quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Correntes de Cifrões

Miomir anda pelas ruas da cidade. Ele tenta gostar disso por precisar fazer isso, pois o isso é o seu trabalho. Ele sempre fora determinado em considerar-se um "guerreiro" livre de amarras, espontâneo e desinteressado por quais rótulos eram conferidos sua pacata pessoa. Mas ultimamente, em vista do quanto isso é desconfortável, ele vem sentindo as pernas pesarem. Olhando ao redor de suas andanças, Miomir vislumbra uma realidade mais perturbadora do que seus olhos, pertinentes otimistas, faziam-lhe enxergar:

Correntes.  
        
Elas serpenteiam pela calçada e asfalto, amontoam-se em casas e pessoas, e atingem distâncias imensuráveis. Preenchem o céu, ar e chegam a estremecer até mesmo o interior do mundo em que este jovem vive. Forçar as pálpebras, o pobre Miomir arriscou, no entanto, refutar a sua mais nova visão do mundo, mostra-se ineficaz. Anos de sossego e independência desvanecem conforme sua vista torna-se cinza. A admiração permite que a ponta de uma corrente passe rente a ele, uma corrente ausente de um cativo. O tilintar desta gela a espinha de Miomir, gerando um impulso, inútil, de correr. Este, porém, era o resultado da negligência. O fim de meios os quais Miomir não procurou esforços em extinguir de sua vida. Ele permitiu esta prisão, coexistiu com a aproximação das correntes, e agora elas estão ali para levá-lo.

Como um criminoso encontrando a detenção, ele reage. Mas agora agarrado pelos pés que antes guiavam uma vida independente, Miomir apenas pode permitir a si olhar ao redor mais uma vez. Neste redor, percebe que as pessoas aceitam a prisão. Trabalham, estudam, amam, enfim, vivem com elas. Ele até mesmo ver pessoas matando por elas, destruindo futuros com elas, roubando ou guerreando por elas. Então Miomir entende que é o único ali resistindo à prisão, ecoando e gastando seu fôlego para o vazio, para um mundo que não o enxerga mais. As amarras, porém, apresentam-se como anjos libertadores e recompensadores, munidos de felicidade e prazer pleno. E uma vez selada a infeliz epifania, Miomir, numa compreensão que jamais ocorreria no que agora ele pode nomear de "antigo eu", admite que não seria tão ruim ser um prisioneiro... Um escravo dos cifrões. 

domingo, 25 de janeiro de 2015

A Rima do Game Over

É, meu irmão, vou te falar
A dor é muito grande
E eu não sei por onde começar
Ultimamente, a angústia está presente
Os segundos se esgotaram
Disso já estou ciente
Impedido de seguir em frente
O sistema me trata como indigente
Pressiono start
Tarde demais, é game over
Infelizmente.

Como eu pude ser tão demente?
Tudo aconteceu de repente
O chefão estava desorientado
E do nada, me golpeou repentinamente
Antes que eu pudesse reagir
Já ao chão, eu jazia inconsciente.

A minha coragem tá meio enfraquecida
Mesmo depois de toda a experiência adquirida
Mas essa queda não irá me impedir
Não me canso desse jogo,
Enquanto eu não o concluir
Sou velha-guarda, sou anos 90
Se não sabe perder, moleque,
Faz o seguinte, nem tenta.
Aqui só conquista quem aguenta
Fica no teu life infinito
Sua criança pirracenta.

Relaxa, não vou bancar o idiota
Só é chato ver que o mundo
Não lida mais com a derrota
Eu perdi, fracassei, disso eu sei
Um perrengue eu passei
Da minha sorte eu abusei
Mas pro fim não há leis
E se eu cair de novo, poucos segundos terei
No total, te garanto, são menos de seis.

Saiba que o recomeço também é um start
Jogar video-game é uma arte
Perder é algo que sempre fará parte
Seja o que for,
A desistência mantém-se em descarte.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Cena: Temos Vagas

INT. QUARTO – TARDE
              
Típico quarto de um jovem de 18 anos.

BAGUNÇADO.

No meio da zona generalizada, Alex joga MMORPG com seu amigo.

RÔMULO (OS)
Se liga, preciso destes itens
pra essa quest.

ALEX
Só quer mandar nessa bagaça, hein!

RÔMULO (OS)
Bora, cara! O tempo tá correndo.

ALEX
O cara arruma uma arma rara
E agora age como se tivesse dois pintos.

