série tem uma narração em Voice-over que quebra a quarta parede. Nela, Elliot tenta desenvolver uma certa amizade e cumplicidade com o espectador, mesmo considerando, desde o começo, a artificialidade da mesma: "Talvez eu devesse te dar um nome. Mas pra quê? Você só existe na minha cabeça. Não podemos esquecer disso. Merda, eu realmente estou falando com uma pessoa imaginária" (Mr. Robot S01E01). Não há um tratamento desdenhoso por parte de Elliot para com o seu amigo imaginário, muito pelo contrário. Contudo, a tentativa de edificar a cumplicidade é constantemente embaçada pela desconfiança. Elliot sofre de paranóia e sua mente é perturbada pelos fantasmas do passado, por projeções de seguidores que nem ao menos sabemos se existem realmente. Esse mar de confusões psicológicas faz com que ele desconfie de todos, inclusive de nós, observadores. É uma relação instável a todo momento.

De volta ao plot central, Elliot conhece Mr. Robot - interpretado de maneira surpreendente por Christian Slater -, uma figura que, ao testemunhar o potencial do jovem engenheiro, lhe oferecesse a chance de fazer parte de uma equipe de hackers, a FSociety, e protagonizar uma arrebatadora "Revolução Global". O corpo de membros do time, diga-se de passagem, é composto por figuras caricatas: um gordo, um negro, uma menina com atitude, um velho, um esquisito/maluco e uma árabe - sendo esta a figura que mais me pegou de surpresa, só foi uma pena vê-la tão pouco desenvolvida, e envolvida, dentro da trama, pelo menos nesta primeira temporada.

A tal revolução prometida diz respeito a Evil Corp, corporação ficcional que é detentora majoritária de diversos mercados no mundo, desde os de bens de consumo até os de crédito e finanças, acentuando, aliás, algo muito recorrente em narrativas de Cyberpunk: a dominação mundial por parte de gigantescos conglomerados. O objetivo da FSociety é derrubar a corporação e instaurar um reboliço, que segundo eles, libertará o mundo, as pessoas comuns, das amarras impostas a nós sem qualquer consentimento. Para isso, Elliot é a peça fundamental da conspiração, já que ele é pago para proteger a corporação através de seu emprego regular. A propósito, a Evil Corp foi a responsável pela morte precoce de seu pai, Edward Alderson, morte esta ocorrida devido a negligência e ganância vinda por parte de seus administradores.

Em termos de cinematografia, Mr. Robot apresenta uma identidade visual que se comporta de maneira "rebelde" durante toda a temporada. Chega a ser engraçado observar como a rebeldia exercida gerou inúmeros tópicos de discussões na internet, com alguns defendendo e outros condenando ou lamentando a atitude dos responsáveis. Pois bem, expliquemos essa rebeldia: Há em Mr. Robot frequentes "quebras" de composição e incessantes desobediências à regra dos 180º. Sendo mais claro, os planos, e as cenas como um todo, são compostos de forma incomum, onde os personagens, quando em uma conversa, por exemplo, são postos com espaços abusivamente sufocantes à frente, não havendo a rotineira rima visual e espacial em que cada personagem ocupa uma extremidade do campo, dando assim, a sensação de proximidade e face a face. Também há na composição o arranjo dos personagens em diminutos pontos de intersecção das regras dos terços, conferindo excessivo espaço vazio acima da cabeça e em outras partes do quadro. Visualmente, essas decisões acabam expressando a perturbação de seus personagens e a vulnerabilidade deles, pois parecem ser afogados pelo ambiente que os cercam. Tetos, por exemplo, são constantemente mostrados e a profundidade de campo limitada ajuda a exercer tal impressão. Mas vale salientar que em certos momentos a "desordem" visual empregada distrai a atenção, exatamente por ser difícil de ignorar o seu uso. É como se ela gritasse: "Ei, estou aqui! Olhe!", o que culmina em uma distração desnecessária. Mesmo assim, tem uma cena em especial, com Elliot e sua psiquiatra, Krista, em que é feita uma construção visual esplendorosa, onde há uma gradativa inversão da figura de Elliot na cena, de dominado para dominador. É de descassetar a mente.

Estruturalmente, além do já mencionado Voice Over, a série faz uso de meios como flashbacks, alucinações e situações hipotéticas. Não para ser redundante e preguiçosa, mas para esmiuçar a vida e a mente de seu protagonista. A propósito, o foco da narrativa é este. O plano da FSociety - grupo que muito nos lembra os Anonymous - é relevante, sim; inteligente e incrível também, pois as missões para seu avanço fazem parecer as quests de um Video Game - daqueles que possuem infiltrações na surdina. Porém, o enredo claramente se enverga para falar sobre um jovem solitário, dependente químico, negligente em relações e traumatizado pelo passado, principalmente a perda de seu pai e as péssimas lembranças com sua desprezível mãe. Elliot é uma personagem trágica, sua fisionomia transparece a perturbação psicológica e a angústia de estar preso em farsas. E por causa do cuidadoso trabalho de escrita, o que acabamos por testemunhar é um avalanche de reviravoltas que aumenta o nosso interesse a cada instante, fazendo-nos relevar alguns momentos medianos. As revelações são extraordinárias e explicitam a inteligência da história.

No que diz respeito as atuações, é preciso destacar o trabalho de Christian Slater como Mr. Robot e de Martin Wallström como Tyrell Wellick. Ambos representam pontos de destaque na temporada, os quais sustentam uma química interessantíssima com o protagonista. Mas é o magnetismo de Rami Malek que mais impressiona. Em uma entrega total a natureza de sua personagem, Rami constrói um Elliot paranóico e vulnerável a emoções intensas, apesar de sua frieza característica. A timidez e o olhar esbugalhado e vidrado são resultados adquiridos durante a decadência emocional e psíquica. A persistência no uso do casaco preto, por exemplo, pode ser compreendida como um dos traços de seu distanciamento intencional. Com certeza, este é o ponto alto de sua carreira, o que é muito justo.

Assistir Mr. Robot foi uma experiência incrível. É uma série que ainda nos reserva inúmeras surpresas e respostas para as pontas deixadas soltas ao final da temporada. Uma série autêntica e instigante, uma lição de Storytelling com certeza. A inteligência do roteiro e a tridimensionalidade de seu desenvolvimento, o que pode flertar com discursos de cunho social e político, tornam a série uma janela para o nosso atual rumo como sociedade. Elliot estaria decepcionado com a gente. Portanto, não é apenas "maneiro" assistir Mr. Robot. 

É importante.

Assistam.