Eis que antes do início de todas as coisas, a escuridão reinava e o caos, a ela, servia. Quando entre os dois houve atrito, criou-se a luz, com a luz veio a ordem e a partir destes, nasceu Garvânia, a Terra.
Seguidamente, Ela originou quatro filhos prometidos a protegê-la: Helena, a leal; Tímus, o sábio; Sara, a árida; e Gorfã, o medonho. Eles dividiram entre si os pólos, formando o Norte (Helena), Sul (Gorfã), Leste (Sara) e Oeste (Tímus). Porém, à retaguarda de qualquer proteção minuciosa, ao reencontrar a escuridão no centro de seu interior, Garvânia gerou Guiliã, um filho que carregava em sua existência presságios pavorosos.
Receosos, os primeiros herdeiros amaldiçoaram a vida deste que fora nomeado indigno. Igualmente amaldiçoadas, foram as terras herdadas por Guiliã, ditas centrais, infestadas com vulcões e poeira escura. O indigno, por sua vez, julgando de injusta tal decisão, forja do magma uma criatura alva e de feição fúnebre, intitulada de humano.
Tão pequenos e tão mortais, mas destruidores. Nascidos da lava e raiva grotesca, retrato de seu ambiente e criador, a prole teria como instinto gerar atribulações e destruição por todo o mundo.
Os demais Irmãos, atormentados com o ocorrido, advertiram Guiliã. Mas o Herdeiro do centro da terra continuou a postergar quaisquer regras. Os humanos, já numerosos e organizados, espalharam-se por toda Garvânia e ultrapassaram as fronteiras. Sendo assim, os herdeiros dos pólos forjaram seus próprios filhos destinados a defender seus respectivos lares.
A retomada dos territórios, antes invadidos pelos homens, tingiu a história do mundo de cor escarlate - o sangue humano. Batalhas cruéis drenaram o mar de Guilianeses de volta ao inaproveitável centro da Terra - a punição seria subsistir, mergulhar entre desolações; e quanto a Guiliã, uma prisão na mais distante estrela do cosmo o aguardava.
Estes novos filhos, legítimos, representavam a ordem. Primeiro vieram os Gorfaneses, tão monstros e abissais quanto os homens, mestres dos ofícios e trabalhos; em seguida, Nutrilianos, filhos de Helena, guardiões da natureza e harmonia; Tímuneses, protetores do conhecimento e especialistas em elementos; e por fim, os místicos Sarenses, seres mestres nas infinitas dimensões da mente e consciências.
A ignorância de um homem, porém, jamais saberia descrever o que os diferenciava dos genuínos. Então, em detrimento da compreensão, fora criado o idioma humano, anteriormente limitado a sinais. Entretanto, o que compreenderam foi a existência de um símbolo. Um dom que os filhos de Guiliã jamais testemunharam ou possuíram. Fora nomeado de 'o brilho da alma', provável fonte de força e júbilo entre os legítimos. Era lindo aos seus olhos e hipnotizante à alma.
Era o sorriso.
Eles estudaram-no, veneraram-no e tentaram capturá-lo. Obcecados por aquele símbolo, enaltecido como a ferramenta que os levariam à legitimidade, as broncas criaturas que pudessem ser denominadas de sábias foram enviadas em expedições. Porém, a fonte para o sagrado dom manteve-se inalcançável e o que restavam-lhes era um fim pior do que a morte.
Os quatro herdeiros, ainda presentes na terra, conservaram o equilíbrio e isolaram os humanos de tal forma que nem mesmo o amanhecer germinava para eles. E na mais profunda noite, eles permaneceram imunes a extinção.
Criador aprisionado e prole condenada.
A segunda era dos humanos em Garvânia começara.
Os vulcões adormeciam diante da distância de Guiliã, tornando os humanos cada vez mais estranhos à luz. O silêncio do que antes denominava-se invencível extinguiu velhos costumes e apagaram crenças. Na ausência do pai, o abandono apadrinhou os homens oferecendo apenas tristeza em seu futuro escuro.
Gorfã, o pai dos monstros, por outro lado, preencheu seu coração de uma obsessão indomável pelas terras agora sem herdeiro. Seu interesse pelos vulcões moveu esforços e perseguições violentas para conquistar a casa de seu irmão mais odiado. No entanto, uma coisa resistia ao furor sulista, uma tribo, povoada por humanos revestidos do magma de Varlanóiã, o último vulcão ativo da terra. Nem mesmo a horda mais macabra obteve o êxito desejado e o ódio de Gorfã envergou-se para um destino sanguinário.