RÔMULO
(Rindo)
Ah, se ligou no meu espadão, né?

O telefone no quarto começa a tocar.

ALEX
(Debochando)
Pra quem tu deu a bunda pra arrumar isso aí?

Os toques persistem.

RÔMULO
Eu tenho meus contatos.

ALEX
Ah, Safada!

Ambos gargalham e sentem-se privilegiados por possuírem tamanha diversão numa tarde de terça-feira.

O telefone ainda está a tocar.

RÔMULO
E aí, pegou a parada?

Neste instante, Alex percebe que há algo fazendo barulho em seu quarto.

ALEX
O telefone tá tocando.

RÔMULO
Deixa tocar, ora.

Alex olha para o telefone e equaliza se vale a pena atender a ligação.

ALEX
Guenta aí.

Alex põe o headset sobre a mesa e se levanta.

RÔMULO (OS)
Ah! Sério, véi?!
Deixa essa porra tocar, a gente vai perder a-

ALEX
Alô

LÚCIA
Oi, meu nome é Lúcia.
Sou da redeempregos.com e gostaria de falar
Com o Alex Teixeira Filho, por favor.

ALEX
É ele.

LÚCIA
Oi, Alex, tudo bem?
Olha, eu tenho uma notícia muito boa para você.

ALEX
Tô ouvindo.

LÚCIA
Observei em nossos bancos de vagas o seu currículo
e agora estou ligando, pois tenho uma oportunidade para você.

ALEX
Meu currículo?

LÚCIA
É. Estamos encaminhando seus dados
para que você possa marcar uma entrevista, ok?

ALEX
Pera, pera aí.
Deve haver algum engano, senhora.

LÚCIA
Como?

ALEX
Eu não me inscrevi a nenhuma vaga
de emprego.

RÔMULO (OS)
Caralho, Alex.
Cadê você?

Na calmaria da tarde, a raiva crescente de Rômulo, vinda das caixas de som, rasgam a atmosfera ambiente.

Alex olha para a tela do seu jogo, apreensivo.

ALEX
Seja lá como você conseguiu meus dados,
eu preciso desligar.

LÚCIA
Calma, Alex.
Tem certeza?!
É um oportunidade úncia!

ALEX
Mas eu não to afim

LÚCIA
Por que?
Há alguma carência de tempo disponível?

ALEX
Não, não. Nem é isso.

LÚCIA
(entusiasmo)
Então, Alex?
Por que deixar passar uma-

Alex se esforça para achar a primeira resposta que venha à sua cabeça, para encerrar o telefonema.

ALEX
É que eu já tenho um emprego!

MÁRCIA (OS)
Você com emprego?

A mãe do Alex chega em casa.

Ela surge junto a porta.

MÁRCIA
Desde quando?

Alex rende-se ao nervosismo.

ALEX
Eu preciso desligar

MÁRCIA
Com quem você tá falando?

ALEX
Ninguém!

RÔMULO (OS)
Wolver Knight, seu desgraçado!
Vamos perder a quest!

Mãe e filho entreolham-se.

Logo, para o computador.

Márcia calcula a real angústia de Alex.

ALEX
Sério mesmo,
terei de recusar esta oportunidade.

MÁRCIA
Oportunidade?!
Não acredito que é da redeempregos.com!

LÚCIA
Alex, olha só.
Você está perdendo uma
oportunidade de ouro, meu jovem.

MÁRCIA
E aí?
Quando é a entrevista?

ALEX
(para mãe)
Eu vou recusar.

LÚCIA
Mesmo?!

MÁRCIA
Não!

LÚCIA
(Aliviada)
Ah, bem.

RÔMULO (OS)
Caralho, Alex.
Se eu perder esta quest, eu juro,
mas juro que te mato!

Alex atravesa o quarto para acalmar seu amigo.

ALEX
Dá pra você sair daí?
Vai acabar morrendo!

RÔMULO
Não! Trate de sentar essa bunda magra
nessa cadeira e me ajude a matar esse Boss!

Ao retornar com a recusa à Lúcia, sua mãe replica:

MÁRCIA
Quando você vai deixar
de se comportar como criança?

ALEX
Quando eu encerrar essa chamada.

MÁRCIA
Não se atreva a desligar.

ALEX
Eu não quero trabalhar em qualquer lugar, mãe!

MÁRCIA
Sua situação atual não te permite
muito escolher, rapaz.

LÚCIA
Alex?

ALEX
Dá pra esperar um instantinho?

Márcia desaprova toda a infantilidade exercida por seu filho.

ALEX
Eu já disse que quero ser Game Designer.

MÁRCIA
Lá vem isso de novo.

ALEX
É o meu sonho!

MÁRCIA
E jogando video game o dia inteiro
vai te levar lá?

Alex raciocina, por alguns instantes, o que irá responder.

ALEX
Provavelmente.

RÔMULO (OS)
Foda-se, vou atacar!

ALEX
(Para o Rômulo)
Não!

MARCIA empurra o telefone contra o peito do Alex.

MÁRCIA
Diga sim!

Alex afasta o telefone de volta.

ALEX
Eu já disse minha resposta.

A mãe toma o telefone.

MÁRCIA
Olha, o meu filho adoraria comparecer a entrevista

ALEX
‘Quê? Não!

LÚCIA
Ah, que maravilha!

Alex tenta tomar o telefone.

MÁRCIA
Sim, é um garoto muito trabalhador.

LÚCIA
Exatamente o perfil que procuramos.

ALEX
Eu não vou!

A mãe aterrissa o telefone sobre o peito.

MÁRCIA
Ah, tu vai sim!
Senão, eu paro de pagar a mensalidade
desta maldita internet.

Alex desaba os ombros.

RÔMULO (OS)
Ih, rapaz.
Lascou!

Ambos olham para o monitor do PC:

GAME OVER


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N.T.: OS - Off Screen (fala dita fora de quadro)

domingo, 18 de janeiro de 2015

Os Solitários Habitantes do Universo

A missão Discovery chegara ao ponto em que seu total fracasso era claro a todos os tripulantes da nave EBERPE. Nos rostos dos sobreviventes ali presentes, os quais eram poucos, havia um misto de decepção e angústia, pois o segredo perseguido por aqueles viajantes mostrara uma face bruta e inconsequente.

A face da inexistência.

Conforme a grande nave penetrava a escuridão intangível do cosmo, o capitão Hope, chefe da expedição, rendeu-se a uma reflexão, que em primeiro instante veio em forma de pensamento, porém tornou-se num desabafo audível.

- Talvez não. - Ele respondeu a si mesmo - Talvez estejamos sozinhos em toda esta imensidão. Mesmo com toda nossa pequenez e insignificância, continuamos sendo agraciados em testemunhar as estrelas, os planetas e a vida. Logo nós que mal conseguimos cuidar de nossa própria casa. Como podemos ser os únicos privilegiados?

O silêncio foi a resposta.

- Mas hoje - Ele continua. - compreendo que esta pergunta possuí uma resposta óbvia: Nós somos parte desta imensidão, e não meros espectadores. Este TODO nos pertence assim como nós pertencemos a ele.

A tripulação se entreolhou, e tais olhares valeram como longas conversas. O silêncio pertinente permitiu ao capitão levantar e direcionar-se para a proa da nave, onde de lá imaginou poder sentir o vento acariciar-lhe o rosto e levar consigo sua frase final:

- Nós não somos um erro do universo.

domingo, 14 de setembro de 2014

Numa Sexta-feira

Nas molhadas ruas dessa sexta, o frio traz à tona incógnitas rotineiras. Penso estar em conflito com o ambiente que me cerca. Por algum motivo, os homens parecem mais românticos, as mulheres mais radiantes, as crianças mais protegidas, os idosos mais esperançosos e o sol, que em cisma de timidez viveu o hoje, mais conveniente. Um balanço de entusiasmo e nostalgia preenche a minha mente, porém não sei no que meus olhos refletem, acredito estarem tão confusos quanto eu.

Desisti de imediato fazer qualquer ligação lógica com as condições meteorológicas e o humor ambiental vigente: Uma mãe acaba de abrir mão de seu guarda-chuva para proteger o filho da tempestade - O amor em tempos frios. Perseguindo os meus caminhos, penso no que mais é necessário para viver um sonho e, mesmo com o dia que me rodeia sendo tão convidativo, admito que quero estar aqui e ao mesmo tempo não.

Ao sair do trem, me espantei com a insignificante diferença de temperatura entre o vagão e a rua. Isto me preocupa. Estou para chegar em casa mais cedo, poderei pôr em descanso o meu corpo. Quero pensar nas coisas boas que me esperam - Talvez seja este o entusiasmo e a casa, nostalgia.