Varlanóiã erguia sua aparência negra junto às cordilheiras de Coimbra, banhando de larva sua redondeza e rugindo grunhidos dilaceradores de ar. Na falha situada aos pés do vulcão, sobre a planície elevada, viviam as únicas criaturas capazes de aguentar tamanha desolação: Humanos. Estes faltavam-lhes sombras, eram selvagens e não se interessavam por sagrados símbolos descobertos no Norte. Mantiveram-se junto à sua natureza, a violência de um Guilianes, e devolviam com igual gravidade, o ódio de Gorfã.
Ataques investidos, resistência humana e a falha dos monstros: esta ordem de acontecimentos manteve-se por muito tempo, adicionando tons escarlates ao solo negro de Varlanóiã. Gorfã, fruto da luz e escuridão, fora o legítimo que escolheu as sombras, escolheu dar vida às aberrações, pois desde que testemunhou a natureza destruidora e selvagem dos humanos, desejou tal instinto em seus filhos. O sul de Garvânia, representava o limite da terra, o inverno e os dias curtos; Com seu aspecto espinhoso, planícies são escassas e montanhas pungentes acrescem por quase todo território até o oceano gélido com seu horizonte nebuloso e infinito.
Enquanto as escuridões confrontavam-se, Tímus, Sara e Helena escolheram não intervir no conflito por temerem o contágio com a selvageria vigente, muito menos repreenderam os desejos de Gorfã ou procuraram seus reais motivos. Dos demais filhos legítimos de Garvânia veio apenas a liberdade de nomear a batalha:
A Guerra dos Horrendos.
O primeiro ataque à Varlanóiã havia se tornado um passado distante, o qual apenas a derrota permanecia inalterável. Guinchos de espadas, com ódios descendo junto aos golpes, e feridas cada vez maiores ecoavam pela fúnebre atmosfera do sul. Os humanos continuavam a resistir, com o brandir do último vulcão, às hordas abissais que penetravam nas sombras trazendo a ambição de um legítimo. Porém, o brandido tornara-se abatido, sonolento, como se estivesse caindo em adormecimento.
O temor estremeceu os humanos.
Farto com a derrota e de coração petrificado, Gorfã buscou do mais profundo manancial das montanhas negras a matriz para Suas novas hordas. Destes ele arrancou o brilho da alma, armou-os do mais ínfimo furor e avermelhou seus olhos. Das cordilheiras de Coimbra era capaz de testemunhar o bater dos tambores, o reluzir de chamas verdes e o brado dos monstros, reprimindo Varlanóiã ao sussurro. Revestidos de rancor, as legiões abissais investiram o único ataque necessário para sucumbir os humanos do sul, não levando misericórdia alguma consigo.
Os indignos foram derrotados.
No entanto, ao ponto cego de olhos sedentos de sangue, um vestígio salientou à ira: uma jovem humana de pés pálidos e vestes encardidas. Ela fugiu horizonte glacial adentro, mesmo com o peito atravessado por uma arma de Dolordrã, almejando a clemência dos deuses. Mas a única resposta que recebia era o eco de seu sofrimento. A dor lancinante percorria todo seu corpo potencializada pelo frio, perfurando como agulhas a carne, os nervos e ossos. Logo, o ferimento manifestou à manceba excrementos esverdeados do mais profundo sangue de Garvânia e um odor nauseante de enxofre. Para a desistência ela tentou entregar sua peleja, urrando súplicas pela morte, mas uma presença parecia puxá-la, impedindo-a de parar.
Quando a alma se dispôs abandonar aquela vida, trancando-se no abismo mais obscuro da consciência, surgiu do céu, através das nuvens negras, uma penumbra. Da fresta vazou uma luz amarelada, atingindo a humana em resplandecência jamais testemunhada por um filho de Guiliã. Contudo, ao invés de um calor reconfortante, veio a dor e a acidez, seguido do crepitar escaldante onde a arma encontrava-se. Não havia mais presença guiadora, nem o caminhar contra a vontade, apenas o cair oco sobre a neve e o contorcer de agonia.