Homem carrega uma flor, mulher bem consigo, uma criança com um guarda-chuva, idoso sorrir e um dia frio e chuvoso termina em brilho solar. Tudo parece bem, estou no caminho certo. Isso é o que meus olhos refletem.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Dama das Dores

Ontem me foi permitido sonhar
Com uma bela dama de hipnotizante olhar.
Em suas mãos, ela portava algo de difícil compreensão
Não lembro se uma arma ou meu próprio coração

Disse para não temer o fim do perfeito
Senti uma dor eletrizante no peito
Ela jogou fora o que segurava após um beijo
Num cruel e descompromissado desfeito

Suas mãos, agora sujas, estenderam-se a mim
Do paraíso no qual estava, ela me mostraria o fim
Belezas também morrem, ela disse
Poderia restaurar o que fora descartado, se ela não me impedisse
Com não's e uma realidade crua
Encontrei minha companheira amargura.
Excomungado do sonho,
O que sobrou foram lembranças,
de um amor agora desmembrado da esperança.

Foi bom estar perdido na perfeição
Comparado à esta atual desolação.
De que serve o adeus,
se ela é ignorante ao que digo?
Do oxigênio que usa,
ela não tá afim de dividir comigo.

sábado, 16 de agosto de 2014

A Jornada de Todos os Herois

Há na jornada de cada herói a “provação máxima”, aquele momento onde monstros e os mais dos terríveis males precisam ser enfrentados. É aquele instante em que as forças, antes inesgotáveis, agora são escassas. O horizonte passa a ser turvo, incerto, quase uma imagem abstrata de algo que um dia fora uma meta. É difícil prever um fim quando se encontra em tais condições, pois o herói está sozinho - Ele precisa estar sozinho. Seus coadjuvantes, ajudantes, mentores e todo resto tornam-se periféricos, pois esta peleja pertence exclusivamente a ele. É a forma que a vida, cruelmente, escancara que o fim disto é responsabilidade dele, seja o que for. E talvez por se mostrar tão cruel com as chances, estes momentos necessários da jornada sejam o motivo da morte de tantos ideais e objetivos.

O herói tenta fugir, tenta esconder a sua face, embrulhar-se até que desapareça. Mas para onde ele vai a provação o persegue, porque ela não é externa, ela faz parte dele. E quando consegue aceitar a necessidade de enfrentar o inevitável, sua maior certeza é a do fim, por mais que outrora ele tenha sido capaz de superar outros conflitos - Nenhum se compara a este. Então, a espada é desembainhada, as últimas forças são tomadas e o encontro ao que o acaso permitir é aceitado. Neste momento, não importa o que fora aprendido, ganhado ou conquistado, a única coisa que importa é este fardo terminar – por mais que o seu triunfo seja ansiado por tantos terceiros.

Um alívio com a sensação do iminente fim é sentido. No entanto, uma força incansável faísca dentro de seu ser, no mais profundo dele. É de natureza desconhecida, começa como uma imperceptível fagulha até preenchê-lo por completo. É um outro lado do herói o qual ele não conhecia até então. O que era antigo e velho, dar lugar ao renovo. Este lado parece não desejar o fim: Ele quer vencer, ele pode conquistar. Jogado, antes da grande batalha, numa dimensão diferente à atual, o herói espanta-se. Nesta realidade paralela, dois tons são suficientes: o branco e o negro; o sim e o não; o começo e o fim; a vida e a morte. Uma explosão cegante inicia-se, ele não é atingido por ela, somente testemunha algo bonito e único - Alguns costumam chamar isto de redenção. O clarão da explosão mata suas conclusões pessimistas, porém mata o seu antigo eu também, aquele descrente das próprias forças. Ele renasce logo em seguida e os tons modeladores desta realidade fundem-se e tornam-se um novo espectro, um artefato que pode ser grandioso, mas que agora cabe em suas mãos.

A recompensa por esta batalha vencida é o elixir, o artefato que o ensinará simplesmente a seguir em frente, a experiência para superar os seus demônios mais tenebrosos. Voltar a desconfiar de si nos momentos de provações faz parte deste arquétipo, mas basta encontrar aquela pequena faísca para desencadear o descontrolado entusiasmo que nos guiará a vitória de cada luta. Tudo isso porque somos grandes, somos fortes... Somos heróis.


N.T.: Este texto faz parte da volta deste inresponsável jovem escritor. I'M BACK!