Mesmo refém do sofrimento, ela questionou o por quê daquilo, o por quê da penúria, de ser a única que resistiu ao ódio de Gorfã.
Então veio o silêncio;
Depois uma voz;
- DEIXAI DE SER ESTRANHA À LUZ, CRIATURA DE GUILIÃ, O SANGUE DESTA TERRA AGORA CORRE EM SUAS VEIAS. QUE TORNE-SE LIMPA TUA VESTE E SEMBLANTE, E VOSSOS PÉS AQUEÇAM-SE, PORQUE GUARDO EM TI A CHANCE DE TUA RAÇA TRIUNFAR. DESCANCE POIS AGORA EM MEU CORPO, ARMORA.
E o cair inconsciente se fez, alvorecendo uma nova era para os humanos.
sábado, 28 de fevereiro de 2015
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
A Canção dos Humanos em Garvânia
Horripilante criatura!
É aquela que não sorrir.
Ausente brilho da alma,
aos humanos era apenas capaz subsistir.
Frutos de indignação,
criados ao intuito de destruição.
Isolados e frios,
para eles, restava somente a escuridão.
Quem poderia imaginar,
que dentro deles havia poder e ganância?
E que seres de pequenos e quase extintos,
alcançariam grandiosa relevância?
De fato, sua incapacidade de sorrir
é contrária a de sobreviver.
Porém, vosso sofrimento
o fim é impossível prever.
Apesar da escuridão, apesar de uma maldição,
No fim, houve uma solução, uma esperança,
um sorriso...
E todos os humanos poderiam se beneficiar por isso.
--
N.T.: Há milhões de estações, existiu Garvânia, uma terra inundada de mitos e criaturas que convidam para um baile apoteótico a imaginação (pelo menos a minha). Este texto é o primeiro, de muitos, que povoarão este blog com crônicas e canções que invocam a magia deste mundo.
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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
Correntes de Cifrões
Miomir
anda pelas ruas da cidade. Ele tenta gostar disso por precisar fazer isso, pois
o isso é o seu trabalho. Ele sempre fora determinado em considerar-se um
"guerreiro" livre de amarras, espontâneo e desinteressado por quais
rótulos eram conferidos sua pacata pessoa. Mas ultimamente, em vista do quanto
isso é desconfortável, ele vem sentindo as pernas pesarem. Olhando ao redor de
suas andanças, Miomir vislumbra uma realidade mais perturbadora do que seus
olhos, pertinentes otimistas, faziam-lhe enxergar:
Correntes.
Elas serpenteiam
pela calçada e asfalto, amontoam-se em casas e pessoas, e atingem distâncias
imensuráveis. Preenchem o céu, ar e chegam a estremecer até mesmo o interior do
mundo em que este jovem vive. Forçar as pálpebras, o pobre Miomir arriscou, no
entanto, refutar a sua mais nova visão do mundo, mostra-se ineficaz. Anos de
sossego e independência desvanecem conforme sua vista torna-se cinza. A
admiração permite que a ponta de uma corrente passe rente a ele, uma corrente
ausente de um cativo. O tilintar desta gela a espinha de Miomir, gerando um
impulso, inútil, de correr. Este, porém, era o resultado da negligência. O fim
de meios os quais Miomir não procurou esforços em extinguir de sua vida. Ele
permitiu esta prisão, coexistiu com a aproximação das correntes, e agora elas
estão ali para levá-lo.
Como um
criminoso encontrando a detenção, ele reage. Mas agora agarrado pelos pés que
antes guiavam uma vida independente, Miomir apenas pode permitir a si olhar ao
redor mais uma vez. Neste redor, percebe que as pessoas aceitam a prisão. Trabalham,
estudam, amam, enfim, vivem com elas. Ele até mesmo ver pessoas matando por
elas, destruindo futuros com elas, roubando ou guerreando por elas. Então Miomir
entende que é o único ali resistindo à prisão, ecoando e gastando seu fôlego
para o vazio, para um mundo que não o enxerga mais. As amarras, porém,
apresentam-se como anjos libertadores e recompensadores, munidos de felicidade
e prazer pleno. E uma vez selada a infeliz epifania, Miomir, numa compreensão que
jamais ocorreria no que agora ele pode nomear de "antigo eu", admite
que não seria tão ruim ser um prisioneiro... Um escravo dos cifrões.
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domingo, 25 de janeiro de 2015
A Rima do Game Over
É, meu irmão, vou te falar
A dor é muito grande
E eu não sei por onde começar
Ultimamente, a angústia está presente
Os segundos se esgotaram
Disso já estou ciente
Impedido de seguir em frente
O sistema me trata como indigente
Pressiono start
Tarde demais, é game over
Infelizmente.
Como eu pude ser tão demente?
Tudo aconteceu de repente
O chefão estava desorientado
E do nada, me golpeou repentinamente
Antes que eu pudesse reagir
Já ao chão, eu jazia inconsciente.
A minha coragem tá meio enfraquecida
Mesmo depois de toda a experiência adquirida
Mas essa queda não irá me impedir
Não me canso desse jogo,
Enquanto eu não o concluir
Sou velha-guarda, sou anos 90
Se não sabe perder, moleque,
Faz o seguinte, nem tenta.
Aqui só conquista quem aguenta
Fica no teu life infinito
Sua criança pirracenta.
Relaxa, não vou bancar o idiota
Só é chato ver que o mundo
Não lida mais com a derrota
Eu perdi, fracassei, disso eu sei
Um perrengue eu passei
Da minha sorte eu abusei
Mas pro fim não há leis
E se eu cair de novo, poucos segundos terei
No total, te garanto, são menos de seis.
Saiba que o recomeço também é um start
Jogar video-game é uma arte
Perder é algo que sempre fará parte
Seja o que for,
A desistência mantém-se em descarte.
A dor é muito grande
E eu não sei por onde começar
Ultimamente, a angústia está presente
Os segundos se esgotaram
Disso já estou ciente
Impedido de seguir em frente
O sistema me trata como indigente
Pressiono start
Tarde demais, é game over
Infelizmente.
Como eu pude ser tão demente?
Tudo aconteceu de repente
O chefão estava desorientado
E do nada, me golpeou repentinamente
Antes que eu pudesse reagir
Já ao chão, eu jazia inconsciente.
A minha coragem tá meio enfraquecida
Mesmo depois de toda a experiência adquirida
Mas essa queda não irá me impedir
Não me canso desse jogo,
Enquanto eu não o concluir
Sou velha-guarda, sou anos 90
Se não sabe perder, moleque,
Faz o seguinte, nem tenta.
Aqui só conquista quem aguenta
Fica no teu life infinito
Sua criança pirracenta.
Relaxa, não vou bancar o idiota
Só é chato ver que o mundo
Não lida mais com a derrota
Eu perdi, fracassei, disso eu sei
Um perrengue eu passei
Da minha sorte eu abusei
Mas pro fim não há leis
E se eu cair de novo, poucos segundos terei
No total, te garanto, são menos de seis.
Saiba que o recomeço também é um start
Jogar video-game é uma arte
Perder é algo que sempre fará parte
Seja o que for,
A desistência mantém-se em descarte.
sábado, 24 de janeiro de 2015
Cena: Temos Vagas
INT. QUARTO – TARDE
Típico
quarto de um jovem de 18 anos.
BAGUNÇADO.
No
meio da zona generalizada, Alex joga MMORPG com seu amigo.
RÔMULO (OS)
Se liga, preciso
destes itens
pra essa quest.
ALEX
Só quer mandar nessa
bagaça, hein!
RÔMULO (OS)
Bora, cara! O tempo
tá correndo.
ALEX
O cara arruma uma
arma rara
E agora age como se
tivesse dois pintos.
RÔMULO
(Rindo)
Ah, se ligou no meu
espadão, né?
O telefone
no quarto começa a tocar.
ALEX
(Debochando)
Pra quem tu deu a
bunda pra arrumar isso aí?
Os
toques persistem.
RÔMULO
Eu tenho meus
contatos.
ALEX
Ah, Safada!
Ambos
gargalham e sentem-se privilegiados por possuírem tamanha diversão numa tarde
de terça-feira.
O
telefone ainda está a tocar.
RÔMULO
E aí, pegou a
parada?
Neste
instante, Alex percebe que há algo fazendo barulho em seu quarto.
ALEX
O telefone tá
tocando.
RÔMULO
Deixa tocar, ora.
Alex
olha para o telefone e equaliza se vale a pena atender a ligação.
ALEX
Guenta aí.
Alex
põe o headset sobre a mesa e se levanta.
RÔMULO (OS)
Ah! Sério, véi?!
Deixa essa porra
tocar, a gente vai perder a-
ALEX
Alô
LÚCIA
Oi, meu nome é
Lúcia.
Sou da redeempregos.com e gostaria de falar
Com o Alex Teixeira
Filho, por favor.
ALEX
É ele.
LÚCIA
Oi, Alex, tudo bem?
Olha, eu tenho uma
notícia muito boa para você.
ALEX
Tô ouvindo.
LÚCIA
Observei em nossos
bancos de vagas o seu currículo
e agora estou ligando,
pois tenho uma oportunidade para você.
ALEX
Meu currículo?
LÚCIA
É. Estamos
encaminhando seus dados
para que você possa
marcar uma entrevista, ok?
ALEX
Pera, pera aí.
Deve haver algum
engano, senhora.
LÚCIA
Como?
ALEX
Eu não me inscrevi a
nenhuma vaga
de emprego.
RÔMULO (OS)
Caralho, Alex.
Cadê você?
Na
calmaria da tarde, a raiva crescente de Rômulo, vinda das caixas de som, rasgam
a atmosfera ambiente.
Alex
olha para a tela do seu jogo, apreensivo.
ALEX
Seja lá como você
conseguiu meus dados,
eu preciso desligar.
LÚCIA
Calma, Alex.
Tem certeza?!
É um oportunidade
úncia!
ALEX
Mas eu não to afim
LÚCIA
Por que?
Há alguma carência
de tempo disponível?
ALEX
Não, não. Nem é
isso.
LÚCIA
(entusiasmo)
Então, Alex?
Por que deixar
passar uma-
Alex
se esforça para achar a primeira resposta que venha à sua cabeça, para encerrar
o telefonema.
ALEX
É que eu já tenho um
emprego!
MÁRCIA (OS)
Você com emprego?
A
mãe do Alex chega em casa.
Ela
surge junto a porta.
MÁRCIA
Desde quando?
Alex
rende-se ao nervosismo.
ALEX
Eu preciso desligar
MÁRCIA
Com quem você tá
falando?
ALEX
Ninguém!
RÔMULO (OS)
Wolver Knight, seu desgraçado!
Vamos perder a
quest!
Mãe
e filho entreolham-se.
Logo, para o computador.
Márcia
calcula a real angústia de Alex.
ALEX
Sério mesmo,
terei de recusar
esta oportunidade.
MÁRCIA
Oportunidade?!
Não acredito que é
da redeempregos.com!
LÚCIA
Alex, olha só.
Você está perdendo
uma
oportunidade de
ouro, meu jovem.
MÁRCIA
E aí?
Quando é a
entrevista?
ALEX
(para mãe)
Eu vou recusar.
LÚCIA
Mesmo?!
MÁRCIA
Não!
LÚCIA
(Aliviada)
Ah, bem.
RÔMULO (OS)
Caralho, Alex.
Se eu perder esta
quest, eu juro,
mas juro que te
mato!
Alex
atravesa o quarto para acalmar seu amigo.
ALEX
Dá pra você sair daí?
Vai acabar morrendo!
RÔMULO
Não! Trate de sentar
essa bunda magra
nessa cadeira e me
ajude a matar esse Boss!
Ao
retornar com a recusa à Lúcia, sua mãe replica:
MÁRCIA
Quando você vai
deixar
de se comportar como
criança?
ALEX
Quando eu encerrar
essa chamada.
MÁRCIA
Não se atreva a
desligar.
ALEX
Eu não quero
trabalhar em qualquer lugar, mãe!
MÁRCIA
Sua situação atual
não te permite
muito escolher,
rapaz.
LÚCIA
Alex?
ALEX
Dá pra esperar um instantinho?
Márcia
desaprova toda a infantilidade exercida por seu filho.
ALEX
Eu já disse que
quero ser Game Designer.
MÁRCIA
Lá vem isso de novo.
ALEX
É o meu sonho!
MÁRCIA
E jogando video game
o dia inteiro
vai te levar lá?
Alex
raciocina, por alguns instantes, o que irá responder.
ALEX
Provavelmente.
RÔMULO (OS)
Foda-se, vou atacar!
ALEX
(Para o Rômulo)
Não!
MARCIA
empurra o telefone contra o peito do Alex.
MÁRCIA
Diga sim!
Alex
afasta o telefone de volta.
ALEX
Eu já disse minha
resposta.
A
mãe toma o telefone.
MÁRCIA
Olha, o meu filho
adoraria comparecer a entrevista
ALEX
‘Quê? Não!
LÚCIA
Ah, que maravilha!
Alex
tenta tomar o telefone.
MÁRCIA
Sim, é um garoto muito
trabalhador.
LÚCIA
Exatamente o perfil
que procuramos.
ALEX
Eu não vou!
A
mãe aterrissa o telefone sobre o peito.
MÁRCIA
Ah, tu vai sim!
Senão, eu paro de
pagar a mensalidade
desta maldita
internet.
Alex
desaba os ombros.
RÔMULO (OS)
Ih, rapaz.
Lascou!
Ambos
olham para o monitor do PC:
GAME OVER
N.T.: OS - Off Screen (fala dita fora de quadro)
---//---
Marcadores:
amador,
cena,
comédia,
courier,
formatação,
formato,
masterscene,
mmorpg,
modelo,
roteirismo,
roteiro,
vagabundagem,
vício
domingo, 18 de janeiro de 2015
Os Solitários Habitantes do Universo
A missão Discovery chegara ao ponto em que seu total fracasso era claro a todos os tripulantes da nave EBERPE. Nos rostos dos sobreviventes ali presentes, os quais eram poucos, havia um misto de decepção e angústia, pois o segredo perseguido por aqueles viajantes mostrara uma face bruta e inconsequente.
A face da inexistência.
Conforme a grande nave penetrava a escuridão intangível do cosmo, o capitão Hope, chefe da expedição, rendeu-se a uma reflexão, que em primeiro instante veio em forma de pensamento, porém tornou-se num desabafo audível.
- Talvez não. - Ele respondeu a si mesmo - Talvez estejamos sozinhos em toda esta imensidão. Mesmo com toda nossa pequenez e insignificância, continuamos sendo agraciados em testemunhar as estrelas, os planetas e a vida. Logo nós que mal conseguimos cuidar de nossa própria casa. Como podemos ser os únicos privilegiados?
O silêncio foi a resposta.
- Mas hoje - Ele continua. - compreendo que esta pergunta possuí uma resposta óbvia: Nós somos parte desta imensidão, e não meros espectadores. Este TODO nos pertence assim como nós pertencemos a ele.
A tripulação se entreolhou, e tais olhares valeram como longas conversas. O silêncio pertinente permitiu ao capitão levantar e direcionar-se para a proa da nave, onde de lá imaginou poder sentir o vento acariciar-lhe o rosto e levar consigo sua frase final:
- Nós não somos um erro do universo.
domingo, 14 de setembro de 2014
Numa Sexta-feira
Nas molhadas ruas dessa sexta, o frio traz à tona incógnitas
rotineiras. Penso estar em conflito com o ambiente que me cerca. Por algum
motivo, os homens parecem mais românticos, as mulheres mais radiantes, as
crianças mais protegidas, os idosos mais esperançosos e o sol, que em cisma de
timidez viveu o hoje, mais conveniente. Um balanço de entusiasmo e nostalgia
preenche a minha mente, porém não sei no que meus olhos refletem, acredito estarem tão confusos quanto eu.
Desisti de imediato fazer qualquer ligação lógica com as
condições meteorológicas e o humor ambiental vigente: Uma mãe acaba de abrir
mão de seu guarda-chuva para proteger o filho da tempestade - O amor em tempos
frios. Perseguindo os meus caminhos, penso no que mais é necessário para viver
um sonho e, mesmo com o dia que me rodeia sendo tão convidativo, admito que quero estar aqui e ao mesmo tempo não.
Ao sair do trem, me espantei com a insignificante diferença
de temperatura entre o vagão e a rua. Isto me preocupa. Estou para chegar em
casa mais cedo, poderei pôr em descanso o meu corpo. Quero pensar nas coisas
boas que me esperam - Talvez seja este o entusiasmo e a casa, nostalgia.
Homem carrega uma flor, mulher bem consigo, uma criança com
um guarda-chuva, idoso sorrir e um dia frio e chuvoso termina em brilho solar.
Tudo parece bem, estou no caminho certo. Isso é o que meus olhos refletem.
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